EM VIAGEM PELA TURQUIA – 59 – por António Gomes Marques

(Continuação)

 Como vimos, desintegrado o Império Otomano, fundada a República, a Turquia tem vindo a desenvolver uma aproximação político-cultural à civilização ocidental, não devendo esquecer-se, no entanto, que o território que constitui a Turquia actual foi a base da civilização ali desenvolvida até ao século XV. Convém, no entanto, explicitar o que, na altura, se entendia por «civilização», aproveitando o que o historiador e politólogo turco Hamit Bozarslan escreve num seu artigo, de que transcrevemos a parte seguinte: «Nos anos 1920, com efeito, o regime kemalista considerava a república como sinónimo de mudança de civilização. Na esteira de Ziya Gökalp, entendia por «civilização» a «civilização contemporânea», melhor dizendo, europeia, erigida como horizonte universal de todas as nações, sem qualquer distinção. Do mesmo modo, apreendia a noção de laicidade (termo que não tinha ainda sido oficializado) como a expulsão da religião da esfera do Estado (e não a renúncia do Estado ao seu direito de controlar o campo religioso), a sua «racionalização» e a sua «turcificação». Enfim, a fusão orgânica entre o Estado e a sociedade era compreendida como a predominância do primeiro sobre a segunda, bem como sobre o domínio económico e social.» (in «A república kemalista na Turquia, 1923-1938», Revista “Ler História”, n.º 59/2010).

Como vimos, após a morte de Mustafá Kemal Atatürk, İsmet Inönü foi eleito Presidente da República, prosseguindo a política do seu companheiro de luta e procurando manter-se neutral durante quase toda a II Guerra Mundial, vendo-se «obrigado» a aderir aos Aliados em 23 de Fevereiro de 1945, quando a guerra já estava próxima do fim.

                 Imagem1      

Ancara, hoje

«Ao contrário do desastre da participação otomana na I Guerra Mundial, que levaria à desintegração do Império, a neutralidade do jovem Estado turco durante a II Guerra Mundial acabou por ser muito benéfica para o país. Desde logo, porque a Turquia não sofreu as destrutivas consequências da guerra, nem teve de investir no esforço militar para esse efeito. A principal vantagem para a Turquia proveio, no entanto, da reestruturação do sistema internacional do pós-guerra, com o posicionamento geoestratégico turco (na intersecção entre o espaço Soviético e o Médio Oriente, mais o controlo sobre o estreito do Bósforo) a revelar-se central para os interesses do bloco ocidental.», escreve André Barrinha, in «Política Externa – As Relações Internacionais em Mudança», com Coordenação de Maria Raquel Freire, no Capítulo 15, “Turquia”, Janeiro de 2011, Imprensa da Universidade de Coimbra.

Esta sua participação na II Guerra Mundial aprofundou as suas relações com a Europa Ocidental, cimentando o que foi para a República Turca o elemento central da sua política externa. Devido a esta participação, a Turquia é convidada, em 26 de Junho de 1945, para a Conferência de S. Francisco, assinando a Carta das Nações Unidas, tornando-se, assim, um dos países fundadores.

A Europa, no final da guerra, fica dividida em dois blocos; na China, o Partido Comunista, sob o comando de Mao Tsé-Tung, vai ocupando a China continental; a Coreia é um problema e a União Soviética não desistiu das suas ambições sobre o Mar Negro e os estreitos turcos; na Grécia, o Governo, graças ao apoio da Grã-Bretanha, vai resistindo com dificuldade ao avanço das forças comunistas, sendo estas ajudadas pela Bulgária, a Jugoslávia e a Albânia. Mas a Grã-Bretanha, arruinada pela guerra, tem de reduzir as despesas e retirar-se de algumas das zonas que ocupa, ficando na sombra da nova potência mais poderosa do mundo, os Estados Unidos da América do Norte, que não intervinham fora do seu território e que se viram obrigados, na II Guerra Mundial, a abandonar esta sua tradição.

“É nestas condições que, a 12 de Março de 1947, o Presidente Truman declara ao Congresso que os Estados Unidos estão dispostos a tomar o lugar dos Britânicos na Grécia e na Turquia, pedindo para o efeito o apoio dos congressistas; «Chegou o momento dos Estados Unidos entrarem em campo, liderando o mundo livre.» Foi assim que Truman deu o passo que faria com que os Estados Unidos abandonassem o seu isolamento tradicional e se aproximassem do mundo ocidental. Os princípios da nova política externa americana são simples: a manutenção da paz, a expansão da prosperidade e a progressiva implantação do modelo americano.” (in Maurice Vaïsse, «As Relações Internacionais desde 1945», págs. 24/5, Edições 70, trad. de Rosa Carreira, Sérgio Coelho e Pedro Elói Duarte, Lx., Outubro de 2012).

Como também lembra M. Vaïsse, «No fim da guerra, apenas os Estados Unidos conservam intacta a sua capacidade económica», o que veio a facilitar-lhes, sobretudo, «a progressiva implantação do modelo americano», como nós bem sabemos. E é esta capacidade económica que vai permitir que a Turquia resista à pretensão da União Soviética de instalar bases militares nos estratégicos estreitos turcos, recebendo auxílio militar e económico dos Estados Unidos da América do Norte, levando a Turquia a aderir, em 18 de Fevereiro de 1952, à OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte, a aliança militar que havia sido criada em 4 de Abril de 1949 entre os aliados ocidentais, com clara liderança dos Estados Unidos, já no contexto da «Guerra Fria», criando assim um sistema de defesa colectiva em que os seus membros concordam em constituir uma defesa mútua para resposta a um possível ataque de uma entidade externa, entidade esta que sabemos ser o bloco socialista liderado pela União Soviética, bloco este que acabaria por responder criando também uma aliança militar, com a designação de Pacto de Varsóvia, cujos membros foram a União Soviética e os seus satélites do Leste europeu, aliança esta já desaparecida em consequência da queda do Muro de Berlim, em 8 de Novembro de 1989, considerado um dos maiores símbolos da Guerra Fria, senão mesmo o maior.

in: http://obviousmag.org/archives/2009/11/queda_muro_berlim.html

Imagem2

O desaparecimento deste muro é também hoje o símbolo do desmoronamento do chamado «comunismo real» na Europa Central e Oriental, o qual veio permitir a reunificação da Alemanha em Outubro de 1990, alargando de imediato o território da União Europeia.

Mas isto é outra história; voltemos à Turquia.

(Continua)

Leave a Reply