REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930

Selecção, tradução, e introdução por Júlio Marques Mota

europe_pol_1993

 

O euro, stop ou então? Entrevista com Philippe Murer

Sexta-feira, 21 de Setembro de 2012,

(CONCLUSÃO)

Parte V

– O tabu da saída do euro

Philippe Murer pensa que as actuais elites que criaram  o euro, não podem encarar a hipótese de colocarem o próprio euro em questão e condenam-se assim a encontrar soluções provisórias para ganhar tempo e ir adiando o momento da verdade.

 murerentrevista - XVI

Em paralelo, Murer  reconhece que as populações europeias continuam a estar ligadas ao euro, mas evoca um inquérito de Pew Institute que mostra que mais especificamente, os europeus não consideram que a chegada do euro tenha sido positiva para eles, mas ainda sentem que sem o euro será provavelmente pior. A atitude dos media sobre este assunto está necessariamente posta em causa, porque eles perpetuam esta ideia de apocalipse em caso de saída do euro e também não organizam grandes debates sobre temas como o TSCG. E isto enquanto que cerca de 72% dos franceses defendem um referendo!

– Que alternativa? Moeda comum, BCE, Proteccionismo,

Em jeito de conclusão, Murer considera que seria necessário admitir que o euro não pode estruturalmente funcionar entre os 27 países da zona e que, em vez de querer ganhar tempo a espera de uma explosão violenta da zona euro, ou seja, em vez de estar a querer ganhar tempo, deve ser considerada antes a hipótese de uma saída concertada, um retorno às moedas nacionais que iriam estar ligadas entre si, como estavam no SME. Isto permitiria que países como a Grécia ou Espanha, por exemplo, pudessem desvalorizar, de encontrar assim a sua competitividade e que isso fosse também acompanhado de um incumprimento parcial sobre a dívida, para sair dentro de um a dois anos desta recessão actual, o modelo da Argentina no início dos anos 2000 . Para mais elementos sobre essa saída de crise alternativa baseada numa desvalorização, eu recomendo uma entrevista dada por Sapir sobre o tema. Retornar a um sistema de moeda comum, sistema próximo do SME, necessitaria que se enfrentasse também a liberdade de circulação de capitais actualmente gravada no Tratado como uma liberdade fundamental, sem o que a moeda de cada país iria sofrer o mesmo tipo de ataques especulativos que levaram à explosão do SME em 1993 .

murerentrevista - XVII

Se essa opção de moeda comum é desejável, Murer acredita no entanto que quanto mais se agrava a situação económica, menos poderá ser possível implementar soluções de cooperação entre países.

Outra proposta de Murer para relançar a economia da zona, mesmo sem a saída do euro seria a de por em prática verdadeiros programas de relançamento industrial centrados sobre as energias de transição (poupança de energia, energias renováveis), apoiando-se sobre o financiamento a baixo custo pelo BCE, através do Banco Europeu de investimento. Mas ele também lembra que uma política ambiciosa de relançamento da economia também levantaria a questão do proteccionismo, pois sem isso, o programa de relançamento das economias traduzir-se-ia principalmente pelo aumento das importações de produtos e de tecnologias, fabricadas a baixo custo na Ásia, como foi o caso, por exemplo, em França com os subsídios para aquisição de equipamento para a obtenção de energia solar. É, portanto, num novo quadro que deve ser pensado e proposto, integrando a moeda, o proteccionismo, o controlo de capitais, a reorientação industrial para uma economia sóbria ao nível das energias utilizáveis e renováveis e também considerar necessário a desfinanceirização da economia.

 murerentrevista - XVIII

É este quadro que gostaria de aprofundar nas próximas semanas para tentar alternar entre a crítica do sistema actual, que me parece sempre necessária e, por vezes, indispensável, como no caso do TSCG, mas que é pouco motivadora e mobilizadora e as propostas alternativas são mais estimulantes. Eu também prosseguiria nas acções concretas que são realizadas para fazer mexer as coisas como, por exemplo, as iniciativas do Forum Democrático em que Philippe Murer está fortemente empenhado.

Sobre o euro, trabalhar sobre esta série de artigos tem-me convencido passo a passo que ele provavelmente está condenado dado o estado em que estão as coisas  e que a opção de uma moeda comum com controles de capital seria a melhor alternativa. Assim partilho por agora a análise e as sugestões de Jacques Sapir e de Philippe Murer sobre o assunto, mas estou com medo, tal como eles, que uma tal solução concertada seja muito difícil de imaginar, e que se irá talvez caminhar para a saída de um país primeiro e, em seguida, para uma explosão e depois a reconfiguração da zona euro actual. Dito isto, eu gostaria de continuar a aprofundar este tema, em especial sobre as dificuldades que criaria uma saída do euro e como as superar. Eu gostaria também de estudar os argumentos daqueles que, como Gaël Giraud, Dominique Plihon ou, num registo mais político, os argumentos de Jean-Luc Mélenchon, que partilham em 90 % a análise critica do sistema actual, mas em que pensam que o euro ainda pode ser preservado.

murerentrevista - XIX

Termino com uma citação de Frédéric Lordon: “não é inexacto dizer, às vezes, que “não há nenhuma alternativa”, mas na condição – fora da qual se constitui uma escroqueria intelectual – de acrescentar também que uma proposta desse tipo tem validade somente dentro de um determinado quadro e sob a premissa de implicitamente não se modificar este mesmo quadro. Ora, se em ” certo quadro”, não há nenhuma outra solução possível, há , no entanto, sempre a solução de sair do quadro . E de o refazer.. »

Disponível no site :  http://blogdenico.fr/?p=1909

Leave a Reply