Porque era das contradições que dividiam o campo católico que ia falar, a Pastoral Colectiva de 22 de Setembro de 1922 começava assim:
«O sagrado e momentoso dever que aos bispos incumbe de ensinar e dirigir os fiéis e de velar solicitamente para que nenhuma dúvida ou nenhum erro lhes venha perturbar as consciências, mais uma vez nos impele a dirigir-vos a palavra sob uma forma solene e colectiva, não só para que a Nossa instrução se grave mais fundo nos espíritos, mas ainda para que a harmonia dos Pastores sirva de modelo e estímulo à harmonia das ovelhas.
É que, dilectos filhos em Jesus Cristo, chegam até nós os ecos de deploráveis desinteligências, que ameaçam dividir o campo católico, quando as leis santas da caridade e as necessidades do momento que passa mais indispensável torna a união e a concórdia de todos para a defesa do património comum de crenças e liberdades cristãs. E o que mais tristemente nos impressiona é que as divergências se manifestam precisamente sobre a maneira de realizar essa imperiosa tarefa de defesa.»
Como já acontecera em ocasiões anteriores, os sectores monárquicos reagiram àquelas palavras. Sobretudo procurando ler na pastoral o que lá não estava escrito. Fernando de Sousa, por exemplo, no jornal A Época, um tanto hipocritamente afirmava-se convicto que o Episcopado português não tivera o propósito de «violentar convicções políticas ou tolher a acção pacífica exercida no campo legal e sob um regime que se diz baseado no sufrágio e na opinião pública. Tal inspiração não se encontra na pastoral».
Escandalizado com a pastoral, o Correio da Manhã desferia um duro ataque ao órgão oficioso do Centro, A União, utilizando palavras como estas: «Não há aí gazeta jacobina, das mais alheias à lei de Deus, que minta com o mesmo desplante e a mesma constância do jornal que é órgão do Centro Católico, e se arroga a representação e defesa da Igreja em Portugal.». *
*Arnaldo Madureira, A Questão Religiosa na I República, Livros Horizonte, Lisboa, 2004, p. 213.
Talvez se possa dizer que é a agudização da crise final da I República que desperta de novo, e agora decididamente, a intuição e a ambição de Salazar para a necessidade de intervir politicamente numa conjuntura que iria demonstrar-se decisiva.
Em 1922 é publicado o primeiro número da revista Estudos ligada ao CADC e que vem ocupar o lugar do Imparcial extinto em 1919.
Pelo Imparcial e pelo CADC passaram, e neles em parte se formaram, gerações sucessivas de estudantes de Coimbra; por outro lado, inúmeros sócios do CADC destacaram-se depois em todos os sectores da vida pública nacional (na política, na magistratura, no magistério, na ciência, na arte, no sacerdócio, etc.). Todos eles, mesmo os que chegaram a assumir as mais altas responsabilidades no Estado, na Igreja e na sociedade civil, testemunharam sempre quanto haviam ficado a dever à experiência juvenil no CADC.
Conforme recorda a actual direcção do CADC:
«Cientes de que a sua vivência religiosa era penhor de liberdade espiritual, os sucessivos responsáveis pelos Estudos souberam integrar o órgão do CADC pelos caminhos trilhados desde Abraão a São Paulo.»
«Muitos de nós, que agora nos reencontramos no CADC e nos Estudos, vivemos os riscos e as promessas dessa época. Inquietação e mensagem estavam no coração do nosso estar no mundo; e sem elas não sabíamos viver as nossas relações interpessoais e a dimensão pública da nossa existência. Inquietação e mensagem geravam o debate ou o apelo, o dissídio ou a coesão; mas, em qualquer dos casos, desterravam das nossas vidas a abstenção, a indiferença, o cinismo.»
«Eram tempos de confronto ideológico, em que por vezes nos deixámos dividir entre «integristas» e «progressistas». Por outro lado, enquanto até os contributos históricos do Cristianismo para a promoção dos valores humanistas eram postos em causa ou subvertidos, parte dos universitários e intelectuais cristãos começou a adoptar a atitude de cúmplice cedência, diluindo a especificidade religiosa da mundividência cristã em favor da mera componente ético-social.».
