COLOMBO EXISTIU, MAS NASCEU ONDE? – por Carlos Loures

Há uma coisa que deve ficar bem clara desde já – não tenho competência científica para produzir teses sobre esta questão que, pelos vistos, apaixona tanta gente – onde nasceu Colombo? Já disse, em tom de brincadeira, que o tema não me interessa. É uma verdade. Tudo isto começou pela afirmação peremptória do Leça da Veiga de que  o Colombo era português. As conversas que sobre este assunto tive com Luís de Albuquerque foram há mais de vinte anos. Voltei a pegar no livro que me ofereceu com muito amável dedicatória em 22 de Novembro de 1990.. Tem o título Dúvidas e Certezas na História dos Descobrimentos Portugueses e é uma edição da Veja (Lisboa, 1990). Tem um capítulo dedicado à nacionalidade de Colombo – «Lá vem Cristóvão Colombo, que tem muito que contar». Mais do que defender a tese genovesa, contesta a do nascimento em Portugal. A polémica com Mascarenhas Barreto estalara e Luís de Albuquerque desmonta as ficções que dão corpo a O Português Cristóvão Colombo, agente secreto de D. João II (Lisboa, 1987).

Outra coisa que deve ficar clara é que o meu desinteresse por esta questão, não era partilhado pelo Professor Albuquerque, que considerava Colombo «uma grande figura das navegações dos Descobrimentos». Aliás, nem sei porque me meto neste assunto – não poderei produzir mais do que algumas opiniões, baseadas na minha experiência profissional como editor e nas minhas andanças autodidácticas por tudo quanto é sítio. Se me vir atrapalhado, chamo a cavalaria – ou seja – recorro a amigos com formação específica e sabedoria certificada. Vejo que é um terreno pantanoso, este o de averiguar onde nasceu um homem que, até certo ponto, foi um cavalheiro de indústria e andou por aí a tentar convencer soberanos da sua razão para que lhe patrocinassem o sonho. Pergunto, se ele próprio não terá baralhado pistas e evitado que o seu currículo fosse demasiado exacto.

Portanto, o meu empenho é defender a probidade científica de um amigo que já não o pode fazer. Não posso garantir que Luís de Albuquerque seja detentor da razão neste caso particular; apenas tenho a certeza de que o que disse, além de corresponder à sua convicção profunda, corresponde ao que o estado dos conhecimentos à época em que investigou, lhe permitiu chegar. Também sei que partir para a defesa de um tese, já com a solução no bolso não é a melhor maneira. Os romances policiais são assim construídos – o escritor parte da solução para o mistério. Na ciência, seja ela qual for, parte-se do mistério para a tentativa de achar a solução. Como disse, as minhas ironias quanto ao valor histórico de Colombo, são pessoais e talvez fruto da minha ignorância. Luís de Albuquerque prezava muito a sua figura e as suas imprecisões de cálculo, explicava-as com a falta de meios que só posteriormente viriam a ser descobertos. A única coisa que defendo é que a nacionalidade de Colombo não pode ser vista como um campeonato – a verdade histórica não pode ser condicionada por patriotismos. Um homem que viveu tantos anos em Portugal, algumas pegadas teria de deixar. Luís de Albuquerque, em cuja argumentação basearei o que vou escrever, rebateu sobretudo a tese de Mascarenhas Barreto e, de caminho, falou de outras que a antecederam. E não esqueceu a de Manuel Luciano da Silva, em que o Leça da Veiga apoia a sua convicção, nem de referir uma conferência pronunciada na Sociedade de Geografia de Lisboa por Enrique de Arribas y Turell, em que o conferencista afirmava que Colombo era galego e provavelmente de Pontevedra. Após tanto tempo, eu é que esqueci pormenores da leitura atenta que fiz há vinte e dois anos.

Lembro-me de lhe ter chamado a atenção para a entrevista do La Vanguardia com o senhor Josep Porter e de ele me ter respondido que Colombo era pretendido por muitas nações e, dentro de cada uma delas, por diversas cidades. Um livro que li sobre Cristóvão Colombo, uma biografia escrita por um professor catalão – Pedro Voltes (não sei que aceitação terá a sua obra na comunidade científic) –  começa a biografia com a frase: «Cristóvão Colombo nasceu em Génova em 1451 no seio de uma família de tecelões com uma certa posição…» Esta é a versão tradicional e não quero usá-la como argumento. Mas as teorias sobre a sua origem são tantas e defendidas com grande convicção. Todas, menos uma, estão erradas – apesar dos mil e um argumentos que as sustentem.  Vou terminar este preâmbulo – não vá o pórtico ficar maior do que a catedral – dizendo apenas que seria gratificante que novas vozes se juntassem a este debate que resultou de um outro onde nos questionávamos sobre a existência de Espanha. Irei, na medida do possível, prosseguindo o desenvolvimento deste tema – onde nasceu Colombo?

3 Comments

  1. Ora, já posso discordar de ti. Todas as teorias, menos uma, estão erradas? Então e as teorias que ainda estão por formular? Não há que contar com elas? Não poderá haver novas descobertas (não as antigas, mas sobre elas)?
    Eu, por exemplo tenho uma teoria, tão boa como algumas das referidas, baseada em aturados estudos e investigações. Colombo, como o nome indica, nasceu na Colômbia (só não me recordo a que tribo pertencia). Tendo atravessado o Atântico em piroga (primeira travessia nesse meio de transporte, não reconhecida pela Federação Internacional de Canoagem, apenas por esta ainda não existir), passando por Cuba (daí já saber o nome da ilha, quando lá regressou), ter-se-á estabelecido algures na Europa (também há quem diga que foi em Marrocos, mas não encontrei nada que o confirmasse), clandestinamente, enquanto fazia umas plásticas para ficar parecido com o Michael Jackson e apagar as tatuagens, aproveitando para estudar a arte da navegação – note-se que já tinha muita prática -, depois de perceber que a Europa era muito pior que a terra dele: custo de vida, poluição, ladroagem, impostos, coelhos e laparotos, etc, etc… O resto já se sabe, mais ou menos. O que se desconhece é que as quatro viagens que efectuou às Américas tinham por objectivo regressar à terra natal e fundar um negócio de tráfico de droga, pois também já verificara que os europeus no poder e endinheirados eram assaz tontos e corruptos (como agora). Nessas viagens, sempre que chegava a uma ilha habitada das Antilhas, comprava uma canoa aos indígenas (já lá tinham chegado, fugidos, uns antepassados do FMI e estava sempre tudo em saldo) e, no momento de regressarem às naus, armava-se em distraído, batia com a mão na testa, exclamando – ai! os meus óculos!, dizia que ia buscá-los, que aproveitava para trazer mais um garrafão de água e tal, para, depois, fazer de conta que se tinha perdido ou que não tinha o relógio certo ou coisa assim; mas, como não podia revelar a sua verdadeira identidade, a marinhagem teimava em não seguir viagem sem ele (ganhou fama de aluado, mas contava umas boas anedotas, que animavam as longuíssimas viagens, e não queriam largá-lo…), pelo que nunca conseguiu os seus intentos, tendo acabado por morrer de desgosto, em Valladolid (ao que dizem, parece-me, se bem m’alembra, qu’eu não ‘tava lá).

  2. Estou a pensar nisso. Já estabeleci um acordo de cooperação com investigadores da prestigiada Unidiversidade de Monty Python, que estão em vias de me enviar documentos secretíssimos dos mais variados tempos e lugares, incluindo uma fotocópia autenticada das tábuas com os Dez Mandamentos. Um abraço e obrigado pelo reconhecimento (é certo que merecidíssimo, modéstia à parte) do meu labor histórico.

Leave a Reply