Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Enquanto a França aparece, por sua vez, estar a mover-se completamente e em linha recta para a recessão (o próximo trimestre será negativo de acordo com o Banco da França antes do próprio INSEE o dizer amanhã) e para além dos malabarismos semânticos que permitem muito temporariamente esconder esta realidade , parece que nós podemos ser obrigados a assistir a um um ponto de inflexão histórico. Sob a pressão das suas principais potências económicas e industriais (Itália e França, bem como a Espanha), a Europa será forçada a ceder, a conceder. O euro, de acordo com a lógica implacável, descrita desde há muito tempo por Jacques Sapir, está à beira de um grande precipício. A sua lógica deflacionária e muito vacilante está a chegar ao fim. Os seus pilotos são incapazes de resolver a “crise da dívida” dos Estados europeus, nem por um mecanismo quimérico de transferência orçamental nem pela política de austeridade. Assim, o dilema é simples: o euro deve mudar ou morrer. E aqui talvez se encontre um facto inesperado: o euro irá mudar.
Isto é, pelo menos, o que nos sugere entrever através das declarações de Mario Draghi, passadas quase desapercebidas nos meios de comunicação, mas certamente não para os mercados. Contra todas as expectativas, ou melhor, contra todas as aparências, este afirmou na sua conferência de 02 de agosto que o BCE estava pronto para intervir de forma NÃO convencional para reduzir as taxas curtas dos países europeus em crise, em especial a Itália e a Espanha, impulsionando o seu programa de recompra de obrigações, descontinuado em 2010. Se ele exclui a atribuição de uma licença bancária ao MEE, mecanismo europeu de estabilidade, órgão instituído pelo Tratado da coordenação de estabilidade e de governança (TSCG), várias vozes se levantaram já – a favor de uma tal medida, como o governador do banco da Áustria, Ewald Nowotny, membro do Conselho de Governadores do BCE. De momento, a blocagem política vem da Alemanha, que se recusa a uma tal medida. Mas o próprio facto de que a monetarização da dívida dos Estados, pois que é disso que se trata, ser agora mencionada no BCE mostra que os diques que se lhe opunham estão em vias de poderem saltar devido á pressão da crise. E isto, independentemente da forma que será utilizada para essa monetarização, pela obrigação de recompra ou pela licença bancária do MEE . E, muito provavelmente, será sem dúvida, a médio prazo, concedida a licença bancária para o MEE, porque este responderá perfeitamente aos objectivos desta criação monetária, que será condicional . Na verdade, essa condicionalidade, que será certamente apresentada como necessária para obter o apoio da Alemanha ao mecanismo, será então inevitável. O BCE vai dizer: ” reformai-vos e tereis créditos. Privatizai e deixareis de ser estrangulados pelos mercados”.

Como o podemos ouvir desde o final de 2011, parece-nos que o euro não vai ser abandonado, pois é uma ferramenta muito poderosa para a liberalização, graças à sua função de mito. Se a arquitectura estabelecida pelo TSCG tem tempo para ser implementada e se o MEE obtém uma licença bancária então, em seguida, esta será a chave de que tudo depende. A todos os países em dificuldade, como tem sido nos últimos meses com a Grécia, será realmente oferecida assistência em troca da aplicação de uma austeridade drástica. Mas, ao contrário da Grécia, esta ajuda já não vai depender mais dos recursos próprios de outros Estados em dificuldade de financiamento mas estará disponível em quantidade ilimitada, enquanto as pessoas acreditarem na moeda euro. A ferramenta assim construída seria de uma eficiência formidável para impor o neoliberalismo em todos os lugares. A crítica, por outro lado, seria sempre esterilizada, uma vez que se trataria de bem defender o euro, logo a Europa também, logo a paz, igualmente “.Além disso, a expressão democrática das Nações seria colocada em cartaz sem problema. É difícil vermos nestas condições, passado os actuais sobressaltos, como é que os nossos líderes recusariam uma tal protecção institucional, face a uma construção política tão bem concluída para ser capaz de impor os seus objectivos. É esta tomada de consciência dos fundamentalistas do BCE ou de uma estratégia de introdução gradual no debate público que reflecte a saída de Ewald Nowotny que afirmou: “Devido a teorias enganosas, uma concentração exclusiva em políticas de austeridade conduziu ao desemprego em massa, a uma ruptura dos sistemas democráticos e, no final, à catástrofe do Nazismo”, citado por Diário Económico em 18/06/12 .
Também pode ser possível mostrar mais em detalhe que a construção da própria Europa – e principalmente a sua auto-promoção junto dos outros povos sempre se fez por uma espécie de messianismo do sentido da história, da irreversibilidade do processo. Todas essas metáforas deixam traços mais profundos do que se pensava nas mentes das pessoas comuns, que interiorizaram o facto de que a construção da Europa era algo de geológico, sobrenatural, que escaparia em grande parte às pobres e pequenas más decisões humanas. Talvez não se esteja a medir bem qual venha a ser o impacto do fim do euro sobre este discurso messiânico. Seria um verdadeiro golpe porque iria forçá-los a interrogarem-se sobre uma organização humana em vez de se deixarem guiar por elementos obscuros em movimento. Não é dito que os oligarcas europeus vão querer assumir esse risco psicológico.
Naturalmente, essa política de imposição do neoliberalismo e da austeridade sem fim para as economias em recessão, se perdurar ao longo do tempo, irá impor a miséria em todos os sítios, como na Grécia ou como no Terceiro Mundo. E, tal como para estes países, a destruição vai ser envolta em bons sentimentos. Acabar-se-á por criticar as pessoas pela pobreza de que estas são vítimas e, em seguida, acusar-se-ão de serem preguiçosas, de corrupção e de outras coisas afins. Até que a miséria os atire uns contra os outros, a menos que, entretanto, eles se atirem juntos contra este sistema iníquo.
Diremos nós [ o blog A Viagem dos Argonautas] a opção é clara porque a questão não é a de mais ou menos liquidez, embora a falta de liquidez acelere o processo de ruína da Europa, a opção é, depois de nos terem tirado tudo, atirarmos-nos uns contra os euros ou…então atirarmos-nos todos contra eles, contra o sistema e os que o fazem e os comandam. Esta é a mensagem bem clara deste texto.

