O PATO ALGEMADO – XVII – por Sérgio Madeira

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No difícil caso do pastor alemão, chegou-se a um ponto crucial. O Dr. João Paralelo de Sousa passou à condição de principal suspeito do assassínio de Emanuel de Sousa Figueira, um homem, ou melhor, um comendador. que fizera fortuna no Canadá e que fora morto na sua moradia em Pero Pinheiro. Uma criada encontrou-o moribundo no jardim da residência. Segundo a criada declarara no depoimento à polícia, jorrando sangue da garganta, conseguira articular: « – O pastor… alemão.» Quando a polícia chegou, já com o Emanuel morto, o primeiro suspeito fora o velho Aristóteles um pastor alemão, que dormitava e olhara a brigada policial sem lhe encontrar interesse de maior. Bocejara e voltara a dormir. O médico legista logo ilibara Aristóteles – a ferida do senhor Emanuel, fora produzida por um objecto cortante. Um pastor da Igreja lueterana fora o suspeito seguinte. O tradutor da sua obra – «Como falar com Deus em vinte lições» era conhecido em Sobral de Monte Agraço como «o pastor alemão». Irmão gémeo do pastor luterano, foi apanhado em mentiras e está a ser interrogado na PJ. O Pato pode ter muitos defeitos, mas não viola o segredo de justiça. O processo está em fase de instrução. O Pato sabe tudo, mas nada diz. Na próxima semana talvez haja novidades. Por hoje vai contar-vos um caso verídico:

PEDIDO DE DISPENSA DO SERVIÇO MILITAR

Tentem acompanhar o raciocínio!

Eis o pedido:

Senhor General:

Venho mui respeitosamente solicitar a minha dispensa do serviço militar. A razão para isto é bastante complexa e tentarei explicar em pormenor.

Meu pai e eu moramos juntos e possuímos um rádio e uma televisão. Meu pai é viúvo e eu solteiro. No andar de baixo, moram uma viúva e sua filha, ambas muito bonitas e sem rádio nem televisão. O rádio e a televisão fizeram com que nossas famílias ficassem mais próximas.

Eu apaixonei-me pela viúva, ela por mim, e casei com ela.

Meu pai apaixonou-se pela filha e também se casou com esta. E aqui começa a confusão.

A filha da minha esposa, a qual casou com o meu pai, é agora a minha madrasta.

Ao mesmo tempo, porque eu casei com a mãe, a filha dela também é minha filha ( enteada ). Além disso, meu pai tornou-se o genro da minha esposa, que por sua vez é sua sogra.

A minha esposa ganhou recentemente um filho, que é irmão da minha madrasta.

Portanto, a minha madrasta também é a avó do meu filho, além de ser sua irmã.

A jovem esposa do meu pai é minha mãe (madrasta), e o seu filho ficou a ser meu irmão.

Meu filho é, portanto, tio do meu neto, porque o meu filho é irmão de minha filha (enteada).

Eu sou, como marido de sua avó, seu avô. Portanto sou o avô de meu irmão.

Mas como o avô do meu irmão também é o meu avô, conclui-se que eu sou o avô de mim mesmo!!!

Portanto, Senhor General, peço dispensa do serviço militar baseado na lei que não permite que avô, pai e filho sirvam ao mesmo tempo.
 

Se o Senhor tiver qualquer dúvida releia o texto várias vezes (ou tente desenhar um gráfico) para constatar que o meu argumento é realmente verdadeiro e correcto.

Ass. Avô, pai e filho.

Nota: o general está a desenhar o gráfico, a árvore genealógica e passou a tomar Prozac. Mas o assunto está prestes  a resolver-se.

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