O PROBLEMA DA HABITAÇÃO, por André Brun

 

1881 - 1926
1881 – 1926

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

I

Estava cavaqueando com o Baeta acerca do meu desejo de trocar o rés-do-chão modesto em que habito por uma moradia apalaçada e com vista de mar.

Ele sorriu-se dessa fantasia bizantina e recostando-se melhor num dos meus divans, acendeu dois charutos, um a cada canto da boca e contou-me uma história.

― Conheço um rapaz que há quinze dias era muito infeliz, ontem não cabia na pele de contente e hoje deu entrada em Rilhafoles. Tudo isto por causa do problema da habitação. Eu conto a V. Ex.as.

O mancebo em questão chamava-se Silva, suponhamos. Tinha vinte e oito anos e, na primavera passada, descendo de tarde a Rua Nova do Carmo, os seus olhos esbarraram com certa menina que subia e se chamava Alzira. A menina ia acompanhada da mamã e verem-se, ela e o Silva, e amarem-se, foi obra dum momento. Ele seguiu-a, ela deu-lhe corda, escreveram-se, falaram da janela abaixo e deliberaram casar. Até aqui nada de extraordinário, como vedes.

No dia em que resolveu levar a D. Alzira à igreja e à administração, Silva não hesitou. Vestiu fraque e calça de fantasia, calçou luvas novas e botas de polimento com gáspea de camurça e, um tanto gago de comoção, disse ao pai da criança, mal se pilhou sentado em frente dele, na sala de visitas  da sua bem amada:

― Il.mo e ex.mo sr.! Chamo-me Silva, tenho vinte e oito anos, meu pai é rico, minha tia tem um prédio à Boa Morte, que hei de herda, amo sua filha Alzira e quero casar com ela o mais depressa possível.

― Pois não, cavalheiro! Estimo muito conhecê-lo e, se realmente for do agrado da minha filha e o prédio da sua tia estiver inscrito nas matrizes depois de 1921 e tiver, portanto rendas modernas, creia que não terei dúvida em ser, além de seu sogro, seu atento venerador e obrigado.

A menina Alzira, que esperava atrás do reposteiro com a mãe e mais duas manas, entrou lavada em lágrimas. Houve regozijo geral. Silva foi convidado para jantar e, depois do café, quando iam pôr o gramofone a trabalhar, o futuro sogro perguntou de repente ao futuro genro:

― E para onde tencionam ir morar?…

Foi então que Silva reparou num pequeno detalhe: não tinha casa. E aqui começou a tragédia.

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(continua no próximo sábado)

 

In Procópio Baeta – Ditos e Feitos de um Burguês Lusitano do Primeiro Trinténio do Século XX. Primeira edição, 1927, Livraria Editora Guimarães & C.ª.

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