A REVOLTA DOS FUNCIONÁRIOS, por André Brun

(1881 - 1926)
(1881 – 1926)

 

 

 

 

 

IV

Nos outros ministérios davam-se cenas equivalentes.

No das Colónias, por exemplo, apareciam sujeitos dizendo:

― Fui nomeado há tempos inspector de 1ª classe das bananeiras de Macau. Com o coeficiente doze já não posso viver em Portugal. Quero ir com a família para o meu posto. A banana alimenta muito e, segundo me consta, em África pode-se andar de tanga.

― Mas V. Ex.ª, acudia o director-geral, está convencido que Macau é África?

― Seja lá onde for. Não faço questão disso.

― E V. Ex.ª tem a certeza que Macau existe?

― Pelo menos, é o que se diz…

― Qual história! Isso são boatos.

― Mas há pouco marchou para lá um governador.

― Isso sim. Está a passar o verão em Carnaxide. Se o senhor vai a acreditar em tudo quanto os jornais anunciam…

No ministério da Instrução a tática foi outra. Os professores, reunidos em sessão plenária no areal da Junqueira, resolveram por unanimidade a sabotagem da instrução. E os resultados em oito dias são estupendos. Ontem, um inspector superior da Instrução Secundária passava numa rua e viu um casarão de boa aparência.

― Que vem a ser isto? perguntou ele a um polícia.

― É o liceu Vasco da Gama.

― Um liceu? É curioso, murmurou o inspector, mirando o edifício. Como será tudo isto feito por dentro?

Entrou e perguntou pelo reitor. Este acudiu pressuroso.

― Sr. inspector, vou fazer assistir V. Ex.ª a algumas aulas. Por onde quer começar? Pela botânica, pela balística, pela química ou pela velocipedia? Talvez prefira a história.

― Pois sim, concordou o inspector.

À entrada, os alunos que estavam a fumar e a jogar o monte, levantaram-se e o professor, informado pelo reitor, oferecendo uma cadeira ao inspector, chamou o aluno mais habilitado.

― Diga, menino, a lição que eu lhes ensinei ontem e tinha marcado para hoje. Fale-nos um pouco de D. Nuno Álvares Pereira.

― D. Nuno Álvares Pereira, respondeu logo o insecto, filho de D. Carlota Joaquina e do cardeal D. Henrique, foi o terceiro rei da dinastia de Bragança. Sucedeu no trono ao Dr. Bernardino Machado e os factos mais notáveis do seu reinado foram a inauguração da feira Mayer, o descobrimento do caminho subterrâneo para a Índia, a invenção dos side-cars, e as guerras da Independência. Foi casado em primeiras núpcias com D. Inês de Castro, de quem teve três filhos, D. Diniz, o Lavrador, que foi chamado à praça no final da lide do 5º touro, D. Bartolomeu Dias, fundador da Imprensa Nacional e D. Catarina de Ataíde, mais conhecida pela “Maminha gentil que te partiste”.

(conclui no próximo sábado)

In Procópio Baeta – Ditos e Feitos de um Burguês Lusitano do Primeiro Trinténio do Século XX. Primeira edição, 1927, Livraria Editora Guimarães & C.ª.

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