Antologia de poemas de Lêdo Ivo numa edição portuguesa
Nunca deixamos de proclamar contra um grande problema existente entre os dois universos literários do Brasil e de Portugal: a crônica falta de edições portuguesas de autores brasileiros; bem como a correspondente lacuna das edições brasileiras que poucas vezes se debruçam sobre obras de escritores portugueses. As poucas exceções nos dois mercadores editoriais não modificam um tal quadro de grave negatividade.
Também por tais razões merece o maior realce o aparecimento, neste 2012, de uma ampla antologia poética de Lêdo Ivo, com apresentação e seleção do igualmente poeta Albano Martins e com um magnífco ensaio introdutório do poeta brasileiro, numa elegante produção das Edições Afrontamento, do Porto. A seleção de Albano Martins se corporifica com 205 poemas presentes em 21 livros de poesia de Lêdo Ivo, numa produção poética que parte do livro inaugural, As Imaginações (1940-1943), prolongando-se criativamente até as composições do inédito, Mormaço.
Diante dessa ótima edição da Afrontamento, depois da breve apresentação de Albano Martins, nos confrontamos inicialmente com um texto introdutório de Lêdo Ivo, no qual reconhecemos imediatamente as grandes qualidades do ensaísta e crítico, autor de O universo poético de Raul Pompéia, aliado ao fino autor de autobiografias do teor de Confissões de um poeta.
Trata-se de uma introdução com a qual Lêdo Ivo mais uma vez traduz a profundidade de sua poética que tanto contribuiu e continua a contribuir à constante modernidade da melhor poesia brasileira contemporânea.
O poeta que encontrou seus primeiros incentivos na poesia de Rimbaud, desde um sugestivo episódio que lhe aconteceu aos 15 anos:
“(… ) Veio às minhas mãos um jornal com uma notícia sobre a vida e a poesia de Jean-Arthur Rimbaud e que reproduzia o poema Les effarés. Esse poema foi para mim uma epifania, uma estonteante descoberta de mim mesmo, daquilo que jazia dentro de mim à espera da expressão e possível comunicação – à espera da linguagem.“
Depois de uma iniciação poética tão específica, Lêdo Ivo começa a edificação de uma própria poesia. E para ela assume consciência de uma série de princípios norteadores:
“(…. ) O poeta pensa por imagens. Assim, em meu trabalho poético a materialidade e a concretude reclamam ser plenamente identificadas e reconhecidas. (… …) Poesia: arte de ver, galáxia de imagens e visões; sortilégio da linguagem. “Assim se forjou o poeta que, juntamente com João
Cabral de Melo Neto representam o processo da melhor estabilização da revolução realizada pela Geração modernista de 1922, encaminhada à criação da constante criatividade lírica dos poetas brasileiros contemporâneos.
A antologia publicada pelas Edições Afrontamento, além de ser um valioso produto gráfico, tradutor da boa qualidade média das edições realizadas em Portugal, mais valiosa ainda se faz quando de certa forma neutraliza o isolamento literário existente entre as literatura brasileira e portuguesa. A poesia de Lêdo Ivo tem igualmente este poder, dote derivada da alta qualidade lírica de poemas como
“O Barco Branco “, do livro inédito, Mormaço:
Penso um barco branco atravessando o mar.
Vejo um barco branco atravessando o mar.
Sonho um barco branco atravessando o mar.
Sinto um barco branco no meu pensamento,
Penso o meu pensamento sobre um barco branco.
Sou um barco branco e atravesso o mar.
