Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota
Nota Introdutória
Um texto importante, a Europa vista por um grande economista americano, L. Randall Wray.
Sangue e mais sangue é o que pretendem os açougueiros desta Europa martirizada, num grande talho que tem a dimensão de um continente, com uma equipa de direcção que dá pelo nome do bando dos 4, Barroso, Rompuy, Juncker, Mário Draghi, com uma sub-direcção sediada em Berlim com Merkel e em Frankfurt com o Bundesbank e com ajudantes que dão pelo nome de Passos Coelho, Rajoy, Hollande, Monti, e outros. Toda uma grande equipa ao serviço de patrões que não têm nome, não mostram a cara, não vão a eleições, mas governam, governam a vida deles e destroem as nossas: os mercados de capitais com tudo o que de estruturas eles implicam.
É por tudo isto que consideramos que a Europa com as cumplicidades e os silêncios de muita gente vai a caminho dos violentos anos 30 e a estar possivelmente perante uma nova tragédia, diferente da anterior, mas tragédia igualmente. Estamos a tempo de a travar. Oxalá o saibamos fazer.
Júlio Marques Mota
Como o crescimento global diminui, os defensores das políticas de austeridade exigem ainda mais sangue
L. Randall Wray · Dezembro de 2012
(CONCLUSÃO)
Parte III
Na verdade, os países que tinham a “melhor” política orçamental (excedentes orçamentais), Irlanda e Espanha — foram aqueles com os piores problemas no sector financeiro. Quem compreenda a abordagem do equilíbrio a três sectores de Wynne Godley, sabe porquê: se o governo está numa situação de excedente então o sector privado está numa situação de défice (a menos que haja um grande e suficiente excedente na balança corrente— o que mostramos abaixo; o que se tornou impossível pela estratégia económica da Alemanha).
E assim os bancos fizeram explodir a Irlanda e na sua tentativa de cair sobre a espada [com o risco de ficar gravemente ferido] para proteger os bancos franceses e alemães, o Governo irlandês fez explodir o seu orçamento. Com nenhuma autoridade central ligada à crise financeira e com as bancos altamente interligados (dívidas sobre dívidas!), a crise espalhou-se como o contágio de um vírus mortal para toda a zona do euro.
De novo, o problema foi que nem os teóricos da macroeconomia nem os políticos da Eurolândia tinham compreendido que os fluxos financeiros estão relacionados principalmente com a posse dos activos financeiros, mais do ligados aos fluxos comerciais. Isto é o que é a “financeirização” ou seja aquilo a que Minsky chamou de “capitalismo de Gestão monetária” é sobretudo. Até agora, a maioria dos analistas apontam a dedo para os défices da balança corrente de alguns dos Estados membros e afirmam que a crise financeira foi causada pelo consumo perdulário de importações por super – indulgência para com os países mediterrânicos.
Absurdo.
Lembre-se de que um dos argumentos para a criação da UEM foi desenvolver um grande mercado interno, algo na ordem da dimensão dos EUA. Com um grande mercado interno, os produtores da Eurolândia não teriam que depender das exportações [para dinamizar o crescimento]. E isto foi uma boa ideia; e se eles poderiam confiar então no seu mercado interno, eles não teriam que reduzir os salários para reduzir os custos do trabalho para os níveis asiáticos para competirem pelo comércio global fora da UE.
Seguindo os EUA, os Estados membros poderiam ignorar os défices da balança corrente interna [à UE], desde que, todos eles usam a mesma moeda. Eles têm um único sistema de pagamentos, através do BCE — que faz as compensações dos bancos centrais nacionais. Os défices da balança corrente interna não importam aqui, pelo menos no que diz respeito ao financiamento.
Infelizmente, a UE cometeu um grande erro que nós não fizemos nos Estados Unidos. Quando o Fed foi criado em 1913, ficámos com a certeza de que as fronteiras dos bancos centrais regionais não coincidem com as fronteiras estatais (na verdade, o Missouri é a base para dois bancos centrais regionais — é bom ter um representante influente em Washington, para enviar o mealheiro para casa !). Isso significa que os pagamentos compensatórios não coincidem com os Estados.
Nos EUA não sabemos ou não nos preocupamos em saber quais os Estados que estão com défices de balança corrente. Os pagamentos são feitos tenha ou não tenha o Mississipi um défice de balança corrente para sempre. É sustentável. O Fed faz com que assim seja. E não importa se o Federal Reserve de Kansas City apresenta sempre a compensação de um défice para com o Federal Reserve de St. Louis. É sustentável. O Fed faz com que assim seja.
Na Eurolândia, o sistema Target 2 realiza a mesma coisa para os bancos centrais nacionais: a compensação das contas. Mas é aqui que está o problema. Os pequenos duendes da contabilidade asseguram e controlam o registo nas fronteiras nacionais. Eles relatam depois que as importações impertinentes dos gregos são superiores às dos outros países para quem os gregos exportam. Consumidores perdulários! Vergonha, vergonha. Apertem o cinto!
Então, em vez de criarem uma economia muito grande a UEM serviu para promover a concorrência entre os Estados-Membros para ver quem é que poderia exportar mais para os países vizinhos. A Alemanha venceu. Como? Por meio de políticas deflacionistas dolorosas para manter os salários em baixa e em que também tiveram a sorte da queda do muro de Berlim que implicou ondas de salários baixos e de altos níveis de qualificação dos alemães orientais enquanto força de trabalho.
E então agora é a Alemanha que está a repreender os infelizes gregos, italianos, espanhóis e portugueses por terem perdido a batalha mercantilista, à Hobbes, do cão que come o cão na luta pela exportação para os mercados internos da União Europeia, que, afinal, seria mercado único. A solução proposta é austeridade em todos os lugares, é a austeridade para toda a gente. O resultado inevitável será a dinâmica da corrida para baixo, para se reduzirem os salários, para se reduzir a qualidade de vida.
Já tivémos disto, antes. Lembram-se de 1930?
A recessão nos Estados Unidos foi agravada pela política comercial como a lei Smoot-Hawley Tariff Act of 1930. A União Europeia por seu lado tem o Pacto de (In)stabilidade e de Não-Crescimento assinado em Maastricht.
Os dirigentes europeus procuram o déjà vu em tudo e mais uma vez .
O que é que eles deviam ter feito de diferente? Primeiro eles deviam ter proibido que um Estado-membro tenha podido prosseguir intencionalmente uma política deflacionista para que com essa política pudesse ganhar vantagem competitiva sobre os outros Estados membros. A estratégia da Alemanha sugou empregos na periferia e deveria ter sido penalizada como tendo tido um comportamento anti-UEM. Em segundo lugar, eles deviam ter ignorado os défices da balança corrente decorrentes do comércio interno. E em terceiro lugar, eles deviam ter criado empregos nos países que em virtude desse comércio interno os tinham perdido.
O que aconteceu, em vez disso, é que, como as nações perderam empregos devido às importações alemãs [e também devido à mudança de origem das importações feitas pela Alemanha, a favor de países terceiros e externos à UEM], as taxas de desemprego desses Estados membros mais castigados com a política alemã subiram fortemente. Nalguns casos, as suas famílias tentaram manter os padrões de vida por meio de empréstimos e as suas economias passaram sobretudo a depender da especulação de activos (especialmente imóveis) para criar rendimentos e empregos. Noutros casos, estes países em dificuldade tentaram competir através da adopção de políticas de austeridade — que evidentemente nunca funcionariam no quadro da União Europeia como um todo precisamente porque assim se destruiria o grande mercado interno da UE que se estava a tentar criar.
Chegamos pois à mais importante conclusão. Se desejamos criar uma União Monetária, precisamos de esquecer os resultados internos da balança corrente e em contrapartida precisamos, isso sim, de nos centrarmos sobre o emprego. Os fluxos comerciais internos globalmente são feitos na mesma moeda e podem sempre ser financiados. Os défices internos são sustentáveis. Mas o desemprego não o é.
A Eurolândia precisa de empregos, não de austeridade.
