EDITORIAL – QUAL É O PAPEL DO SOCIALISMO NESTA CRISE?

Imagem2Queremos esclarecer que a palavra «socialismo» é aqui usada no sentido lato. Mas não tão lato que abranja a política do PS desde que montou com o PSD uma rotatividade em que um dos dois partidos atinge o poder devido aos disparates do outro e assim sucessivamente. O PS, quando se constituiu em 1973, anunciava-se como social-democrata, ou seja, que procuraria atingir o poder sem ser através de uma revolução. Mas depressa se percebeu que o partido de Soares nada tinha a ver com o Socialismo. Há, de facto, uma degradação progressiva na qualidade política dos dirigentes do PS, mas nunca o partido teve como objectivo central a instauração de um sistema socialista.

Há três décadas atrás, a Europa vivia a grande ofensiva dos partidos socialistas – em 1981, François Miterrand vencia as eleições presidenciais francesas e Andreas Papandreu as legislativas da Grécia; em 1982, Felipe González ganhava as eleições legislativas em Espanha e em 1983, Mário Soares, as de Portugal. Em Itália, o Partido Socialista de Bettino Craxi não obtinha votações significativas, sendo o vazio preenchido desde 1976 pelo euro comunismo do Partido Comunista de Enrico Berlinguer. O socialismo, na versão neo-liberalizante, parecia ter derrotado a direita, a democracia-cristã.

E veio a União Europeia, o afluxo de fundos comunitários…E esses milhões permitiram a criação de uma oligarquia promíscua – fortunas que surgiram do nada – os interesses pessoais diluíram diferenças ideológicas que já não eram muito acentuadas. Hoje em dia, bancos e grandes grupos económicos têm a garantia de que o eleitorado escolherá sempre um dos dois partidos.

Antes da grande cavalgada «socialista» Alain Touraine, no pórtico do seu livro “O Pós Socialismo” (“L’Après socialisme”, Paris, 1980) , dizia:: «O Socialismo está morto. A palavra figura por todo o lado, nos programas eleitorais, no nome dos partidos e mesmo dos Estados, mas está vazia de sentido». Este reputado sociólogo francês, criador do conceito de sociedade pós-industrial, propõe uma acção apoiada, não em partidos ou em sindicatos, mas sim em movimentos sociais. Trinta anos depois, temos de lhe dar alguma razão – o socialismo dos partidos socialistas nem sequer está morto, pois nunca existiu. Soares é a referência máxima do PS e se foi alguma vez socialista, já foi há muito tempo. Quando regressou a Portugal no pós-25 de Abril, trazia já a cábula do «amigo americano». Claro que os PCs, os ortodoxos e os outros, ajudaram – os países onde havia governos comunistas não eram propriamente modelos que apetecesse seguir.

Estamos, como há 40 anos perante um novo totalitarismo, travestido este de democracia. É altura de pôr de parte diferenças ideológicas e de nos dividirmos em dois campos bem definidos – os que querem este sistema de corrupção em que os mais espertos e habilitados sobrevivem e os menos aptos soçobram e os que pretendem que a igualdade de oportunidades e o direito à liberdade e  à vida, são direitos de todos.

Leave a Reply