UTOPIA, PRECISA-SE…! – 3 – por Manuel Barbosa Pereira

 (Conclusão)

Coniventes, a clientela orgânica que beneficia  de mordomias avultadas e de acesso limitado  ao Erário público corrente; e cúmplices, os padrinhos  com “direitos” ilimitados assim como  os especialistas artífices da blindagem “legal” e  contratual que a todos assegura impunidade vitalícia(?).  Nas operações dos milhões sacados  em ajustes directos, derrapagens de obras públicas  e demais contratos milionários da Administração  central e local, é voz corrente que só 20 por cento  chegam a dar entrada nos cofres do partido “patrocinador”,  perdendo-se em contas off shore o  rasto dos restantes 80 por cento. Um dos muitos  exemplos gritantes entre nós, foi o contrato assinado  por um instituto público em 21/04/2010,  no valor de € 20.191.227,00, para “aquisição de  tinteiros e tonners”!

A corrupção generalizada e a gigantesca desproporção  das forças em presença concorre, naturalmente,  para este panorama pessimista onde  não se vislumbra qualquer luz ao fundo do túnel.  O monopólio da comunicação social e a prática  sistemática da censura são armas poderosas  para divulgar apenas conteúdos falsos, parciais  ou estupidificantes. A denúncia e debate dos  factos e acontecimentos reais relevantes é quase  sempre excluída dos horários nobres e relegada para órgãos de reduzida audiência. A Internet  resta assim como único meio para encontrar  informação alternativa sobre os eventos mais  significativos da humanidade – presentes e passados  – bem como toda a informação importante  sobre qualquer área do conhecimento. Informações,  reportagens, debates e intervenções  que nunca chegam a nossas casas pelas dezenas  de canais da TV e que a pesquisa fácil de CVs  na Internet permite confirmar da credibilidade  dos seus autores – onde abundam cidadãos americanos  laureados com o prémio Nobel, reputados  cientistas, jornalistas e outros. Não se justifica  portanto nos dias de hoje deficites de informação  em matéria de tanta responsabilidade. Cabe a  cada um, pois, a opção de se informar e/ou esclarecer.

Caberá a cada um exercer (ou não) o  direito de Cidadania. E do patriotismo!  Depois da República de Platão e da obra de Thomas  More no século XVI, tornou-se lugar-comum  classificar como “utopia” qualquer projecto de  sociedade ideal por se afastar demasiado do  status quo e paradigmas em vigor. Ambição e  perfeccionismo conceptual parecem contudo  obrigação indeclinável em matéria com tanto  impacto no Futuro e bem-estar da pessoa humana.
E também na pesquisa de soluções para  o magno problema da preservação de um planeta  em rota de extinção, do qual todas as gerações  dispõem apenas de contrato de arrendamento.  Mormente, quando é evidente a necessidade  imperiosa de um novo modelo de sociedade baseado  na abolição dos sistemas monetaristas escravizantes  e numa economia de recursos renováveis  para satisfação das verdadeiras necessidades  da humanidade. Uma UTOPIA capaz  de enformar finalmente a (des)construção do  ”admirável mundo novo” da premonição clarividente  de Aldous Huxley. Através da construção  de um Novo Homem e da desmontagem radical  do modelo com alfas e betas já em serviço…

Uma utopia centrada na equidade da distribuição  da riqueza e na construção colectiva da felicidade  individual.  A falência até hoje de todas as ideologias e sistemas  políticos – por omissão ou convicção –  em prosseguir estes objectivos, está a matar toda  a esperança de um futuro melhor para a humanidade. É tempo portanto de reabilitar a utopia  e incentivar a sua gestação. Fazem falta propostas  estruturadas de novos modelos de sociedade,  vacinados de raiz contra os “valores” perversos  do capitalismo selvagem que campeia no mundo inteiro. Há que ter, no entanto, a coragem de  abandonar o logro impossível do crescimento  económico permanente de todas as economias  e do consumismo suicidário decorrente deste ito. Programas ambiciosos de implementação  – sem os erros fatídicos do passado – seriam requisito obrigatório para recuperar os valores  perdidos desta civilização moribunda. Só possível  com um Homem Novo, métodos novos e novas  organizações. Organizações humanas!

Termino com o estado de Portugal nesta 5ª avaliação  da execução do Memorando assinado com  a Troika pelos três partidos “coveiros” do país.  Embora destinado a “recuperar a confiança dos  mercados e saldar a dívida e o deficit” os resultados  da austeridade foram nefastos: aumento do desemprego  para 16 por cento; aumento da dívida  para 120 por cento do PIB; aumento do deficit  para 6,2 por cento; e 90 por cento da soberania  alienada com aumento exponencial do fosso  entre portugueses ricos e pobres… Todos sabemos  – e os credores também – que o montante de  tal dívida é impossível de pagar e que mais de  60 por cento é dívida ilegítima e odiosa, contraída  em conluio entre as partes contratantes, com corrupção e traição nacional à mistura. Daí que  a única alternativa justa e patriótica para honrar  a dívida legítima (40 por cento?), nunca poderá ser mais, da mesma austeridade (!), mas antes  a sua reestruturação imediata pelo prazo mínimo  de dez anos. Com ou sem ameaça de represálias!

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