
As ilhas Kerguelen ficam no Oceano Índico, a cerca de 49º de latitude sul, e a sensivelmente meio caminho entre a África e a Austrália, a 68º de longitude este. Formam um arquipélago com mais de trezentas ilhas, com uma área de mais de 7000 quilómetros quadrados. Uma delas, Grande Terre, é bastante maior que as outras. São de origem vulcânica, e extremamente acidentadas. O ponto mais alto, o Pico do Ross Grande, atinge os 1850 metros. O clima é agreste, frio, muito chuvoso, e caracterizado por ventos fortes e tempestades frequentes. Há vários glaciares. As distâncias a terras habitadas são enormes, e desencorajam as deslocações. Por exemplo, a Cidade do Cabo fica a mais de três mil quilómetros. Não há comunicações aéreas.

As Kerguelen foram descobertas em 1772 por Yves Joseph de Kerguelen-Trémarec, um navegador bretão, que o rei de França tinha enviado ao hemisfério sul, com o objectivo de encontrar o hipotético continente austral que se supunha existir, e ao qual se atribuía uma dimensão muito considerável, semelhante à dos continentes do hemisfério norte, portanto bastante superior à que mais tarde se verificou ter a Antártida. Kerguelen chegou a pensar ter encontrado o tal continente na sua primeira viagem, mas na segunda verificou o seu erro. Poucos anos depois, ali também passou o capitão Cook, que pôs ao arquipélago o nome de Desolação. Julio Verne faz começar o seu romance A Esfinge dos Gelos (de 1895) nas ilhas Kerguelen, e não hesita em pôr o narrador, Jeorling, a dar razão a Cook, quando lhes chamou Desolação. Verne, para esta história, inspirou-se em Edgar Allan Poe, e dá-nos uma curiosa visão das Kerguelen. Coloca o enredo cerca de 1840, para dar continuidade a Aventuras de Arthur Gordon Pym, de Poe, obra publicada em 1838. Mas apresenta-nos as Kerguelen com uma vida bastante mais intensa da que terá actualmente.

As Kerguelen em certa fase foram frequentadas por baleeiros que dizimaram a população de baleias e focas que ali existia. Náufragos estabeleceram-se ali durante anos. A França entretanto voltou a tomar posse do arquipélago, que conserva até hoje.

Mantêm-se ali investigadores e técnicos, com objectivos variados, no campo da meteorologia, rastreio de satélites, estudo da vida natural, e mesmo fins militares. Há população permanentemente, mas que se vai rendendo regularmente, tendo em conta as duras condições de vida predominantes. Quanto à vida natural, existem grande variedade de aves, focas e outras espécies, mas tem havido problemas com as espécies introduzidas pelos colonizadores, como carneiros, renas e sobretudo os gatos, que se conseguiram adaptar e têm causado bastantes problemas ao equilíbrio natural do arquipélago. A agricultura tem tido muitas dificuldades em prosperar, dadas as condições adversas.


