GIRO DO HORIZONTE – ZONA LIVRE DE ARMAS NUCLEARES (ZLAN) CONDIÇÃO DA PAZ NO MÉDIO ORIENTE – por PEDRO DE PEZARAT CORREIA

 

Acompanho, diariamente, as notícias e comentários sobre os “conflitos da atualidade” – Ucrânia e Médio Oriente (MO). Hoje está na ordem do dia o Acordo sobre este último. Estou atento, mas não é sobre ele que hoje me vou pronunciar.

Ontem vi o meu camarada e amigo general Carlos Branco colocar em cima da mesa a questão central, decisiva para a solução do conflito no MO mas que, convenientemente, tem sido excluída do debate – a arma nuclear de Israel. Na abordagem deste tema tem-se aceitado, como dogma, o mandamento axiomático do Ocidente – o Irão não pode ter uma arma nuclear. Mas nunca se equaciona a arma nuclear de Israel. Carlos Branco fê-lo ontem, domingo, corajosa e fundamentadamente. No programa 360º da CNN introduziu-o na análise, evidenciando o óbvio, isto é, a abordagem da legitimidade da arma nuclear iraniana implica igual abordagem da arma nuclear israelita. E é obsceno que a questão seja levantada por Israel, potência nuclear clandestina, não assumida, não sujeita a fiscalização pelas agências internacionais competentes e, como tal, o grande perturbador regional. O transgressor armado em guardião da legalidade!

É tema pelo qual, há muito me venho batendo, não só, mas também neste espaço do Giro do Horizonte (GDH).

A propósito de uma notícia sensacionalista no Expresso de 4 de fevereiro de 2012, “Israel poderá atacar o Irão na Primavera. Telavive teme que Teerão possa deter a bomba atómica”, escrevi dois dias depois no GDH “Israel potência nuclear”:

Não é novidade, é mesmo recorrente a divulgação da abusiva e arrogante pretensão de Israel se arvorar em polícia nuclear do MO. O que é chocante é o acriticismo da notícia, o tom de “normalidade” de uma ameaça que pode arrastar uma tragédia mundial e que não merece nenhum alerta das potências guardiãs do sistema nem das instâncias internacionais […] É a confirmação do estatuto de excecional impunidade de que Israel beneficia, face às sistemáticas ações preventivas contra os seus vizinhos – logo agressões segundo o quadro legal da ONU –, bem como às constantes violações das resoluções da ONU. Acresce que na área do nuclear não assiste a Israel nenhuma legitimidade, porque é uma potência nuclear não assumida e, como tal, não sujeita ao sistema de fiscalização internacional. Obviamente que tudo isto só é possível porque Israel obteve o seu arsenal com a conivência da França e a benevolência dos EUA […] Admitir que durará eternamente uma situação de monopólio nuclear, seja onde for, é estúpido e irrealista e a desejável desnuclearização no MO não poderá ignorar as AN de Israel. Sem isso apenas se adiará a solução. Muitos e qualificados analistas […] têm-se pronunciado sobre esta matéria […] o autor israelita Ze’ev Schiff invoca […] uma terceira opção em relação ao Irão […] da mesma forma que o presidente Kennedy encontrou uma terceira via para resolver a crise dos mísseis de Cuba […] Israel sabe que não corre riscos de ataque nuclear, até porque tem a garantia do guarda-chuva nuclear norte-americano. Com as suas AN apenas pretende assegurar um estatuto de exceção que lhe permita intervir preventivamente no MO. Age como Estado pária que põe em risco a paz mundial e é o grande obstáculo a que o Irão desista da AN.

A 20 de fevereiro voltei ao assunto com o GDH “O Irão nuclear”, invocando um artigo de Hans Blix, diplomata sueco, antigo presidente da Agência Internacional para a Energia Atómica e inspector-chefe da ONU para as armas nucleares, “How do we stop Iran getting the bomb?”, publicado no New Statesman de 16 de fevereiro de 2012:

Escreveu Blix: Se o Irão for bombardeado, será outra ação contrária à Carta da ONU. Não haverá autorização do Conselho de Segurança. O Irão não atacou ninguém […] não há uma iminente ameaça iraniana que possa ser invocada para justificar uma ação preemptiva […] o relatório de novembro de 2011 dos inspetores nucleares da ONU no Irão […] não concluiu que o Irão esteja fabricando uma arma ou tenha tomado a decisão de a fabricar […] bombardear as instalações nucleares iranianas poderá ser mais uma via para o desastre do que para uma solução» […] Hans Blix conclui com a sua proposta de solução para quebrar o impasse sobre o Irão, o estabelecimento de uma ZLAN (Zona Livre de Armas Nucleares) no MO […] será preciso que Israel se desfaça das suas armas nucleares […] e será preciso que o Irão abandone as suas instalações de enriquecimento […]

Conclui este último GDH com uma advertência que se revelou premonitória:

Sábias e prudentes palavras que merecem ser ouvidas. Mas atenção: perante a obsessão de Bush e Blair em invadirem o Iraque em 2003, Blix, inspetor responsável pelas inspeções no Iraque, avisou repetidamente de que não havia provas da existência de AN neste país; acabou demitido e a invasão consumou-se com as trágicas consequências que se conhecem. Posteriormente provou-se que Blix tinha razão, mas os responsáveis ficaram impunes. Será que se vai repetir o crime no Irão?

Creio que a oportunidade do lúcido comentário de Carlos Branco de ontem, confere também óbvia oportunidade a estes meus textos escritos há 14 anos. Aqui os deixo à vossa reflexão.

15 de junho de 2026

 

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