EDITORIAL: A SÍNDROME MARCELO CAETANO

Diário de Bordo - II

Os comentários nos jornais, ou na televisão, as opiniões de rua vão convergindo todos para o mesmo lado, para o mesmo sentido. Que este governo é péssimo. Inimigos figadais de José Sócrates já vão reconhecendo que este governo é pior ainda. Outros concordam que está completamente fora da realidade. Os seus componentes são alvo de classificações gravosas, e sem dúvida que a maioria delas é merecida. Problema: como os pôr de lá para fora? Fazê-los dar lugar a outros? Já agora, fazê-los dar lugar a alguém que governe alguma coisa de jeito, será possível? Mas pergunta-se: quererão mesmo as pessoas mudar de governo? O outro dia, na televisão, perguntaram a uma senhora se estava de acordo com as políticas actuais. Ela respondeu que não e mostrou mesmo muita repulsa pelo estado de coisa. Mas acabou por dizer que não queria que o governo mudasse. Queria sim que mudassem as políticas.

É óbvio que muitas das críticas partem de pessoas que não estão de modo nenhum a pensar em contribuírem directamente para a queda do governo. Depois aparecem notáveis a fazerem o número da indignação, mas que na realidade nunca defenderão mudanças substanciais nas políticas. Quem acredita que Cavaco Silva, Bagão Félix, Mota Amaral, Paulo Rangel, Marcelo Rebelo de Sousa e outras personalidades afins quererão mudar de governo? E sobretudo quem acredita que queiram mudanças radicais nas políticas que têm sido seguidas pelos sucessivos governos? É óbvio que não querem.

A direita portuguesa, que sabe bem que é a grande responsável pelo descalabro em Portugal, defende-se cultivando ideias sobre a esquerda, do tipo: “não se entendem…”, “julgam que são só eles que só que se interessam pelas pessoas”, e por aí fora. A esquerda não olha ao longe, e não assenta em insistir, não em unanimismos vazios, mas em medidas concretas sobre os problemas básicos: nacionalização da banca, serviço nacional de saúde universal e gratuito, educação pública para todos, etc. É verdade que há um grande problema, A síndrome Marcelo Caetano. Fazer sinal para a esquerda, e virar o carro para a direita. É o que tem feito o Partido Socialista, nos seus governos. Parece que é o que François Hollande está a fazer em França. É isto que impede a esquerda de avançar. E mantém Portugal na depressão.

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