“SALTOU-ME A TAMPA E DEI-LHE TAMBÉM! E AGORA O QUE VÃO PENSAR DE MIM?” por clara castilho

Chegou-nos à mão a notícia de um estudo efectuado por Ana Rita Dias, Carla Machado, Rui Abrunhosa Gonçalves (Univ.Minho) e Celina Manita (Univ.Porto). Foi publicado na Análise Psicológica (nº1-2-série XXV, Jan-Julho 2012), com o título “REPERTÓRIOS INTERPRETATIVOS SOBRE O AMOR E AS RELAÇÕES DE INTIMIDADE DE MULHERES VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA: AMAR E SER AMADO VIOLENTAMENTE”.

Histórias de mulheres que eram vítimas de violência doméstica que conheci já nem sei quantas são. Algumas que conseguiram reagir, exigir a separação, correndo todos os riscos daí decorrentes, ficando sem o apoio monetário dos maridos, e tendo que se desenrascar sozinhas com os filhos. A elas tiro o chapéu e espero ter contribuído para lhes da força. Algumas sim, confessavam que retribuíam…Mas nunca conheci nenhuma tivesse entrado no sistema da justiça por este facto.

Os autores convidaram para participar neste estudo mulheres que, na sua maioria, tinham sido vítimas de violência continuada mas que, num processo de escalada em termos de severidade e frequência, tinham acabado por agredir os parceiros para parar ou escapar à sua violência. Nenhuma apresentava diagnóstico de psicopatologia ou deficiência mental nem era alvo de intervenção psicoterapêutica.

Sabemos que nas relações a sua violência surge quando existe uma assimetria de poder e de estatuto. Estas mulheres reagiram numa tentativa de diminuição da sua posição de vulnerabilidade e impotência face ao controle de que permanentemente eram vítimas.

 As suas respostas apontam-nos para três ideias centrais que não nos espantam….

 –  “os discursos socio-culturais sobre o amor e a intimidade veiculam uma associação entre amor e violência”. Permanece um ideal de história de paixão que se sobrepõe à violência de que são vítimas, procurando sempre encontrar uma justificação para os actos do parceiro. Procuram desresponsabilizá-lo pensando em factores externos que levaram à ocorrência: (álcool, infidelidade…). Há, assim uma dissociação entre o parceiro “violento” e o “verdadeiro” parceiro.

– “os discursos socioculturais sobre o amor e a intimidade sustentam a “tolerância” à vitimação feminina e restringem amplamente a agressão feminina”. Se fosse o caso contrário, da violência por parte “das mulheres sobre os homens, não seria tão bem acolhida socialmente.

“os relatos de violência perpetrada no feminino veiculam um discurso genderizado tradicional, simultaneamente, revelam a capacidade de agência, resiliência e auto-superação da mulher”. Agindo como uma defesa, como ultimo recurso, depois de terem esgotado todas as outras possibilidades. E mesmo assim, as suas acções são sempre dentro do socialmente razoável.  E ficam elas satisfeitas com os seus próprios comportamentos? Não, elas parecem reconhecer o seu comportamento agressivo como uma violação ou transgressão dos papeis de género prescritos.

 – Os discursos de género estão sempre subjacentes a estas histórias em que às mulheres lhes “saltou a tampa” e reagiram respondendo na mesma moeda. Mas revelam também a capacidade de agir, a resiliência e capacidade de superarem os acontecimentos traumatizantes.

 Para as autoras “a violência feminina emerge da expressão da frustração e da dor pela vitimação continuada (amor desencantado), para expressar a sua frustração e obter respeito emocional (amor apaixonado), para lidar com os desentendimentos e problemas da relação (amor companheiro) e como último recurso para escapar à violência e sair da relação quando não percepcionam apoio externo nem possibilidades de mudança (amor pragmático)”.

 É difícil não ser o resultado da educação que se teve…É difícil esquecer o que se viveu… É difícil encontrar as forças necessárias para a mudança… É difícil conseguir antever qual a melhor forma de efectivar essa mudança…

* Ontem, dia 25 de Novembro foi o Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres.

2 Comments

  1. Sabem que mais…eu sou uma pessoa que já assistiu à mais dura realidade que uma mulher possa ter vivido. Já vi a minha mãe levar pontapés, murros, arrepelões, agredida verbalmente (isso acontece praticamente todos os dias)…e nunca um vizinho meu ligou sequer para a GNR ou PSP, eu já liguei 3 vezes, descobriram que o filho (eu) tinha ligado para as autoridades, inclusivé falar com a APAV e foi reprimido pelas pessoas da minha aldeia, diziam que um filho nunca deveria denunciar um pai e por ai… fiquei deprimido… estou a escrever este texto e ao mesmo tempo escuto o meu pai mandar bocas para toda a gente e abrir e fechar gavetas à velocidade de um relâmpago que imite um som estrondoso… Tenho pena da minha mãe e do meu irmão mais novo… somos pobres, e não temos para onde ir, as autoridades demoram a actuar… toda a gente se encontra desempregada mas a minha mãe vai trabalhando uns dias para ajudar no pagamento dos empréstimos contraídos para a casa… o meu pai (se é que lhe posso chamar disso), nunca contribuiu com um cêntimo para pagar a casa, diz que a casa não é dele e que não vai pagar nada, mas contribui para a sua destruição, já estragou uma TV, um armário, porta do frigorífico, vários pratos e copos, panelas, interruptores de electricidade… enfim… imensas coisas… Estou cansado disto, se uma pessoa denúncia mais uma vez ele é capaz de cometer uma loucura e isto de não termos para onde ir é do pior. Neste momento ouvi-o cuspir no chão da casa… Se ele vai preso as pessoas daqui da aldeia deixam-nos de falar. Maldito país, maldita sociedade… Se eu pudesse levava-los comigo para longe… mas não tenho esse poder.

  2. Caro Ruben:

    Não posso responder-lhe com o que me vai na alma depois de ler o seu testemunho!
    Sei que estas situações existem, algumas são-me contadas directamente e para elas tento arranjar uma solução, que umas vezes funciona, outras não. Mas vivo em Lisboa, onde há diversos serviços que podem colaborar uns com os outros e preparar uma saída, pensada em todas as vertentes.
    No seu caso, sobressai a sua solidão, assim como a de sua mãe, e a preocupação com o seu irmão, Pelo que diz, conhece os vários serviços a que pode recorrer. Refere a APAV. Dado que há um irmão mais novo, penso que menor, existe a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens da sua zona. E há o SOS Criança ( 116 111 ou iac-soscrianca@iacrianca.pt).
    Mas fica o seu receio quanto às consequências de uma intervenção… Daí a vantagem de um estudo da situação que possa proteger todos os intervenientes, num trabalho em rede.
    Não consegue arranjar na comunidade quem seja sensível ao vosso caso? Aguentar tudo sozinho é um grande fardo! Ao responder às minhas reflexões, partilhou comigo e com todos os outros leitores. Não sei se isso o ajudou. Poderá escrever-me directamente para o email aviagem@sapo.pt

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