DE MENTIRAS, JÁ BASTA, de Daniel Bernard

Selecção  e tradução de Júlio Marques Mota

De mentiras, já basta

(Em França, em Espanha, em Portugal, por toda a parte onde impere o modelo neoliberal)

DANIEL BERNARD – MARIANNE

(conclusão)

Abraham Lincoln achava-se bastante ousado quando afirmava: “não se pode mentir uma vez a toda a gente, pode-se mentir o tempo todo a uma pessoa, mas não se pode mentir o tempo todo a toda a gente”. Pobre ingénuo! Os Maquiavel do século XXI já não aconselham príncipes, eles são agora os príncipes. Mostram-no o estrelato dos publicitários criativos (Frank Tapiro), os especialistas em comunicação (Jean-Luc Mano) e os poderosos lobistas (Anne Méaux), que ultrapassam em influência, fama e, mais ainda, em  fortuna a maioria dos seus clientes.

Depois dos sacerdotes e dos comissários políticos, que pelo menos fingiam acreditar nos seus disparates, é agora chegada a vez dos profissionais da grande golpada .  Estes  que “assumem”. Segundo eles, o deslocar para a Internet, o comércio e a política são uma e a mesma coisa, inconcebível sem um estudo de mercado. Um programa, ou um candidato, isto forja-se como quem faz uma sopa de gosto artificial, muito salgada para sermos honestos. No supermercado ou no restaurante, as menções “Produto Caseiro”, “À moda antiga”, “na caçarola de ferro fundido”  assinalam as preparações industriais contudo referenciadas como feitas à moda do tempo dos nossos avós. “

E daí? Na  UMP, Jean-François Copé abandonou o habito de ser um fala barato de muito forte conotação soviética que substituiu por um mentiras que se assumem como verdades que dão dinheiro e são lixo: se nunca ninguém poderia encontrar a criança do pão com chocolate, ela poderia contudo ter existido, desde o momento em que o Islão comunitarista pressiona  – é um facto – da laicidade e da República. Os seus adversários, em resposta, também não tentam verificar ou negar o facto, contentando-se simplesmente em desafiar a dignidade de tal evocação. Postura contra postura, temos aqui uma pobreza de debate! Quando François Hollande, então candidato à Presidência, designou o seu adversário como sendo “a finança”, Nicolas Sarkozy deveria tê-lo obrigado a declinar os seus compromissos, a tirá-los da sua agenda, a tirá-lo  das suas tarefas agendadas. ” Mentem-nos, ao pequeno-almoço, ao almoço e ao jantar”, foi o que ele se contentou em afirmar, como um grande especialista

Confronto de compromissos? Choque de ambições? Depois das grandes controvérsias – Guesde/Jaurès, Sartre/Camus, Cohn-Bendit/Peyrefitte, Mitterrand e Rocard, Chevenement/Jospin e mesmo até a de … Chirac/Balladur! -, a eleição presidencial de 2012 opôs dois irmãos inimigos cujas “entourages” apenas exigiram deles que deixassem de usar na mesma noite o fato azul-escuro com gravata às pintinhas a condizer. Dramatização? No dia 6 de Maio, a linha definida pelo think tank Terra Nova para Hollande – mal acabou de ser redefinida – mostrou-se vitoriosa sobre a estratégia de Patrick Buisson para Sarkozy, mas, depois, a famosa mudança de orientação do capitão Hollande tornou-se um grande tema de meditação.

O resultado – provisório, sem dúvida – do folhetim Montebourg/Mittal Steel   revela um emaranhado de bluffs que chocaram os trabalhadores de Florange. A discussão sobre o casamento e a adopção para os homossexuais não saiu dos lugares comuns: caçador de pederastas ou carrasco de crianças, escolham o vosso campo. Para intervirem, psicólogos, sociólogos, homens políticos e religiosos eram obrigados a inscreverem-se nesta triste alternativa: má-fé contra a fé.

Ousamos a ênfase: a nossa república de mentiras acumula a patologia comunista da desinformação industrializada com a da deslegitimação do reflexo de pensamento divergente, observada sob o governo de Vichy. Como Philippe Pétain ao denunciar a frente Popular, o actual declínio francês é colocado em cima das costas das “mentiras que vos fizeram tanto mal”. A única inovação, angustiante de resto: hoje, todo mundo denuncia toda a gente, sem esquema ideológico pré-determinado, ao sabor da actualidade e da distribuição dos papeis à “Câmara que está  no ar”.

Ocultação do endividamento público, aceitação passiva das fracturas francesas, cobardia face aos comunitarismos, espírito tipo Maio 68 , submissão ao loby bancário, há sempre qualquer coisa para toda a gente, mas os tiros são de pólvora seca, se bem que  o indiscutível responsável  por uma  falência pode ainda continuar  no seu posto, como se nada acontecesse.  Alain Juppé vai, sem dúvida, bem melhor neste registo: sancionado pelo sufrágio universal e pela justiça por ter mentido, enquanto era secretário- geral do RPR sobre os empregos fictícios na Prefeitura de Paris, o ex-exilado em Quebec afirma pretender que se faça Justiça, tal como Saint Louis! Em contraponto temos Lionel Jospin, o veterano que ampliou a presidencialização da V República, que faz de forte para querer renovar a política francesa! Os nossos Marretas, os Guignols, não se atreveram a colocar em cena semelhantes comportamentos, semelhantes falsidades.

UMA EXIGÊNCIA POLÍTICA

Face aos franceses que não pensam menos como eles , como na União Soviética, quando as capacidades produtivas estavam sempre a crescer ou como na Coreia do Norte, que se orgulha de seu líder Kim Jung-un como “o homem mais sexy do ano”, a recitação do discurso oficial tornou-se um teste de fidelidade. Assim, Jérôme Cahuzac defende o princípio da tributação em 75% dos rendimentos mais altos, Benoît Hamon, o IVA social, Manuel Valls, as alternativas à prisão defendidas por Christiane Taubira e os sarcasmos desencadeiam-se quando o ecologista Cécile Duflot aparece a correr para uma maca. Recusando-se a cantar os louvores de duplicidade, Michel Rocard assume agora o seu arcaísmo, numa entrevista concedida ao jornal Libération em 2 de Dezembro[1]. Em “observador a rir-se “, que se orgulha de ter “ainda assim mentido bem menos do que a média”, fala desse ” pobre François “, presidente, “prisioneiro de uma França onde agora é “terrivelmente difícil viver” e em que “a mentira não é a sua chávena de chá, apesar de que política requer que se bebam muitas.”

Na linguagem quotidiana, o adjectivo “verdadeiro”, posto em todos os molhos exprime uma… verdadeira procura de autenticidade. Então, a verdadeira mudança é para quando?

DANIEL BERNARD – revista MARIANNE,  Les mensonges ça suffit !
19 Décembre, publicado ano número 816 saído a  8 de Dezembro de 2012.

[1] Dada a importância desta entrevista publicá-la-emos neste mesmo blog, logo que possível.

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