EDITORIAL – A UTOPIA DA DEMOCRACIA – ILHA INATINGÍVEL?

Imagem2Foi há sete anos em Porto Alegre, no Brasil, durante o V Fórum Social Mundial que, perante um auditório cheio, com mais de três mil pessoas, se travou um dos debates mais interessantes dos últimos tempos – o tema era Quixotes hoje: utopia e política Com Ignacio Ramonet, José Saramago e Eduardo Galeano. Não vamos aqui reproduzir o debate sobre o qual, aliás, já publicámos um artigo. Vamos apenas recordar o essencial de cada uma das posições assumidas por estes famosos humanistas

Ignacio Ramonet, director do Le Monde diplomatique, afirmou que defender a utopia, como o fez Don Quixote, não está louco, pois Quixote «não suportava as injustiças e as desigualdades e ofereceu sua força e empenho contra isso, na luta por um mundo ideal, por um mundo diferente”.

Em contrapartida, José Saramago recusou liminarmente o conceito de utopia: “O que transformou o mundo não foi a utopia, mas a necessidade. Se a realização das nossas utopias ocorressem em breve não se chamariam utopia, mas trabalho e dedicação! Sugiro a retirada desta palavra do dicionário”, disse sorridente. Criticou depois os organismos internacionais e os governos: “O discurso político manipula, existe apenas para esconder algo. Essa é a arte de camuflar a verdade. Quem é que escolhe os líderes das organizações internacionais? Onde está a democracia?” (…) “As nossas democracia estão amputadas, foram sequestradas, pois hoje os nossos poderes como cidadãos consistem em trocar um governo de que não gostamos por outro que não conhecemos”.

Eduardo Galeano, defendeu a utopia, que serve para caminhar, pois andemos o que andarmos “ela sempre estará a dez ou vinte passos de nós, na linha do horizonte”. E contou a história de um pintor que conheceu numa viagem à Bolívia onde, apenas diante de paisagens cinzas e vegetação morta, pintava obras de cores vibrantes, vivas e exuberantes. “A utopia antepõe os ideais à frente de tudo, pois também é real quando se pinta a realidade que se necessita porque em toda barriga há a possibilidade de um novo mundo”..

A conclusão a retirar de discursos, que só aparentemente são antagóniccos, é a de que democracia é possível. Procurá-la com tenacidade, como aconselha Saramago, nunca deixando de acreditar que um dia nós, enquanto entidade colectiva, a encontraremos – se chamamos a essa convicção “utopia” ou se a designamos como o objectivo central do nosso “trabalho e dedicação”, já será pormenor de estilo.

Porém, nunca a atingiremos enquanto tivermos governantes que estão ao serviço de uma utopia que não é a nossa. O mapa que usam é outro, a bússola também não nos serve… tomámos o transporte errado. Este barco não ruma à nossa democracia. Ou mudamos de barco ou deitamos os pilotos borda fora.

2 Comments

  1. Talvez o editorial não use a metáfora da melhor maneira. O barco é nosso, não precisamos de o assaltar. Eles é que o tomaram de assalto, embora lhes tenhamos facilitado a abordagem – armadores, pilotos, mapas, bússola, sextante… tudo borda fora! Podemos orientar-nos pelas estrelas, temos os nossos mapas e sabemos como é a ilha. Só precisamos de a encontrar.

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