SALAZAR E A I REPÚBLICA – 54 – por José Brandão

1923 – Salazar esmerado

Embora apresentado quase sempre como exemplo de modéstia e simplicidade, Salazar não prescindia de certos gastos destinados ao apuro da sua imagem. Mesmo com as muitas despesas com a saúde da mãe, não deixava de comprar do mais caro para ornar a sua figura pela bitola do mais chique da época. É Franco Nogueira, que diz:

«… não descurava Salazar a sua pessoa. No Damião encomendara, para o inverno, um fato e um sobretudo novos. Eram de bom tecido: custaram-lhe 490$00. Comprara também gravatas novas, sabonetes de luxo; mas, para economizar, mandara afiar por dezoito tostões as lâminas de barba. E continuava a entreter-se com obras de pedreiro. Fazia por outro lado muitas despesas com Maria do Resgate. Todos os meses despendia dezenas de escudos com medicamentos. E com sua irmã Elisa também: o último tratamento e estadia desta em Viseu ascenderam a mais de trezentos escudos. Para fazer frente a todos estes gastos, administrava-se com rigor. Anotava todas as despesas, por mais miúdas que fossem. Diversificava as suas receitas: a do seu vencimento de professor, tinha os dividendos da Coimbra Editora, o produto dos seus artigos e consultas, os juros dos seus depósitos, os cupões dos seus títulos. Fechara o seu ano financeiro, naquele mês de Setembro de 1922. com um saldo positivo de 947$03,5. Este, adicionado aos anteriores, dava-lhe um saldo geral positivo de 1 517$05,1.» *

*Franco Nogueira, ob. cit., p. 256.

Apesar de todo esse rigor com as contas, Salazar entrava em 1923 muito preocupado com as dificuldades financeiras da Misericórdia de Coimbra que geria. Mandara fazer obras de vulto no salão da Santa Casa e agora não tinha dinheiro para as pagar. Valeu-lhe a sua amiga Glória Castanheira que organizou um concerto de caridade para a angariação de fundos.

Em fins de Março regressava Salazar com permanência a Coimbra. Escrevera para o Boletim um estudo sobre a «Tributação das empresas agrícolas coloniais» e para a Revista, além de um artigo sobre «terminologia tributária», compusera uma nota crítica ao volume que Manuel Rodrigues há pouco publicara acerca de «A indústria mineira em Portugal». No dobrar para os trinta e cinco anos, Salazar sentia-se no momento um misantropo. E dentro dessa misantropia declarava que não era um político, nunca o fora, nem o seria jamais; e que «intelectualmente era uma pessoa de gelo». *

*Franco Nogueira, ob. cit., p. 258.

Em finais de 1923 realiza-se o Congresso das Associações Comerciais e Industriais, presidido por Moisés Amzalak, tendo Salazar apresentado uma comunicação em que defendia uma política de contenção das despesas. «Redução das despesas públicas» era o título da tese apresentada e nela defendia:

«Sob um ponto de vista nacional, não são as despesas públicas que se torna necessário reduzir, mas as despesas privadas, e pouco importaria mesmo retirar despesas ao Estado para as pôr em quantitativo igual a cargo dos particulares: a economia nacional pagá-las-ia igualmente.

A redução das despesas, dum modo geral, é necessária ao incremento da produção e reconstituição dos capitais nacionais, mas se ao Estado ela se impõe como um dever, não se pode impor aos particulares, da mesma forma, nem convém confiá-la ao simples patriotismo, se melhor com ela pudermos casar o seu verdadeiro interesse.

Tudo o que entre nós tem contribuído para a queda sucessiva do escudo se pode considerar em grande parte responsável pela desordem das economias privadas, alimentando consumos inúteis e capitalizações inferiores, quando não inteiramente estranhas à economia nacional. Perdem-se para esta as somas colocadas no estrangeiro fugidas a uma maior depreciação, como aquelas que, guardadas por particulares, se lhes vão esboroando e desaparecendo das mãos, pela diminuição do seu valor. Perdem-se as que o Estado absorve para gastos improdutivos e as que os particulares, para não perderem tudo, aplicam seja no que for.

Ainda uma vez: é inútil dizer que o patriotismo aconselha economia. Mais seguro é poder afirmar que há interesse em reduzir as despesas privadas para se empregar o excedente em novas produções.»

A 8 de Dezembro, criação da Acção Realista Portuguesa por Alfredo Pimenta, com integração na Causa Monárquica. Integram o novo grupo António Cabral, ex-ministro da monarquia, Alberto Ramires dos Reis, Luís Chaves, Oliveira Monteiro e Caetano Beirão, dissidente do Integralismo Lusitano.

Alfredo Pimenta foi um dos mais temíveis polemistas do seu tempo. Personalidade contraditória, católico tradicionalista, assumiu-se publicamente como um dos apoiantes incondicionais de Salazar e confessa-o na extensíssima correspondência que manteve com Salazar. As afinidades eram sobretudo pessoais, frequentemente foi brutal e frontal com Salazar que tinha por ele uma elevada consideração, o que não o impedia de o tratar com secura e o manter com respeito.

Pimenta começou por ser adepto do socialismo anarquista, chegou a publicar opúsculos de combate republicano, frequentou os seus comícios, militou no Partido Evolucionista de António José de Almeida, que abandonou em 1915, andou perto do Integralismo Lusitano e fundou a Acção Realista Portuguesa.

A 15 de Dezembro, reaparecimento do jornal Novidades, enquanto órgão da hierarquia católica.

Entretanto, para Salazar tudo estava a seu favor.

A vida não lhe podia correr melhor. Os seus pareceres jurídicos eram cada vez mais solicitados e o Banco de Portugal só de uma vez pagou-lhe cinco contos de réis.

Já cansado do Vimieiro, arrendava uma casa à época para fazer praia na Figueira da Foz.

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