Pentacórdio para Domingo 30 de Dezembro

por Rui Oliveira

 

 

   Este Domingo 30 de Dezembro é, do nosso conhecimento, desprovido de novos espectáculos culturalmente significativos pelo que, ao leitor interessado, restam os filmes e as exposições. De entre estas últimas, espalhadas entre museus e galerias, relembraremos uma ou duas cujo encerramento se aproxima.

 

rosemarie_trockel 2   Na Galeria 1 da Culturgest está até 6 de Janeiro 2013 (com entrada gratuita exactamente ao Domingo) uma importante exposição de Rosemarie Trockel intitulada “Flagrante Deleite”(Flagrant Delight), cujo curador é Dirk Snauwaert.

RosemarieTrockel_FlagranteDeleite_e2   Diz este : “Rosemarie Trockel (foto) não é receptiva às bitolas da retrospectiva. Apesar de ter construído um corpo de trabalho considerável ao longo dos últimos trinta anos, ainda não foi feita uma resenha da sua obra. A explicação mais plausível para essa situação é a de que Trockel se tem afastado intencionalmente do processo de registo académico/histórico, um afastamento inteiramente em consonância com a afirmação da artista de que sempre sentiu “interesse pela contradição e pela incoerência internas”…

RosemarieTrockel 1… Na verdade, a ideia de uma exposição retrospectiva abrangente é incompatível com a propensão de Trockel para a “incompletude”, para a “opacidade” e para uma linguagem e uma prática estéticas não sistemáticas e abertas. O método de trabalho metafórico e associativo está na base da linguagem visual poética que a artista perfilha. A sua grande liberdade de escolha – de ideias, de meios e de materiais – é inseparável de uma orientação programada que associa um estímulo feminista e antiautoritário ao desmantelamento e à sabotagem iconoclasta de regras e categorias, bem como de formas de agir e de pensar adquiridas e interiorizadas. A focalização feminista de Trockel tende a subverter a ideia da natureza transparente, racional e una da realidade, a que ela opõe opacidade, ineficácia, erro, desordem, desorganização, obscuridade e complexidade.

rosemarie-trockel-gossip… Os universos imaginários e conceptuais extremamente abrangentes, heterogéneos e conflituantes (ou assim entendidos) povoados pelas suas obras são o que atrai a atenção do observador quando este examina a exposição como um todo…”

   Ajuizando sobre o exposto, conclui outro crítico (Celso Martins, in Atual) : «Há na obra de Rosemarie Trockel uma investida reinterpretativa sobre a história da arte recente, mas ela não se confunde com as estratégias em voga quando a sua obra se iniciou… e, ao mesmo tempo, não se destina ao comentário irónico e instrumental. Ela vive numa espécie de estado de hipertexto historico que se exprime no(s) material (ais) e nas suas conexões e disjunções possíveis  é nesse espaço que vai da identificação ao estranhamento, que vive a sua energia essencial.»

 

 

   Outra exposição que encerra proximamente (a 8 de Janeiro de 2013) tem menos pretensões e localiza-se na Sala de Exposições do Instituto Cervantes (Rua de Sta. Marta, nº 43 – R/C). Intitula-se “El arte de la fuga” e pertence ao pintor espanhol Juan Carlos Castro Crespo.

el_arte_de_la_fuga 1   São 50 obras de 2012 numa técnica mixta em papel Fabriano e acrílico com collage, tendo por tema a música clássica. A ideia para esta exposição surgiu, como disse o pintor (e escultor) de Huelva  “numa das minhas viagens a Lisboa, em que me maravilhou a música e o espaço artístico de um dos concertos da Sinfónica de Berlim na capital portuguesa”.

   Opina um crítico espanhol (J.A.González Márquez) : «Lisboa, ponto de início da cara da península com perfil de clave de sol, é o destino desta obra … A arte da fuga, a metáfora mais digna para compreender a nossa Europa e para entender-nos como europeus, define este último trabalho de Juan Carlos Castro Crespo. Quer o pintor pintar a música, como o filósofo dizer o que não se pode dizer ou como o poeta abrir clareiras no bosque ou redescobrir sendas perdidas…»

   (a entrada é livre, estando encerrada ao Domingo)

 

 

HOLY-MOTORS_poster_French_releasecarax   Uma alternativa diferente será assistir a um dos filmes em exibição mais apreciados pela crítica, “Holy Motors”(2012) do realizador francês Leos Carax (que, como diz um crítico, «treze anos depois de Pola X, desperta de um sono profundo e vai ao cinema»).

   Com Denis Lavant, Édith Scob, Eva Mendes, Kylle Minogue e Michel Piccoli nos principais papéis, a película “desperta o tempo de assistir ao fim de uma época e de disso oferecer o seu testemunho … e (Carax disse-o, porque o nomeou claramente, quase fazendo tipologia) a era de que se despede é a era das máquinas, a era dos «motores santos»…”

holy-motors-2012-de-leos-carax   Pode ter a seguinte sinopse : “… São da alvorada até à noite, algumas horas na existência do Senhor Óscar, um ser que viaja de vida em vida, alternadamente grand patron, assassino, mendigo, criatura monstruosa, pai de família …” “… será um banqueiro poderoso na primeira das suas actuações.holy-motors-09282012 Mascarar-se-á de velha mendiga corcunda. Será cibercriatura numa coreografia erótica com artes marciais … Andará nos esgotos de Paris até chegar ao cemitério do Père Lachaise, raptando uma modelo que levará aos ombros para o subterrâneo… − diz o crítico F.F. no Atual − … Mas será também o pai de família preocupado com a filha teenager, ganster que mata e é morto pelo seu próprio duplo, velho milionário à beira do último suspiro num quarto de hotel e de novo pai de família, quando a jornada acaba, num bairro social periférico, antes das limusines se dirigirem para a garagem que a foto abaixo mostra”.

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   Veja-se pois, por último, o filme-anúncio que sugere bem o clima “caraxiano” :

 

  

(para as razões desta nova forma de Agenda ler aqui ; consultar a agenda de Sexta aqui)

 

 

 

 

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