REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930

A política da mentira, a única verdade que se reconhece na União Europeia

Por Júlio Marques Mota

Parte I

Dizem-nos alguns ministros que a Europa se quer reindustrializar, ideia que parece agora surgir depois da voragem do encerramento dos altos-fornos em França e sobre este tema ouvimos ainda hoje o nosso ministro da Economia que mais parecia estar a vender a banha da cobra que outra coisa.

O Wall Street Journal publica ontem uma carta assinada pelo ministro da Economia de Portugal, Álvaro Santos Pereira, do Ministro da Renovação Industrial de França, Arnaud Montebourg, do ministro do Desenvolvimento económico de Itália, Corrado Passera, do Ministro da Indústria, da Energia e do Turismo de Espanha, José Manuel Soria e, por fim, pelo ministro da Economia e Tecnologia da Alemanha,  Philipp Roesler. Uma carta de quatro ministros no WSJ a dar os ares de não ter sido paga ou terá sido?Ora um processo de reindustrialização passa hoje necessariamente por reafirmar a protecção da Europa face ao mundo o que significaria um voltar atrás, um voltar a qualquer coisa como o antigo Tratado de Roma, onde a Europa se abrigava, a criação de uma cintura de protecção, uma pauta aduaneira comum, hoje impossível no quadro da OMC e da União Europeia igualmente. Coisa a que os ditos ministros não se referem. Poeira para os olhos é do que se trata. E nisto os nossos ministros são useiros e vezeiros, ou como diz Kevin O’Rourke, useiros e vezeiros a dizerem que as boas notícias  estão já ali, bem perto, ao dobrar da esquina  e Rourke bem nos avisa  que só um cínico é que pode dizer que acredita nisso, useiros e vezeiros como nos sublinha Edward Hugh :

“Bem, isto significa, obviamente, que  todas as notícias são extraordinariamente más . Mas Luis de Guindos (ministro da economia do país) dirá, que todas as coisas vão andando bem. As exportações em 2012, são disso um claro e forte exemplo por exemplo. (…)

Apesar das as constantes e repetidas afirmações de que têm sido alcançados grandes progressos no programa de reformas, ou de que as exportações estão mesmo a correr bem, dificilmente se consegue encontrar provas disso nas sempre crescentes filas de desempregados, ou na presente dose diária de despejos de casas a que se assiste de bairro em bairro. A quantidade de situações referidas como indicação de retoma económica que disparam sobre nós já ultrapassa certamente o número total de aparições relatadas acerca de outro animal lendário – o monstro de Loch Ness. Todavia, a mais terrena e longamente esperada de todas as ressurreições ainda não teve lugar”.

Useiros e vezeiros nas mentiras com as quais estão a tentar comprar o tempo e a nossa desesperança, ou como diz Sapir relativamente ao governo francês:

 “E isso continua. Como se a lista de humilhações infligidas pelo grupo MITTAL em Florange aos empregados não fosse ainda suficiente, este grupo acaba agora de ridicularizar completamente o governo francês e o seu primeiro-ministro! O grupo MITTAL anunciou a remoção do site Florange para o projeto ULCOS, que era apoiado pela Comissão Europeia. Além disso é apenas uma aldrabice adicional, mas esta coloca cruelmente à luz do dia as mentiras do primeiro-ministro, ontem à noite, na França-2.

O acordo com o grupo MITTAL garante que não haverá mais nenhum despedimento? E em boa hora. Quando se olha para o acordo vê-se claramente que MITTAL prevê centenas de colocações antecipadas na reforma e não exclui as “saídas voluntárias”. Tudo isso lembra o plano social mais tradicional.”

E poderíamos continuar quanto a mentiras da União Europeia. Voltaremos ao assunto quer quanto à famosa carta, paga ou não paga ao WSJ, o que não sabemos, voltaremos ao processo da desindustrialização da Europa que prometemos retomar mais tarde mas para já um pormenor com os isqueiros baratos que se compram em qualquer papelaria. A União Europeia retira um imposto que protegia os isqueiros BIC da concorrência chinesa e um dos argumentos porque as margens do grupo BIC são boas. A China poderá continuar a fazer dumping e só se os seus concorrentes europeus estiverem em grandes dificuldades é que talvez se tenha pena deles. Isto não é uma informação sobre acontecimentos de há anos, é informação da semana passada. E falam estes ministros da reindustrialização da Europa:

We are going through a decisive moment for the future of the European economy. Around the world, growth patterns and sources of competitiveness are changing dramatically. Emerging economies, for instance, are becoming key world players, changing the structure of global value chains and accelerating profound fluctuations in the balance of economic power.

This picture poses challenges—but also opportunities. European companies, entrepreneurs and workers must be able to formulate business strategy from a global perspective to adapt to changing market trends. This requires new skills and talent to compete and earn a share in the international arena.

(…)

We have to work to ensure that our industrial firms are not disadvantaged in relation to their international competitors. This requires establishing the right environment to promote their success in both domestic and overseas markets. Only then will the full potential of European industry be unleashed as an engine for recovery, growth and job creation.”

Mas por confronto com  uma linguagem cheia de floreados que a lado nenhum poderá levar  vejamos a mesma realidade vista por um dos barões da indústria americana, Andy Gove, o homem da Intel :

“A primeira tarefa, é a de  reconstruir o nosso conjunto industrial. Devemos desenvolver um sistema de incentivos financeiros: Aplicar uma taxa adicional sobre o produto do trabalho deslocalizado. (Se o resultado é uma guerra comercial, tratá-la como as outras guerras, lutar para a vencer.). Coloque-se esse dinheiro num fundo, separado. Deposite-se esse dinheiro nos cofres do que poderíamos chamar de Banco Americano de Rendimentos de Escala e destinem-se as somas aí acumuladas a apoiar as empresas que vão aumentar as suas actividades produtivas na América. Este sistema seria um aviso dado diariamente de que, enquanto nós prosseguimos os objectivos das nossas empresas, todos nós ao nível empresarial temos a responsabilidade de manter a base industrial de que dependemos e a sociedade, cuja adaptabilidade e estabilidade devemos ter como um dado adquirido.”

(continua)

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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