EDITORIAL: VOTOS PARA 1913

Diário de Bordo - II

 

Logo à noite começa o ano novo. Nesta altura é costume fazer-se a análise do ano que agora  finda e previsões para o que vai começar. Enfim, aproveitam-se as celebrações para fazer uma avaliação e pensar em como melhorar o estado de coisas. Isto no caso português parece ser o que se costuma chamar um caso difícil. Difícil não pelas previsões, mas porque está muito complicado pensar num caminho para sair do atoleiro em que estamos, aliás, do atoleiro em que nos meteram.

Essencial é os portugueses perceberem que a alhada em que estão metidos provém em primeiro lugar da incompetência e da sabujice da oligarquia nacional, que há muito se demitiu de fazer alguma coisa pelos seus concidadãos. Se é que alguma vez se preocupou com isso. Talvez uma vez ou outra, de passagem, no século XIX, ou durante a I República. Se aconteceu, deve ter sido um rebate de consciência instantâneo.

Na realidade, os nossos líderes (???) montam uns espectáculos, com enorme aparato, que nos têm saído caros. O pior foi, evidentemente, o da austeridade. Tentando convencer-nos que temos vivido acima das nossas possibilidades (o povo com o nível de vida mais baixo da Europa), cortam salários e pensões, despedem centenas de milhares de trabalhadores, inviabilizam pequenas e médias empresas, induziram centenas milhares de jovens bem preparados a emigrarem, em resumo, arruinaram a já abalada economia do país. Invocando o equilíbrio das contas públicas, agravaram ainda mais o seu desequilíbrio. Invocam o passado, mas são apenas os continuadores dos erros cometidos, que só têm agravado, e não corrigido. Falam em refundar o estado, por que sabem que estão a destruir a parte boa e a agravar a parte má. Chegam ao ponto de admitirem para o Estado novos funcionários (com que critérios?) usufruindo dos direitos que retiraram aos que lá se encontram. Com os dinheiros públicos cobrem os buracos do sistema financeiro, e depois tentam cobrir o défice resultante cortando na saúde, na educação, nos salários e nas prestações sociais.

O caso BPN é o exemplo claro desta situação. Milhares de milhões de euros do orçamento do estado foram desviados para cobrir situações duvidosas, activos tóxicos, eufemismos para situações susceptíveis de serem classificadas como criminosas. Não é caso único, mas é sem dúvida um dos mais significativos. Um dos objectivos prioritários para 2013 será esclarecê-lo até ao fundo. E dele tirar as conclusões respectivas.

3 Comments

  1. Parece impossível! Enganarem-se num século! Em 1913, provavelmente, os trabalhadores tinham mais direitos e melhor passadio que os que as bestas que nos desgovernam, em nome da plutocracia internacional e apátrida, pretendem “oferecer-nos” nos próximos anos. Seria muito mais adequado que os votos se referissem a 1813. Ou mesmo a 1013, porque é a caminho do feudalismo que vamos resvalando. E, com a a inevitável borrasca sócio-política a que estes imbecis e respectivos mandantes abrem, irresponsavelmente, caminho, talvez se descubram, tarde demais, em 2013, mas aC…
    Se 2013 merecesse o nome de Ano, os votos (de impossível concretização) seriam de que o seu fim encontrasse esta escória (de âmbito nacional e internacional) já soterrada pelo pesado pó da História. Um pedaço de Utopia também não faz mal nenhum: omo um dia afirmou o malogrado filósofo José Torres (que, pelo menos, na sua humildade, fez muito mais pela nação que esta quadrilha de ladrões empoleirados), “deixem-me sonhar”…

  2. Peço mil desculpas. Não cem (seria uma por cada ano) mas mil (sempre são dez por cada ano). Queria dizer, obviamente, 2013. E, de resto, o Paulo tem muita razão. As políticas actuais, passos à portas mais gaspar, nem em 1913 seriam adequadas. Duvido que nem em 1013. Não eram assim tão maus naqueles tempos. Desculpa, Paulo; desculpem nossos colaboradores e leitores. E o José Torres era um grande homem. Era muito mais do que um homem alto. Vejam http://estrolabio.blogs.sapo.pt/410894.html. Um abraço. João Machado.

  3. Nem há que pedir desculpas. Eu é que aproveitei a oportuna “distracção” (ou “acto falhado”, por estares a pensar, como eu, que isto anda às arrecuas?) Como não sou crente, direi que “o acaso escreve direito por linhas tortas”… Quanto ao José Torres, concordo contigo. A citação não era tão irónica como possa parecer: a filosofia não é só apanágio de uns poucos “génios”; às vezes mostra-se em pequenas observações ou na coerência das atitudes e de um percurso de vida.

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