A CORAGEM DE SE ASSUMIR UM AMOR MESMO À CUSTA DE SER CONSIDERADA DOIDA – ADELAIDE FERREIRA DA CUNHA por clara castilho

Foi a referência feita pelo Dr. Carlos Poiares, numa conferência, que me fez ir pesquisar a vida de Adelaide Ferreira da Cunha. Afinal já tinha inspirado Augustina Bessa Luís (Doidos e Amantes, 2005), que eu não lera, e um filme de Monique Rutler (Solo de Violino), que eu não vira. Imperdoável! Mas do que fiquei a saber quero aqui deixar nota.

Centremo-nos em Portugal, na altura do pós Primeira Guerra Mundial (1918), ainda no período da Primeira República. As condições sociais eram de uma grande pobreza social e analfabetismo, em que o homem imperava na família e no país.

Pois, esta senhora, Adelaide de seu nome, aos 48 anos, chocou a sociedade dominante. Era filha do fundador do “Diário de Notícias” e casada com Alfredo Carneiro da Cunha, advogado e fundador de Associação de Jornalistas e Homens de Letras de Lisboa, director do Diário de Notícias e da Tipografia Universal, ao qual se devem vários estudos sobre o movimento jornalístico.

Apaixonou-se pelo seu motorista pessoal e com ele fugiu, em 1918, disposta a viver uma vida à margem da sociedade a que estava habituada. Vivera um casamento de 28 anos e era mãe de um jovem que nunca lhe perdoou.

 

O tempo que durou essa relação foi apenas de 23 dias, pois a reacção foi a perseguição, baseada na lei então vigente (de 1911), que dizia que qualquer pessoa poderia requerer o internamento de outra no manicómio, desde que apresentasse o atestado de dois médicos e um exame de Júlio de Matos. Quem se prestou a isso, assentando-lhe um diagnóstico de loucura,  foram os célebres médicos Júlio de Matos, Egas Moniz e Sobral Cid. E assim  Maria Adelaide foi internada no Hospital Conde de Ferreira , corria o ano de 1919, onde esteve durante 8 meses. Paralelamente Manuel Claro foi também preso, sem culpa formada, ficando  na Cadeia da Relação, no Porto, durante cerca de quatro anos.

«Se em vez de me haver deixado apaixonar por um filho do povo, me tivesse agradado dum duque ou dum marquês, nem eu era uma doente, nem a família se julgava desonrada”.

Mais tarde decide contar o seu «crime de amor», em livros – Doida, não (com duas edições esgotadas) e em cartas O Martírio de uma mulher – publicadas no jornal A Capital, entre 1918 e 1920. Seu marido também recorreu à publicação de um livro, Infeliz!Mente e a respostas no Diário de Notícias.

«Imagina que não me fizeram nenhum exame médico para aqui me meterem; mas o dinheiro pode tudo e a prova está à vista. É preciso que desconfies de tudo e de todos em toda a parte e principalmente do Balbino Rego que teve tudo isto um papel de miserável, como depois de contarei…”»

Maria Adelaide e Manuel Claro voltam a juntar-se, depois de ela perder todos os seus bens, e viveram juntos mais de 30 anos, sem nunca se terem casado.

Viria a morrer na sua casa, no Porto, no ano de 1954, com 85 anos. Manuel Claro morreria em 1967, vítima de cancro.

A vida desta mulher foi alvo de estudo por parte de Manuela Gonzaga, com um estudo biográfico ou romance biográfico “Doida não e não – Maria Adelaide Coelho da Cunha”, Bertrand, 2009. Também Isabel Nobre Vargues (FLUC/CEIS20) apresentou “O “caso” Adelaide da Cunha/Maria Adelaide na comunicação e no jornalismo: como analisar um exemplo de doença mental nos anos 20 do século XX?” na 1ª Jornada de História da Psiquiatria e Saúde Mental,  CEIS20, 2010.

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