Depois de muita hesitação, decidi-me pela divulgação deste texto. Não é o primeiro que recebo sobre o assunto, mas até por isso, somos forçados a questionarmo-nos.
Sempre assumi, mesmo publicamente, que se não deve permitir a anarquia e que as forças de segurança devem intervir para garantir a ordem pública.
Por outro lado, sempre defendi que as forças de segurança se não devem deixar instrumentalizar como forças de repressão que os governos utilizam sobre a população.
Tenho uma experiência pessoal, quando antes do 25 de Abril assisti a uma intervenção da malfadada polícia de intervenção, numa passagem de ano no Rossio em Lisboa, carregando sobre as pessoas que ali estavam numa atitude pacífica, de forma cega e criminosa. Lembro-me bem de assistir, eu tinha conseguido resguardar-me na entrada da farmácia ao lado do café Nicola, à agressão que um polícia fez a uma velhota, com uma coronhada na cabeça, tendo ainda presente o enorme barulho que essa coronhada fez (nunca soube se a matou, ou que consequências houve dessa agressão). Ingénuo, dirigi-me à esquadra da PSP no Rossio (teatro D. Maria), identificando-me e denunciando o que acabara de ver…
Pois bem, é tempo de pensarmos, meditarmos no que se vem passando e dar um forte grito de alerta e de basta!
Não é a primeira vez que os distúrbios causados em manifestações têm todo o aspecto e probabilidade de, sendo causados por aparentes extremistas, terem sido provocados, porventura manipulados, instigados ou, sabe-se lá, pagos, por responsáveis de forças policiais (onde, a ser verdade terá de haver cumplicidade da PSP).
Por isso, algumas perguntas terão de ser feitas, exigindo-se aos responsáveis políticos as respectivas respostas:
. Quantos extremistas, que no Camões (noutra manifestação) provocaram desacatos, que agora atiraram pedras, e não só, foram presos? Onde estão?
. De quem é a responsabilidade de, sem aviso prévio como muitos testemunham, apesar do desmentido da PSP, terem carregado de forma brutal sobre todos os presentes, terem perseguido as pessoas até bastante longe – Cais do Sodré e não só – terem-nos prendido e maltratado, etc, etc.
. Qual o papel dos polícias à paisana, infiltrados nas manifestações, se nem sequer conseguem resolver o problema de um pequeno grupo arruaceiro e violento, a quem é permitido estar mais de uma hora a atirar pedras aos polícias?
Muitas outras questões se poderiam levantar.
Pessoalmente, apesar de já ter obrigação de me não deixar levar pelas primeiras aparências, acreditei nas informações da comunicação social, acreditei nos avisos prévios e repetidos feitos pela PSP, e dei comigo a pensar que “só se perderam as que caíram no chão…”
Lamentavelmente, hoje sou levado a pensar que me deixei, mais uma vez, enganar, tendo que pedir desculpa aos que levaram, sem razão para isso…
Procuro não me deixar levar pela teoria da conspiração. Muitas vezes, como no 11 de Setembro, ao olhar para o choque do 2º avião contra uma das torres gémeas, exclamei “ a quem interessa o crime?” e, depois de acrescentar que era à política dos EUA, rematei “foram os serviços secretos americanos que ‘armaram’ os fundamentalistas”, os meus amigos acusam-me de professar essa teoria da conspiração.
Pois bem, já estou habituado a ter razão, a ver que me dão razão, passado algum tempo… como dessa vez…
Não gostaria, portanto, de dar razão aos que me acusam da mania da teoria da conspiração.
Mas, não consigo deixar de fazer, mais uma vez, a pergunta do Sherlock Holmes : a quem interessou o crime? Quem beneficiou com o crime?
E, aqui, de uma coisa estamos certos: a arruaça permitiu esvaziar uma enorme manifestação de protesto que, juntamente com outras anteriores, colocam em cheque o governo. Essa arruaça conseguiu ser a imagem de marca dos acontecimentos desse dia – greve geral e manifestações – em toda a comunicação social, no país e no estrangeiro. Essa arruaça deu ao governo argumentos para acusar as oposições de desordeiros, etc, etc.
Tudo isto, com uma autêntica “cereja no bolo”, que foi a forma extraordinariamente cívica como se comportaram as outras forças de segurança, nomeadamente as da PSP. O que justificou os mais que merecidos elogios…
A luta está a ser dura, extremamente dura. Já se constatou que quem está a destruir o país não recua nos meios que utiliza. Temos de estar atentos e não nos deixar amedrontar. Abril assim no-lo exige!
Cordiais saudações
Vasco Lourenço
Sara Didelet, uma das capturadas pela PSP, durante a manifestação de 14 de Novembro, explica, na primeira pessoa o que se passou e como foi no Tribunal de Monsanto (escrito no dia 15):
”RELATO DA MANIFESTAÇÃO DE 14 DE NOVEMBRO
Ao contrário do que muitos possam pensar eu não tenho qualquer sede de protagonismo ou vontade de me expor, antes pelo contrário, há até alturas em que prefiro honestamente passar despercebida, mas esta altura não é (porque não pode ser) uma delas.
Decidi escrever este texto porque como cidadã sinto-me não só no direito como na obrigação de relatar o que realmente aconteceu na passada manifestação de 14 de Novembro na Assembleia da República, e digo realmente porque infelizmente mais uma vez a comunicação social preferiu manipular e ocultar a verdade, já para não falar das nojentas e falsas declarações da PSP.
Cheguei a São Bento acompanhada do meu namorado e dois amigos por volta das 16:00/16:30 quando o Arménio Carlos da CGTP ainda estava a discursar. Mantive-me lá alguns instantes, tendo depois chegado outra amiga nossa. Entretanto desloquei-me com uma amiga ao Mini Preço e qual não foi o meu espanto ao ver quando voltámos que já as grades tinham sido derrubadas e já um enorme alvoroço ocorria. Quem esteve presente não pode mentir e ser hipócrita dizendo que não houve violência da parte dos manifestantes pois é claro que houve, durante duas horas os polícias do corpo de intervenção foram agredidos com pedras da calçada, balões de tinta, garrafas de cerveja, etc. Foram agredidos sim, mas por uma MINÚSCULA minoria dos que estavam presentes na manifestação! No meio de milhares de pessoas talvez só umas 10 (e bem visíveis) arremessavam pedras e outros objectos. Independentemente da agressão que sofreram NADA justifica o que se passou em seguida… de repente, sem qualquer aviso prévio, (embora a comunicação social e a PSP insistam que houve um aviso feito através de megafone quem esteve presente na manifestação sabe tão bem quanto eu que não se ouviu absolutamente nada e que não foi feito qualquer esforço para que se ouvisse…) a polícia carregou sobre os manifestantes com uma brutalidade sem medida e que eu jamais tinha visto na vida. Como todos os outros comecei a correr e encostei-me à parede, de seguida várias dezenas de pessoas (muitas de idade avançada) se juntaram a mim e tentámos todos proteger-nos uns aos outros. A maioria das pessoas chorava e gritava “PAREM! PAREM POR FAVOR! NÃO FIZEMOS NADA!” e a polícia continuava a espancar toda a gente sem dó nem piedade e ainda com mais força! Vi velhotes a serem espancados, sei de pessoas que viram pais a serem espancados com os filhos pequenos ao colo, sei de pessoas que viram a polícia a tentar espancar uma pessoa de cadeira de rodas e vários manifestantes a rodeá-lo apanhando a pancada por ele para o protegerem. No meio de tanta violência, confusão e multidão histérica tentando sobreviver o melhor que sabia, consegui fugir com o meu namorado mas acabámos por nos perder dos nossos amigos. Continuámos sempre a fugir em direcção à Avenida Dom Carlos I, várias vezes parámos pelo caminho pensando que a polícia já não vinha atrás de nós, e várias vezes tivemos que fugir novamente pois a perseguição continuava. Acabámos por encontrar novamente um dos nossos amigos e depois de vários chamadas telefónicas soubemos que as duas meninas nossas amigas tinham ficado retidas pela polícia, marcámos um ponto de encontro e passados uns minutos elas lá conseguiram fugir e encontrámo-nos todos. Daí para a frente o nosso único objectivo era conseguirmos perceber o que se estava a passar mas acima de tudo assegurarmos também a nossa segurança, mas rapidamente percebemos que tal não seria possível. A polícia pura e simplesmente não parava de perseguir os manifestantes! Continuámos sempre a fugir, parando pelo meio para curtos descansos pois a perseguição continuava… já na Avenida 24 de Julho pensámos estar safos mas que mera ilusão, aí ainda foi pior! A Polícia continuava atrás de nós e de muitos outros mas desta vez disparando balas de borracha! Todos corremos apavorados o máximo que podíamos até que de repente mesmo ao pé da estação de comboios fomos interceptados por um grupo de polícias à paisana que violentamente e chamando-nos todos os nomes e mais alguns nos obrigaram a encostar às grades da estação enquanto mandavam ao chão e agrediam outras pessoas. Lá ficámos sendo enxovalhados e revistados vezes e vezes sem conta. Os rapazes foram todos algemados (uns com algemas e outros com braçadeiras) e separados das raparigas e de seguida fomos obrigados a sentarmo-nos todos no chão sem saber o que ia acontecer pois os polícias só nos intimidavam e não respondiam a nada. Devo frisar que devíamos ser cerca de 15/20 pessoas todos na sua maioria jovens adultos (18/20 anos) e inclusive um rapazinho de 15 anos! Lá fui posta dentro da carrinha com as minhas duas amigas, com o meu namorado e com mais 6 jovens (um dos amigos que tinha ido connosco conseguiu fugir), ou seja 9 pessoas dentro de uma carrinha com capacidade para 6. Fomos dentro da carrinha (os rapazes todos algemados) sem nunca nos ter sido fornecida qualquer informação sobre o lugar para onde íamos ou sobre o que nos ia acontecer. Chegando ao local estivemos uns intermináveis minutos todos fechados dentro da carrinha até que com intervalos pelo meio nos foram tirando de lá um a um, até no final só ficar eu. Fora da carrinha agarraram em mim sempre a gritarem “BAIXA A CABEÇA! OLHA PARA O CHÃO CARALHO!”. Já dentro da “esquadra” (Tribunal de Monsanto, o que por si só representa uma ilegalidade) fui escoltada por uma mulher polícia até à casa de banho onde me obrigaram a despir INTEGRALMENTE, onde me obrigaram a colocar-me de cócoras para verem se tinha algo escondido na vagina ou no ânus, onde me obrigaram a tirar todos os brincos, anéis, pulseiras, atacadores dos sapatos e os próprios sapatos! Fui obrigada a dar o meu nome e data de nascimento. Ficaram com todos os meus pertences (incluindo o telemóvel que antes me tinham obrigado a desligar) e fui levada até à cela de meias num chão gelado! Lá á minha espera estavam as minhas duas amigas e outras duas meninas que também tinham sido detidas. O que se passou a seguir foram duas horas e meia ridículas e sem qualquer sentido… foram-nos sempre negados os telefonemas para casa, sempre que alguém falava nisso alegavam que não sabiam de nada, nunca nos disseram porque estávamos ali, nunca nos respondiam concretamente a nada, apenas mandavam bocas estúpidas! Ficámos na cela duas horas e meia ao frio, sem comer, sem beber, descalços e vá lá que nos deixaram ir à casa de banho embora às meninas tenham dito “espero que tenham aproveitado pois só lá voltam amanhã”. Passadas essas duas horas e meia fomos sendo chamados um a um para recolhermos os nossos pertences e para serem feitas as identificações. Foram preenchidas folhas em que nos eram pedidos todos os nossos dados (BI, nome dos pais, morada, telemóvel, telefone fixo, profissão, etc. …) tendo que assinar no final, caso não o fizéssemos não sairíamos dali. Lá fomos embora, vendo-nos todos no meio do Monsanto muitos sem saberem sequer como ir para casa.
Não fomos espancados na “esquadra” mas fomos todos vítimas de humilhação e violência psicológica. Todos fomos detidos injustamente sem nunca sequer termos sabido o porquê da detenção. Fomos perseguidos como criminosos desde São Bento até ao Cais do Sodré! Éramos todos jovens (como já frisei a média de idades devia rondar os 18/20 anos) cujo único crime cometido foi termos participado numa manifestação. Nem eu, nem nenhum dos meus amigos arremessámos qualquer pedra, garrafa ou o que quer que fosse, não o fiz desta vez nem em nenhuma outra manifestação. Fomos detidos e perseguidos injustamente quando já nos dirigíamos ao Cais do Sodré para apanharmos um táxi para casa!
Quem não esteve presente e não viveu tudo isto certamente pensará que estou a exagerar ou a dramatizar, mas acreditem que não, as coisas foram bem piores até do que aquilo que descrevo. A repressão policial sentida ontem foi muito, muito grave e digna dos mais nojentos regimes fascistas e ditatoriais! As pessoas estavam literalmente a ser espancadas e perseguidas nas ruas e não tinham ninguém que as protegesse! Eu vi velhos cobertos de sangue! Vi mulheres e homens aos gritos de medo e desespero!
Há quem sem sequer ter estado presente insista em “proteger” os polícias e dizer que agiram muito bem, que quem lá estava só tinha era que apanhar, que eles coitadinhos foram agredidos com pedras durante duas horas, que muito pacientes foram eles, que nós os manifestantes somos todos uns arruaceiros. A essas pessoas eu só vos digo: VÃO-SE LIXAR! Abram os olhos, abram a mente e vejam a realidade que vos rodeia! Vão a manifestações e vejam por vocês próprios o que realmente acontece! Sejam humanos, sejam solidários e deixem de acreditar em tudo o que a comunicação social vos mostra! NADA justifica tudo aquilo porque eu e milhares de pessoas passámos e isto não pode ficar impune! Toda a gente tem o direito de se manifestar sem ser agredido brutalmente ou perseguido! Fala-se num aviso feito pela Polícia de Intervenção mas ninguém ouviu esse aviso! Um dos rapazes que foi detido no Tribunal do Monsanto nem sequer tinha participado na manifestação, ia apenas a passar na Avenida 24 de Julho no momento das detenções! Acham isso bem? Acham correcto que dezenas de jovens inocentes tenham sido detidos sem terem cometido NENHUM crime? Eu não acho, acho vergonhoso, nojento e muito grave num país que se diz democrático e de 1º mundo! Foram queimados caixotes do lixo e postos a bloquear estradas? Sim foram, mas tudo como uma resposta de enorme ódio e revolta em relação à acção desumana da polícia! Eu era a primeira a ser contra o arremesso de pedras mas depois do que vi e vivi ontem digo com a maior tristeza do mundo: quem age assim não é um ser humano, é uma criatura maldosa e formatada e merecem o que lhes venha a acontecer daqui para a frente. São cães raivosos, mercenários do Estado que vestem a farda da ditadura em vez de protegerem o povo!
A todos os que foram detidos comigo, principalmente quem veio comigo na carrinha e as minhas companheiras de cela: OBRIGADA a todos! Obrigada pelo apoio, pela união, pelo convívio e risos mesmo numa altura tão triste para todos, pelas canções e assobios, pela partilha de opiniões e experiências e acima de tudo por lutarem por um país melhor para todos! Obrigada também a todos os que estavam à nossa espera à saída do Tribunal do Monsanto e a todos os que se preocuparam connosco.
Estou viva, bem fisicamente mas muito, muito triste e desiludida com tudo o que vivi … ainda estou em estado de choque e a achar surrealmente grave tudo aquilo que se passou. Peço desculpa se o texto não está o melhor possível mas é muito complicado relatar com exactidão tão chocante experiência.
O objectivo era incutir-nos medo e fazer-nos não frequentar mais manifestações? Teve o efeito exactamente contrário: não me calam e jamais me impedirão de lutar por aquilo em que acredito! A luta continua sempre! VOLTAREMOS!”

Espero estar enganado, tal é, independentemente da discordância política, a admiração que tenho pelos militares que arriscaram a vida no 25 de Abril, como Vasco Lourenço, mas se bem percebo, ele afirma:
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“…Procuro não me deixar levar pela teoria da conspiração. Muitas vezes, como no 11 de Setembro, ao olhar para o choque do 2º avião contra uma das torres gémeas, exclamei “ a quem interessa o crime?” e, depois de acrescentar que era à política dos EUA, rematei “foram os serviços secretos americanos que ‘armaram’ os fundamentalistas”, os meus amigos acusam-me de professar essa teoria da conspiração.
Pois bem, já estou habituado a ter razão, a ver que me dão razão, passado algum tempo… como dessa vez…”.
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É difícil de admitir, num texto escrito, que seja lapso a amálgama induzida: os que armaram os fundamentalistas (os americanos, no Afganistão, contra os russos) são os responsáveis pelo ataque às torres!