Este texto é, com a devida vénia e com os nossos agradecimentos, transcrito do REFERENCIAL nº 107, com autorização expressa do presidente da Associação 25 de Abril e do director do REFERENCIAL. Agradecemos também ao autor, o general Franco Charais.
(Cartoon de João Abel Manta)
Com um povo mantido durante dezenas de anos no obscurantismo e que ansiava pela liberdade parecia ser uma obrigação do Governo Provisório e dos novos partidos políticos dar a conhecer a toda a população do país e esclarecê-la sobre o conteúdo do Programa do MFA. Passados mais de seis meses porque nada era feito, vai ser cometida à 5.ª Divisão do CEMGFA a missão de estudar e executar tarefas de informação e esclarecimento sobre o Programa do MFA, que deveriam estender-se a todo o território. E dada a maciça adesão de civis e militares não lhe faltariam meios humanos para o cumprimento daquelas tarefas.
Em 25 de Outubro a 5.ª Divisão apresenta o seu Programa de Dinamização Cultural e Esclarecimento Político, naturalmente aprovado pelo CEMGFA, que obedecia a duas linhas mestras: – coordenar e apoiar todas as associações culturais de modo a ser possível estabelecer uma rede cultural em todo o território e – actuar politicamente com a presença de militares junto das populações para as esclarecer sobre as razões que levaram ao seu obscurantismo e esclarecimento sobre o conteúdo do Programa do MFA, procurando criar condições para uma ampla participação do povo na vida nacional.
Nas regiões eram criadas comissões dinamizadoras que integrariam militares do MFA, representantes das diversas organizações culturais e de organismos do Estado.
Outras comissões, incluindo militares das unidades locais, eram criadas a nível distrital. A estrutura seria apoiada pelo Governo Provisório e pela transmissão de programas do MFA na Emissora Nacional, no Rádio Clube Português e na televisão.
Naturalmente que tendo em atenção a estrutura das populações, a Dinamização Cultural vai dirigir-se, prioritariamente, às populações do interior e do centro e norte do país.
Junto do CEMGFA conseguimos a cedência das instalações do Instituto de Defesa Nacional (IDN ), na altura paralisado nos seus objectivos, para o trabalho da Comissão Coordenadora e da 5.ª Divisão, o qual dispunha de um auditório ideal para reuniões alargadas de militares e civis e onde passaram a ser realizadas as Assembleias do MFA. E nós vamos voar entre as tarefas do Conselho dos 20, como estudo e aprovação de leis civis e militares, conselho do Presidente da República, contactos com os ministros militares do Governo Provisório, contactos com as mais importantes personalidades técnicas e políticas e esclarecimento dos indefectíveis militares apoiantes do Programa do MFA.
Nós, efectivamente, éramos os homens sem sono. Pelo Instituto de Sociologia Militar, nome pelo qual passou a ser conhecido o IDN, passaram inúmeras personalidades nacionais e estrangeiras desejosas de informações sobre o que se passava em Portugal. Recordo termos recebido um brasileiro exilado, Paulo Freire, que nos contou por que tinha sido expulso do Brasil. Autor de um programa que permitiria a alfabetização, no período de um mês, de largas massas de população foi encarregado pelo Ministério da Educação do seu país para desenvolver um programa para a alfabetização de milhão e meio de camponeses do nordeste brasileiro. O programa recorria a palavras alvo previamente estudadas para aquela região e que se dirigiam aos maiores anseios das populações e a meios materiais, como máquinas de projecção, permitindo que o mesmo fosse desenvolvido simultaneamente por um grande número de monitores. Mas como menos de um ano depois estavam previstas eleições, o poder apercebeu-se que poderia haver mais de um milhão de votantes não no seu partido mas em partidos de esquerda. O programa é suspenso, todas as máquinas são destruídas com boatos de que continham o diabo no seu interior e Paulo Freire é preso e posteriormente exilado.
E a Comissão Coordenadora aproveitou esta experiência para tentar acelerar a alfabetização dos nossos 30 por cento de analfabetos. O professor Lindley Sintra, acompanhado de algumas professoras da Faculdade de Letras de Lisboa, aceitou o convite para reunir connosco e o desafio da realização de um estudo inspirado no método de Paulo Freire adaptado às necessidades do nosso país. O MFA mobilizaria militares que reforçariam, se necessário, os professores das diversas escolas do país. Os acontecimentos que se vão seguir não me permitiram acompanhar de perto os resultados desta reunião.
(Conclui amanhã)

