(Conclusão)
Coniventes, a clientela orgânica que beneficia de mordomias avultadas e de acesso limitado ao Erário público corrente; e cúmplices, os padrinhos com “direitos” ilimitados assim como os especialistas artífices da blindagem “legal” e contratual que a todos assegura impunidade vitalícia(?). Nas operações dos milhões sacados em ajustes directos, derrapagens de obras públicas e demais contratos milionários da Administração central e local, é voz corrente que só 20 por cento chegam a dar entrada nos cofres do partido “patrocinador”, perdendo-se em contas off shore o rasto dos restantes 80 por cento. Um dos muitos exemplos gritantes entre nós, foi o contrato assinado por um instituto público em 21/04/2010, no valor de € 20.191.227,00, para “aquisição de tinteiros e tonners”!
A corrupção generalizada e a gigantesca desproporção das forças em presença concorre, naturalmente, para este panorama pessimista onde não se vislumbra qualquer luz ao fundo do túnel. O monopólio da comunicação social e a prática sistemática da censura são armas poderosas para divulgar apenas conteúdos falsos, parciais ou estupidificantes. A denúncia e debate dos factos e acontecimentos reais relevantes é quase sempre excluída dos horários nobres e relegada para órgãos de reduzida audiência. A Internet resta assim como único meio para encontrar informação alternativa sobre os eventos mais significativos da humanidade – presentes e passados – bem como toda a informação importante sobre qualquer área do conhecimento. Informações, reportagens, debates e intervenções que nunca chegam a nossas casas pelas dezenas de canais da TV e que a pesquisa fácil de CVs na Internet permite confirmar da credibilidade dos seus autores – onde abundam cidadãos americanos laureados com o prémio Nobel, reputados cientistas, jornalistas e outros. Não se justifica portanto nos dias de hoje deficites de informação em matéria de tanta responsabilidade. Cabe a cada um, pois, a opção de se informar e/ou esclarecer.
Caberá a cada um exercer (ou não) o direito de Cidadania. E do patriotismo! Depois da República de Platão e da obra de Thomas More no século XVI, tornou-se lugar-comum classificar como “utopia” qualquer projecto de sociedade ideal por se afastar demasiado do status quo e paradigmas em vigor. Ambição e perfeccionismo conceptual parecem contudo obrigação indeclinável em matéria com tanto impacto no Futuro e bem-estar da pessoa humana.
E também na pesquisa de soluções para o magno problema da preservação de um planeta em rota de extinção, do qual todas as gerações dispõem apenas de contrato de arrendamento. Mormente, quando é evidente a necessidade imperiosa de um novo modelo de sociedade baseado na abolição dos sistemas monetaristas escravizantes e numa economia de recursos renováveis para satisfação das verdadeiras necessidades da humanidade. Uma UTOPIA capaz de enformar finalmente a (des)construção do ”admirável mundo novo” da premonição clarividente de Aldous Huxley. Através da construção de um Novo Homem e da desmontagem radical do modelo com alfas e betas já em serviço…
Uma utopia centrada na equidade da distribuição da riqueza e na construção colectiva da felicidade individual. A falência até hoje de todas as ideologias e sistemas políticos – por omissão ou convicção – em prosseguir estes objectivos, está a matar toda a esperança de um futuro melhor para a humanidade. É tempo portanto de reabilitar a utopia e incentivar a sua gestação. Fazem falta propostas estruturadas de novos modelos de sociedade, vacinados de raiz contra os “valores” perversos do capitalismo selvagem que campeia no mundo inteiro. Há que ter, no entanto, a coragem de abandonar o logro impossível do crescimento económico permanente de todas as economias e do consumismo suicidário decorrente deste ito. Programas ambiciosos de implementação – sem os erros fatídicos do passado – seriam requisito obrigatório para recuperar os valores perdidos desta civilização moribunda. Só possível com um Homem Novo, métodos novos e novas organizações. Organizações humanas!
Termino com o estado de Portugal nesta 5ª avaliação da execução do Memorando assinado com a Troika pelos três partidos “coveiros” do país. Embora destinado a “recuperar a confiança dos mercados e saldar a dívida e o deficit” os resultados da austeridade foram nefastos: aumento do desemprego para 16 por cento; aumento da dívida para 120 por cento do PIB; aumento do deficit para 6,2 por cento; e 90 por cento da soberania alienada com aumento exponencial do fosso entre portugueses ricos e pobres… Todos sabemos – e os credores também – que o montante de tal dívida é impossível de pagar e que mais de 60 por cento é dívida ilegítima e odiosa, contraída em conluio entre as partes contratantes, com corrupção e traição nacional à mistura. Daí que a única alternativa justa e patriótica para honrar a dívida legítima (40 por cento?), nunca poderá ser mais, da mesma austeridade (!), mas antes a sua reestruturação imediata pelo prazo mínimo de dez anos. Com ou sem ameaça de represálias!
