Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Jacques Sapir : “O anúncio de Mario Draghi é uma capitulação em campo aberto”
JACQUES SAPIR É ECONOMISTA E DIRECTOR DE ESTUDOS EM L’EHESS
AUTOR ENTRE VÁRIAS OBRAS, DE
– LA DÉMONDIALISATION, SEUIL, ABRIL DE 2011 (CLICK)
– FAUT-IL SORTIR DE L’EURO ? SEUIL, JANVIER 2012
PHOTO : MARGOT L’HERMITE
(continuação)
Parte II
Mas a Alemanha é o único país a não ter votado o plano de Draghi!
Isso não é contraditório. O patrão do Buba emitiu um voto preventivo, através do qual ele se esforça para continuar a exercer pressão sobre o BCE. Mas, na realidade, ele ganhou! Os seus dois pedidos, a condicionalidade dos resgates e a “esterilização” da massa monetária foram alcançados.
Pode-se ainda, apesar de tudo, ver aí uma vitória política, em especial francesa . A Alemanha isola-se…
Não consigo ver outra vitória política que não seja a do Bundesbank. Qual é a diferença que a Alemanha fique isolada ou não se é ela que impõe as suas leis ?
Neste caso, que outra opção poderia ter escolhido Mario Draghi?
Sem oposição do Bundesbank, poder-se-ia encaminhar para uma monetarização directa da dívida, e isso significa que uma compra de títulos poderá ser feita não no mercado secundário, mas no mercado primário, directamente junto dos Estados. Neste caso, o BCE decidiria comprar a dívida à taxa de 0,5%, em vez de o ser a 3,5% para títulos de 1 ou 2 anos.
Então, o Banco Central teria podido optar pela compra de todos os tipos de obrigações e não apenas as de curto prazo. Da mesma forma, o BCE poderia decidir não esterilizar todo o dinheiro emitido, de forma a não prejudicar o crédito privado.
Aqui, a diferença é flagrante com o que faz , por exemplo, o Federal Reserve dos EUA quando este maciçamente injecta dinheiro na economia dos EUA. Idem para o Japão. Este país tem uma dívida pública cerca de 200% do PIB, ou seja uma percentagem muito maior do que a da dívida grega! O que não impede que se faça o financiamento à volta de 1,5%, o seu Banco Central está sempre a apoiar. Poderemos igualmente reparar que ninguém ouve falar em inflação japonesa. E por boas razões: o Japão enfrenta o problema oposto da inflação… enfrenta o problema da baixa dos preços, o da deflação. O que confirma que não há nenhuma ligação entre a criação monetária e a inflação.
Assim, é claro, no caso da Europa, que a influência alemã é considerável. E vemos claramente o jogo dos alemães. Eles obtêm satisfação, por um lado e mantêm por outro, a sua firme oposição para continuar a sua pressão sobre o BCE. Vemos sobretudo como Mario Draghi está longe de manter as suas promessas feitas neste verão.
Neste contexto, na sua opinião o que agora pode acontecer?
È necessários em primeiro lugar questionar se a Espanha e a Itália vão aceitar as condições estabelecidas pelo BCE, o que eu duvido muito. No momento, esses países contentam-se com esse “avanço”, eles não deixam de afirmar que precisam de ajuda. Ou para que serve uma facilidade que ninguém quer usar?
Pode, na verdade, pensar em dois tempos. No primeiro tempo: o que vai acontecer quando a Grécia sair do euro…
… o que significa que está a pensar que vai sair?
É claro. O problema é não o de saber se a Grécia vai sair do euro, mas sim o de quando é que vai sair. Para mim, deverá acontecer até à próxima primavera.
Nesse momento teremos um aumento significativo da taxa de juros no mercado secundário. Será aí que os italianos e os espanhóis talvez precisem de utilizar a facilidade oferecida por Draghi .
No que se refere à Itália, pode-se considerar que Mario Monti é desde já favorável às medidas de austeridade. No que lhe diz respeito, não terá necessariamente grande relutância em utilizar o mecanismo agora disponível, mesmo em troca de medidas draconianas de austeridade fiscal.
Para Mariano Rajoy, o problema vai ser muito mais difícil. Por um lado, a situação em Espanha está muito mais degradada do que a italiana. Por outro lado, politicamente, a questão da soberania é um problema real em Espanha. Se a Espanha foi forçada a aceitar os termos ditados por Frankfurt, isto seria um desastre pois pode-se colocar a própria existência do Estado espanhol em questão, tanto o actual conflito entre as regiões espanholas e o governo central se tem intensificado a partir das questões do financiamento .
Na minha opinião, ir-se-á perceber muito rapidamente que as medidas anunciadas pelo BCE irão estar rapidamente desactualizadas. Estou também convencido de que as bolsas, que subiram fortemente desde o final da semana passada, acabarão por começar a baixar.


