GRÉCIA-ALEMANHA: QUEM DEVE A QUEM? A ANULAÇÃO DA DÍVIDA ALEMÃ EM LONDRES EM 1953. Por Éric Toussaint

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

mapagrecia

Grèce-Allemagne: qui doit à qui ? (1) L’annulation de la dette allemande à Londres en 1953

Eric Toussaint

(conclusão)

Parte II

Alemanha  1953 / Grécia  2010-2012

Se corrermos o risco de uma comparação entre o tratamento a que a Grécia tem estado sujeita e aquele  foi reservada para a Alemanha após a Segunda Guerra Mundial, a injustiça e as diferenças são marcantes. Aqui está uma lista não exaustiva de 11 pontos:

1. Proporcionalmente, a redução da dívida concedida para a Grécia, em Março de 2012 é infinitamente menor do que a que foi concedida à Alemanha .

2.  As condições sociais e económicas que são impostas por este  plano (e  aos que o precederam )  não favorecem nada a retoma  da economia grega enquanto contribuíram substancialmente para relançar  a economia alemã.

3.  A Grécia vê serem-lhe impostas as privatizações  a  favor  dos  investidores estrangeiros, principalmente, enquanto que  a Alemanha foi encorajada a reforçar o seu controlo   nos seus  sectores económicos estratégicos, com um sector público  em pleno  crescimento.

4.  As dívidas bilaterais da Grécia (em relação aos países que participaram no plano da Troika) não serão reduzidas (apenas foram reduzidas as dívidas a bancos privados ) enquanto as dívidas bilaterais da Alemanha (começando com as despesas em relação aos países que o Terceiro Reich tinha atacado, invadido ou anexado) foram reduzidas em 60% ou mais.

5.   A Grécia deve reembolsar em euros, enquanto ela estava  numa situação de défice  comercial (ou seja com falta de euros ) com os seus parceiros na Europa (incluindo a Alemanha e a França), enquanto a Alemanha  reembolsa a maior parte de suas dívidas com marcos alemães fortemente desvalorizados.

6.   O  Banco Central grego não pode emprestar dinheiro ao governo grego, enquanto o Deutsche Bank emprestava às autoridades alemãs e  fazia funcionar  (embora  moderadamente) a máquina rotativa.

7.   A Alemanha foi autorizada a não consagrar mais de 5% de suas receitas de exportação para o pagamento da dívida, enquanto não há nenhum limite no caso actual da Grécia.

8.  Os novos títulos  de dívida grega que substituam os antigos  que eram devidos aos  bancos já não são da competência dos tribunais gregos, mas são sim   das jurisdições  do  Luxemburgo e do  Reino Unido que são competentes (e nós sabemos o quanto eles são favoráveis aos credores privados) enquanto os  tribunais da Alemanha (essa antiga potência agressiva e invasiva) eram competentes e os títulos ficavam sob a sua própria  jurisdição.

9.  Em matéria de reembolso da dívida externa, os tribunais alemães poderiam recusar a execução de sentenças de tribunais estrangeiros ou de tribunais arbitrais no caso em que a sua aplicação estava a ameaçar a ordem pública. Na Grécia, a Troika recusa, é claro, que os  tribunais possam  invocar a ordem pública, para suspender o pagamento da dívida. No entanto, os enormes protestos sociais e o aumento das forças neo-nazis  são directamente consequência das medidas ditadas pela Troika  para  o reembolso da dívida. Apesar dos  protestos de Bruxelas, do FMI e  dos mercados financeiros  que isso causaria, as autoridades gregas também podem invocar o estado de necessidade e a ordem pública para suspender o pagamento da dívida e revogar as medidas anti-sociais impostas pela Troika.

10. No caso da Alemanha, o acordo estabelece a possibilidade de suspender os pagamentos  para  renegociar as suas  condições se acontece  uma mudança substancial que limita a disponibilidade de recursos. Nada disto foi pensado para a Grécia.

11.- No acordo sobre a dívida alemã, é aí  explicitamente previsto  que o país pode produzir no local  o que era anteriormente importado a fim de alcançar um   excedente  comercial e reforçar os  produtores locais.  Ora,  a filosofia dos acordos impostas à  Grécia e as normas da União Europeia proíbem às  autoridades gregas de  ajudar, de subsidiar  e de  proteger  os seus produtores locais, seja na agricultura, indústria ou serviços,  face aos seus concorrentes  de  outros países da UE (que são os principais  parceiros comerciais da Grécia).

Poderíamos acrescentar que a Alemanha, após a Segunda Guerra Mundial, recebeu donativos   numa  proporção significativa, em especial,  como se viu  acima, no âmbito do plano Marshall.

Pode-se entender porque é que  o líder do Syriza, Alexis Tsipras fez referência ao acordo de Londres de 1953 quando se dirigiu à opinião pública europeia. A injustiça com que o povo grego é tratado (bem como os outros povos cujas autoridades seguem as recomendações da Troika) deve aumentar a consciência de uma parte da opinião pública.

Mas não temos ilusões, as razões que levaram as potências ocidentais a tratar a Alemanha Ocidental da maneira como o fizeram, depois da  segunda guerra mundial,  não são aplicáveis ao caso da Grécia.

Para se poder  ver uma solução real para a tragédia da dívida e da austeridade, será necessário  ainda que hajam  poderosas mobilizações sociais na Grécia e no resto da União Europeia e a chegada ao poder de um governo do povo em Atenas. Será necessário  um acto unilateral de desobediência feito pelas  autoridades de Atenas (apoiado pelo povo), assim como a suspensão do reembolso e a revogação das medidas anti-sociais, para forçar os credores principais a  concessões e impor finalmente o cancelamento da dívida ilegítima.  A realização à escala popular  de uma auditoria cidadã da dívida grega deve ser utilizada para preparar o terreno.

Proximamente: Grécia-Alemanha: quem deve a quem (2) , da dívida do Terceiro Reich para com a Grécia até hoje.

Eric Toussaint, maître de conférence à l’université de Liège, est président du CADTM Belgique (Comité pour l’annulation de la dette du tiers-monde, http://www.cadtm.org) et membre du conseil scientifique d’ATTAC France. Il a écrit, avec Damien Millet, AAA. Audit Annulation Autre politique, Seuil, Paris, 2012.

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