REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930

Carta aberta a um Presidente qualquer na União Europeia, a François Hollande, o seu primeiro destinatário a quem terá sido entregue e em que, talvez,   Cavaco  Silva possa ser  o segundo.

Adaptação mínima de uma carta de Jean-Luc Schaffhauser antigo Délégué Général de CAPEC, Presidente da Academia Europeia  e enviada a François Hollande

Por Júlio Marques Mota

 Parte I

Senhor Presidente, combine-se rigor e recuperação económica  com o  aumento do poder de compra e do investimento

Senhor Presidente, a observação de países que decidiram reduzir rapidamente o seu défice orçamental mostra-nos uma diminuição significativa do seu crescimento económico.  A média  do  multiplicador  orçamental  (efeito da política orçamental  sobre a actividade real) na  zona euro  foi de 1,8 pontos.  Significa pois que por cada ponto de poupança realizada no orçamento na zona euro teremos a perda de 1,8 do PIB. A França, por exemplo, está abaixo desta média, por causa dos considerados estabilizadores automáticos, por causa dos  seus amortecedores sociais, Portugal estará acima pela razão inversa [e o Governo português cansa-se a tentar acabar com o que destes amortecedores nos resta em Portugal], mas a França fá-lo também à custa de um  maior défice comercial e orçamental, a subirem,  na  zona euro [1] [2].

O país  deve evitar esta espiral recessiva que é já claramente vista nos  outros países da zona euro  [em particular nos países do Sul como é o caso em Portugal]. O crescimento baixa pela aplicação da austeridade orçamental. Sem desvalorização possível, sem federalismo orçamental, sem transferências  financeiras cooperativas (em investimentos rentáveis por exemplo),  a baixa dos  salários  torna-se  a única variável de ajustamento  para reduzir a necessidade de financiamento externo do país.  A baixa dos salários, por seu lado, acentua, em seguida, a redução  de crescimento devido à baixa imposta  ao orçamento. Esta política de austeridade  também faz baixar os investimentos produtivos, porque investir para quê quando a  procura interna está a descer ou  a  estagnar, quando ela representa  cerca de 70% da procura global?  As condições de austeridade  em conjunto em diversos países da  Europa acentuam, em seguida, esta observação pelo acumular de efeitos recessivos que assim se introduzem e as  exportações intra-europeias   diminuem. A procura  de crescimento nos mercados emergentes é uma miragem perfeita: todos os países europeus, com a Alemanha incluída, estão actualmente deficitários nas suas relações com estes países, especialmente com a China.

As reduções na  procura e no investimento  estão  pois a reduzir  as receitas orçamentais devido à recessão e em  proporções que podem  ser bem maiores  do que as economias orçamentais  realizadas. É a política ubuesca, grotesca, que agora  conhecemos , imposta primeiramente por Angela Merkel, seguida pelos  outros Estados  europeus e sem projecto alternativo pela parte da  França, é a política orquestrada pela Comissão Europeia na sua versão da Europa virada apenas para o mercado,  com o progressivo abandono da economia social de mercado.

Neste contexto, os lucros das empresas aumentaram devido à  rigidez dos preços, mas a oferta não se torna  mais competitiva. Os novos lucros não são reinvestidos no aparelho  produtivo, precisamente por causa da baixa da procura [provocada pelas políticas de austeridade  impostas]; esses lucros servem para  a especulação  ou são deslocalizados.

Todos os países europeus estão a ficar  mais pobres por esta política de austeridade  insensata e irreflectida,   excepto algumas multinacionais e o sistema financeiro que sempre tiram as suas castanhas do lume sem se queimarem . Os responsáveis pela  crise financeira enriquecem-se com a  crise que eles mesmos têm provocado devido às suas práticas sistemáticas de deslocalização e de optimização fiscal, [devido à sua utilização também de paraísos fiscais, mas não só]. Esta procura constante do máximo lucro a curto prazo, faz com que o Ocidente entre numa situação caracterizada pela economia do endividamento   e  da  crise financeira.

Quatro medidas imediatas devem ser tomadas pelo governo: as duas primeiras para travar a baixa do poder de compra  e as duas restantes  para promover a retomada da economia e o  investimento.

1.  Tornar obrigatório, por lei, a participação nos lucros. Trata-se de redistribuir 1/3 dos lucros aos empregados em toda e qualquer empresa com sede no nosso país. É uma proposta feita por um capitalismo dedicado à sua empresa, aplicada por Serge Dassault: 1/3 para os assalariados, 1/3 para  a remuneração do Capital e 1/3 para o investimento na empresa, logo na inovação  e na investigação.  A tributação privilegiada e  o mínimo plano social destas remunerações  serão mantidas mas somente para as  remunerações  que não  excedam o salário mínimo entre  3 a 5  vezes o seu valor  para evitar as remunerações tipo stock-opções e os altos salários que contornam igualmente os impostos.

2.  O IVA a 25%. O IVA social não dá cabo da procura interna, antes pelo contrário, se o imposto adicional sobre o consumo é utilizado  para aumentar os salários líquidos  através da redução das contribuições  sociais para 70% das  novas receitas e pela diminuição de contribuições do empregador,  quanto ao restante . Este IVA permite aumentar em 7% todos os salários inferiores ao salário mediano ao mesmo tempo em que   reduz  o custo da mão-de-obra em cerca de  8 mil milhões. Isto equivaleria a uma desvalorização fazendo assim pagar às importações a solidariedade social para as exportações que estão excluídas de IVA

3.   Um imposto fixo em 15%, como na Alemanha, ao nível dos  lucros reinvestidos, mas também  dos dividendos reinvestidos. Este imposto deve ser significativamente inferior aos lucros  distribuídos  ou aos dividendos que servem  de base para o nível de vida dos seus beneficiários… A integração no rendimento dos lucros não distribuídos, de acordo com a lei de Finanças para 2013 em França, foi, com toda a justiça, rejeitada pelo seu Conselho Constitucional de imposição fiscal de 75% sobre a parcela dos rendimentos muitíssimo elevados superiores a um milhão de euros – parcela que merecia ter , sem qualquer dúvida, patamares intermédios e a integração da noção   de agregado familiar – o dinheiro dos lucros não distribuídos permanece na empresa e não deve pois ser considerado como um rendimento. Se se pode admitir que essa não-integração pode  ser utilizada  para contornar o mecanismo do Imposto sobre as fortunas, o ISF,  “por estratégias de optimização fiscal consistindo em reduzir artificialmente o seu rendimento tributável para maximizar o  limiar   (actualmente em 75%) e reduzir assim o imposto sobre a fortuna a pagar”, se ele então serve  para o investimento presente ou futuro e não para a constituição de um prémio remuneratório pessoal, ele assume  portanto o estatuto de um bem social. No máximo dever-se-ia fiscalizar, a 75%, por exemplo, à saída, se ele não é então reinvestido, no momento em que se acaba com este tipo de  prémio remuneratório especial  . O enriquecimento que serve um bem social, que serve uma obrigação social deve, pelo contrário, ser encorajado fiscalmente pelo governo.

(continua)

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