1911 – Salazar e a Democracia Cristã
Em plena agitação da instauração da República, Salazar vai lendo os doutrinadores católicos ou monárquicos da época. Latour du Pin, Le Play, Charles Maurras, António Correia de Oliveira, Carlos Malheiro Dias e outros, assumidamente de extrema-direita, são autores em que Salazar se alicerça politicamente.
Interessava-se sobretudo por sociologia e pedagogia. A Psycologie de lÉducation, de Gustave le Bon, tornou-se um guia para a sua a formação.
Em le Bon, Salazar podia encontrar muitos argumentos que lhe agradavam: «Grandes líderes políticos são homens que conhecem profundamente a alma da multidão e sabem governá-la porque não têm ilusões quanto à forma discursiva que devem utilizar: muitas imagens, expressões exageradas, nenhuma argumentação, nenhum raciocínio complexo, palavras sonoras e de fácil compreensão e que mexam com a imaginação popular. O bom líder político é alguém que sabe representar e, se preciso, mentir.»
«A necessidade da existência de condutores é evidente porque, sob o nome de chefes de grupos, vamos encontrá-los em todos os países. São eles os verdadeiros soberanos das assembleias. Os homens em multidão não poderiam passar sem um senhor, e é por isso que os votos de uma assembleia geralmente apenas representam as opiniões de uma pequena minoria.».
«As assembleias parlamentares levadas a um certo grau de excitação, tomam-se idênticas às multidões heterogéneas vulgares e os seus sentimentos apresentam por isso a particularidade de serem sempre extremos. Tanto podemos vê-las a praticarem belos actos de heroísmo como os piores excessos. O indivíduo deixa de ser ele próprio e vota as medidas mais contrárias aos seus interesses pessoais.».
«Numa assembleia parlamentar o êxito de um discurso depende exclusivamente do prestígio do orador e não das razões que ele apresenta. O orador desconhecido que chega com um discurso cheio de belas razões, mas unicamente de razões, não tem qualquer possibilidade de ser sequer ouvido.».
«Cada partido tem os seus condutores, que exercem por vezes uma influência idêntica. O deputado encontra-se assim entre sugestões contrárias e sente-se fatalmente muito hesitante. Por isso, no espaço de um quarto de hora, podemos vê-lo muitas vezes votar de forma contrária e acrescentar a uma lei um artigo que a destrói. Por exemplo, tirar aos industriais o direito de escolher ou despedir os seus operários, e depois anular praticamente esta medida através de uma emenda.».
Outras influências na formação do jovem Salazar são as encíclicas do papa Leão XIII, falecido em 1903. Na Diuturnum condenava-se a «excessiva liberdade» e refutava-se a ideia de que a legitimidade do poder civil e político proviesse do povo e afirmava-se que a todo o grupo de homens é indispensável um chefe.
Isso mesmo era reafirmado e desenvolvido na encíclica lmmortale Dei: «Nenhuma sociedade pode existir sem um chefe supremo.» A «soberania por si não esta necessariamente ligada a forma alguma política» e «pode muito bem adaptar-se a esta ou àquela». E «será útil e louvável que os católicos […] se cheguem aos grandes cargos do Estado». Defendia-se a separação entre os poderes civil e eclesiástico: «cada um deles no seu género é soberano», embora seja necessário que «haja entre os dois poderes um sistema de relações bem ordenado».
A liberdade de pensamento e de imprensa era olhada com enorme desconfiança: a «liberdade de pensar e publicar os próprios pensamentos, subtraída a todas as regras, não é por si, um bem de que a sociedade se tenha de felicitar, mas é antes a fonte e a origem de muitos males».
Mas seria na encíclica Rerun Novarum, de Maio de 1891, que Salazar encontra maior interesse. Repudiando a solução socialista, o Papa considera como de direito natural o direito ao salário, e às economias que esse salário permita, e ao livre uso dessas economias, e à propriedade privada portanto. […] A «Rerum novarum» enumera os erros que provocam o mal social, verbera as greves e incita o Estado a «reprimir os agitadores» e advoga o regresso às corporações.
Seguindo sempre a orientação social presente nas encíclicas de Leão XIII e as orientações políticas de Maurras, Salazar combate o anticlericalismo da 1ª República através de artigos de opinião que escreve para jornais católicos.
Na sua formação política estão bem patentes as teorias mais conservadoras da época.
Avesso a soluções que implicassem qualquer representatividade na base eleições directas, a influência da tradição antiparlamentarista é óbvia em Salazar.
O Parlamento não despertava em Salazar qualquer simpatia e era visto com total suspeição. A desconfiança de Salazar em relação à democracia parlamentar e partidária vinha da experiência de uma democracia que exclui à direita os católicos, os monárquicos, os republicanos conservadores e à esquerda os socialistas e sindicalistas. Salazar não está só na sua desconfiança: ela fora partilhada por uma parte da elite política e cultural. Algumas personalidades políticas dos últimos anos da Monarquia tinham avançado uma proposta de reforma do regime monárquico com o intuito de reforçar o poder do executivo e diminuir o do parlamento. Na literatura, tal como na política, os exemplos chegam aos históricos republicanos, como o de Basílio Teles que, ainda no tempo da monarquia, escreve:
«Sim, meus amigos, este povo é ignorante e é indolente, avesso a pensar e a proceder. Incrédulo na aparência, permaneceu sempre bom católico, e, como bom católico, acredita na Providência e nos milagres. A Providência, para ele, começa a surgir, há uns quantos anos, sob a forma, igualmente sobrenatural e maravilhosa, de República. Se, pois, a República, que a nossa deplorável retórica lhe tem apresentado, salvo poucas e louváveis excepções, como uma espécie de divindade, transcendente e tutelar, não fizer desde logo o milagre de lhe liberalizar sossego, bem-estar, fortuna, poderio, e lhe exigir, ao contrário, trabalho, inquietações, sofrimentos, sacrifícios, – a desilusão e o desânimo querem-me parecer inevitáveis.»
[…]
«Como se pretende então que Portugal, onde o jesuíta e o inquisidor floresceram, onde todos os senhores reis foram sempre humildemente obedecidos, e o Sr. D. Carlos pode, quando queira, proclamar-se rei absoluto; – que um país onde a ignorância corre parelhas com a cobardia e o servilismo, onde ninguém sentiu jamais um impulso sincero de revolta e de protesto, onde o jornalismo pouco mais é que bisbilhotice ou grilheta de forçado, jamais compreendesse a missão dum parlamento! E se o parlamento não é mais, entre nós, que ridícula paródia, não será preferível dispensá-lo quando haja um plano sério de governo a pôr em execução, sem demora e integralmente?»
