OS ARGONAUTAS -(a propósito de um livro de José Florencio Martínez) – por Carlos Loures e Josep Anton Vidal

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Os Argonautas

 

José Florencio Martínez, (Trespaderne, Burgos, 1950), lançou recentemente em Barcelona uma colectânea poética –  Teseo no saldrá del laberinto – em cujos versos, segundo um texto crítico, se evocam elementos fundamentais da herança poético-mitológica da Antiga Grécia, com  ressonâncias de Kavafis, último e genial epígono do helenismo alexandrino. José Florencio Martínez é um poeta com uma extensa obra publicada:  Sonetos y otros sones del corazón, De las madrugadas amantes (poemas de jazz), Cuatro Estaciones de amor, El espacio de la mirada, Tríptico italiano, Sobre los números, Ángeles o poemas.   Imagem2Em Teseo no saldrá del laberinto, o poeta aventura-se pelas essências da cultura compartilhada pelos povos mediterrânicos, até encontrar o impulso civilizador de onde surgem e explorar as suasImagem3 raízes. “Continuamos a ser gregos” , é a afirmação com que o autor encabeça a Introdução. E prossegue:: “é na Grécia que se situa o formosíssimo (e dramático) arranque da história do mundo ocidental”. Esta colectânea poética, que se afirma  herdeira do ideal grego, em cuja génese intervêm, segundo José Florencio Martínez, o  entusiasmo pela verdade, a fome de conhecimento e a paixão pela liberdade, está estruturada em três partes. A primeira, De cuando los mitos, percorre alguns dos mitos aqueus que sobreviveram como eixos transversais, ao longo do tempo e ainda hoje exprimem com surpreendente força os aspectos mais dramáticos da experiência humana: Orfeu, Dionísio, o Minotauro, Teseu, o Labirinto… Na segunda parte, Grécia clássica, na qual se reúnem poemas inspirados em lugares, personagens, monumentos, batalhas, etc .do imenso legado da Ilíada, passa-se do mito ao logos, enquanto que a terceira parte, Grécia helenística, é um compendio helenístico com algumas crateras transbordantes do erótico vinho “retsina” que termina com uma evocação de Kavafis.

Apesar da aparência didáctica da sua estrutura assente sobre os três pilares do mito, o logos o eros, o material poético de Teseo no saldrá del laberinto assume como referência o sentimento e a noção do ser humano apanhado entre o tempo, limitado, efêmero, e a ambição, desmesurada, insaciável. O homem, diz o autor, é esse estranho ser de carências que se sabe incompleto e que se querr ultrapassar a si mesmo, sublimar-se, completar-se, para alcançar desse modo o seu projectado ideal, a sua sempre inatingível plenitude. (1)

Deste seu livro, escolhemos o poema Argonautas como ponto de partida para uma curta viagem em torno de um tema a que estamos ligados. A metáfora de Jasão e dos argonautas em busca do velo de ouro está sempre presente no nosso esforço quotidiano para arribar às ínsulas estranhas do amor, da liberdade, da justiça…

José Florencio Martínez diz assim:

Argonautas

            Navigare necesse; vivere non est necesse.

                        Cneo Pompeo a unos marineros

“Era más importante navegar que vivir”,

o “andar el mar y navegar la tierra”.       

La proa de la nave señalaba la vida,

el vellocino de oro, las ínsulas extrañas.

 

La vida era tirón hacia el confín del alba,

caricias, rosas, vino y epidermis de sueño,

“meltremi”, soplo vívido y niebla de naufragios.

Detrás de nuestros remos, sólo estelas y olvido.

 

Pero un día notamos que la proa del tiempo

hundía en nuestro pecho su quilla y su nostalgia,

y en los remos sentimos la rosa del crepúsculo

anclando su sosiego sin retorno ni fuga.

 

Sí, todos fuimos jóvenes argonautas procaces,

indecisas derrotas bajo estrellas latientes,

hasta que nuestras naves se quedaron varadas

en las arenas blancas donde mueren los sueños.

 

José Florencio Martínez in Teseo no saldrá del laberinto

 Carlos Loures traduziu este poema para português (2):

Argonautas

Navigare necesse; vivere non est necesse.

                               Cneu Pompeu arengando a marinheiros

 

“Era mais importante navegar do que viver”,

ou “andar pelo mar e navegar a terra”.         

A proa da nave rumava à vida,

ao velo de ouro, às ínsulas estranhas.

 

A vida era infinita estrada até aos confins da alvorada,

carícias, rosas, vinho e epidermes de sonho,

“meltremi”, sopro vívido e névoa de naufrágios.

Para trás dos nossos remos, só esteiras e  olvido.

 

Mas um dia notamos que a proa do tempo

nos crava no peito a sua quilha e a sua nostalgia,

e nos remos sentimos a rosa do crepúsculo

ancorando o seu sossego sem regresso nem fuga.

 


Sim, todos fomos jovens e atrevidos argonautas,

indecisas rotas sob estrelas cintilantes,

até que as nossas naves ficaram varadas

nas areias brancas onde o os sonhos morrem.

 O ponto de partida para este trabalho foi a tradução que Josep Anton Vidal fez para catalão. Foi a partir dessa tradução que nos surgiu a ideia de relacionar o poema de José Florencio Martínez com o poema de Pessoa e com a canção de Caetano Veloso. Por isso, faz todo o sentido integrá-la num trabalho que sem ela não teria sido feito.

Argonautes

 

            Navigare necesse; vivere non est necesse.

                               Cneu Pompeu a uns mariners

 

“Era més important el navegar que el viure”,

o “caminar la mar i navegar la terra”.     

La proa de la nau apuntava la vida,

el velló d’or, les ínsules estranyes.

 

La vida era embranzida vers els límits de l’alba,

vi, carícies, roses i epidermis de somni,

“meltremi”, alè de vida i boira de naufragis.

Darrere els nostres rems, només rastres i oblit.

 

Però un dia sentírem que la proa del temps

ens enfonyia al pit la quilla i la nostàlgia,

i en els rems vam sentir la rosa del crepuscle

ancorar-hi una calma sens retorn ni fugida.

 

Tots fórem, sí, argonautes joves i agosarats,

indecises derrotes sota estels bategants,

fins que les nostres naus van restar embarrancades

als bancs de sorra blanca on fineixen els somnis.

 

(tradução de Josep Anton Vidal)

 

O enraizamento e a sobrevivência  dos antigos mitos, torna-se visível na insistência com que os nossos poetas e pensadores a eles recorrem para exprimir as diversas facetas da peripécia humana através do tempo. O tema dos Argonautas tinha já inspirado a Fernando Pessoa o poema de Mensagem que vamos escutar declamado pelo actor brasileiro George Queluz:

 

Foi também neste poema de Pessoa que Caetano Veloso se inspirou para compor a canção, com que encerramos. Caetano Veloso e Chico Buarque interpretam-na no  concerto realizado no  teatro Castro Alves, em  Salvador da Bahía, no ano de 1972.

 

NOTAS:

 (1) Todas as citações são provenientes da Introdução assinada pelo autor.

 

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