O FMI, UTILIZANDO DADOS INCORRETOS, DEFENDE MEDIDAS NEOLIBERAIS QUE DESTRUÍRIAM AS FUNÇÕES SOCIAIS DO ESTADO E LANÇARIAM O PAÍS NUMA RECESSÃO MAIOR – 1 – por Eugénio Rosa

A pedido do governo PSD/CDS (mais um exemplo do servilismo ao estrangeiro deste governo que despreza o saber cientifico nacional), o FMI elaborou um “estudo” com o titulo: “Rethinking the State – Selected Expenditure reform options”. O objetivo é claro como o próprio titulo o diz: “repensar o Estado”, ou seja, refundá-lo para utilizar as palavras de Passos Coelho. Para isso, é preciso começar por destrui-lo. Quem se dê ao trabalho de ler as suas 76 páginas em inglês (nem se deram ao trabalho de o traduzir em português) conclui que ele é mais um exemplo do neoliberalismo defendido pela escola de Chicago de Friedman, sendo o seu objetivo a destruição do Estado, ou seja, da Administração Pública e das funções sociais do Estado. O FMI, ignorando mais uma vez a Constituição da República Portuguesa (para estes “senhores” ela não existe), e sem a definição do que deve ser o Estado em Portugal, apresentou um “pacotão” de medidas que, aplicadas, destruiriam os sistemas públicos de saúde, educação, e segurança social e lançariam o país numa recessão económica ainda maior. E para fundamentar essas medidas de natureza ideológicas, o FMI não hesita em utilizar mesmo dados falsos e inverdades como iremos provar.

AS MEDIDAS DO FMI SÃO IDEOLÓGICAS E ESTÃO EM CONTRADIÇÃO COM DECLARAÇÕES RECENTES DO PRÓPRIO FMI, DESTRUIRIAM O ESTADO, E CAUSARIAM UMA RECESSÃO ECONOMICA AINDA MAIOR

A diretora do FMI, e o próprio representante do FMI na “troika”, em declarações públicas recentes afirmaram, por diversas vezes, que só austeridade não resolve nada, poderá criar mesmo uma situação “insustentável”. Contrariando essas posições públicas destes altos responsáveis do FMI, o FMI apresentou um “estudo” em que defende uma austeridade ainda mais violenta do que aquela que já está a ser imposta a Portugal (quadro 1), e nada diz sobre crescimento económico.

Quadro 1 – Medidas e cortes de despesa pública constantes do relatório do FMI de Jan.2013

                            AREA                          MEDIDAS CORTE ANUAL NA DESPESA   PÚBLICA          Milhões euros
  Mínimo Máximo
ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA –   Trabalhadores Redução permanente das remuneração base   dos trabalhadores da Função Pública entre 3% e 7% 325 760
ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA   -Trab. Redução das remunerações acessórias   entre 20% e 30% 200 300
ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA –   Trabalhadores Aumento do horário de trabalho da Função   Pública de 35H para 40H por semana 150 150
ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA- Trab Redução das horas extraordinárias, e   aumento da duração das aulas para uma hora 150 150
ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA –   Trabalhadores Redução entre 10% e 20% dos   trabalhadores da Função Pública (entre 60.000 e 120.000), através de   despedimentos ao fim de 2 anos na SME ou de saídas voluntárias 795 2.700
SEGURANÇA SOCIAL E CGA -Pensões Redução geral do valor de todas as   pensões entre 10% e 20% 2.250 4.500
SEGURANÇA SOCIAL E CGA -Pensões Redução das pensões acima das mínimas em   15% 1.500 1.500
SEGURANÇA SOCIAL E CGA -Pensões Subsidio de férias e subsidio de Natal   só serem pagos aos pensionistas nos anos em que o PIB nominal ultrapassar 3% 1.000 1.000
SEGURANÇA SOCIAL E CGA -Pensões Aumento da idade legal de reforma e de   aposentação de 65 para 66 anos 400 600
SEGURANÇA SOCIAL E CGA -Pensões Para igualizar as pensões dos   aposentados da CGA à dos reformados da Segurança Social reduzir as pensões   dos aposentados em 20% 600 600
SEGURANÇA SOCIAL E CGA -Pensões Confisco permanente da parcela da pensão   que ultrapassa 12 IAS (5.894€) por mês 200 200
SEGURANÇA SOCIAL E CGA –   subsidio de desemprego Reduzir a duração máxima do subsidio de   desemprego para  10 meses, e a partir   dessa data o desempregado poder receber apenas o subsidio social de   desemprego cujo valor é muito mais baixo (320€ por mês) 300 600
SEGURANÇA SOCIAL – Abono   de família Eliminar o 3º escalão do abono de   família o que determinaria que 280.000 crianças perdessem o direito a ele 89 89
SEGURANÇA SOCIAL – Abono   de família Eliminar o direito ao abono família aos   estudantes com idade entre 19-24 anos 10 10
SEGURANÇA SOCIAL e CGA –   subsidio de funeral Eliminar o subsidio de funeral pago pela   Segurança Social e pela CGA 116 116
EDUCAÇÃO –   Professores Redução do numero de professores entre   60.000 1.316 1.580
EDUCAÇÃO – fixação   de uma despesa máximo por aluno (uma espécie    de cheque educação) Fixar uma despesa máxima atribuída por   cada aluno  (o valor que o Ministério   da Educação financia atualmente as escolas privadas em contratos de   associação) 580 580
EDUCAÇÃO –   professores Estender a mobilidade de professores   para os obrigar a trabalhar em escolas privadas com contratos de associação 430 710
ENSINO SUPERIOR -Propinas Aumento das propinas aproximar do custo   – não quantificado
SAUDE – Taxas   moderadoras Aumentar as taxas moderadoras para 1/3   do custo do ato médico (consulta no hospital subiria de 20€ para 40€, e num   centro de saúde a consulta  aumentaria   de 5€ para 13€). Em receita das taxas moderadoras atingiu 160 milhões 200 200
SOMA 10.611 16.345

O quadro 1, com os principais dados do relatório do FMI, permite obter, de uma forma rápida e clara, uma ideia global da dimensão e consequências das medidas propostas pelo FMI. O corte na despesa pública com consequências dramáticas não só para os trabalhadores da Função Pública, pois determinaria dezenas de milhares de despedimentos, mas também para todos os portugueses, pois traduzir-se-ia em cortes brutais nos serviços de saúde e de educação prestados à população, e em reduções também muito grandes em todas as prestações sociais incluindo pensões, varia entre um mínimo de 10.611 milhões € e um máximo de 16.345 milhões €. Depois disto pouco restaria das funções sociais do Estado. É certo que o FMI não apresenta desta forma a questão. Para suavizar a “pastilha” afirma que são propostas alternativas, opções de cortes que o governo pode fazer. Mas o propósito é claro. É mostrar que não há limites para os cortes mesmos os impostos pela Constituição da República Portuguesa, que é ignorada mais uma vez pelo FMI. Para além disso, o objetivo é mostrar que os cortes são possíveis (há muito por onde cortar segundo o FMI), e servirá sempre com um elemento de pressão e um objetivo a exigir a um governo submisso cuja única preocupação tem sido o de satisfazer as exigências estrangeiras.

(Continua)

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