Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
VEJA-SE O PRIMEIRO ARTIGO DA SÉRIE: “GRÉCIA-ALEMANHA: QUEM DEVE A QUEM ? “(1) A ANULAÇÃO DA DÍVIDA ALEMÃ CONCEDIDA EM LONDRES EM 1953″, TAMBÉM DE ÉRIC TOUSSAINT, PUBLICADO EM A VIAGEM DOS ARGONAUTAS, A 17 E 18 DO CORRENTE MÊS DE JANEIRO.
(continuação)
Parte II
2. Os empréstimos concedidos à Grécia permitem ganhar muito dinheiro …fora da Grécia
O crédito concedido a Grécia sob os auspícios da Troika são remunerados. Diferentes países participantes nestes empréstimos ganham dinheiro. Quando foi adoptado o primeiro plano de empréstimo de 110 mil milhões de euros, Christine Lagarde, então Ministro das Finanças da França |10|, indicou publicamente que a França ia emprestar à Grécia a uma taxa de 5%, enquanto a própria França tinha obtido o dinheiro nos mercados de capitais a uma taxa muito mais baixa .
A situação era de tal modo escandalosa (uma taxa alta também foi aplicada à Irlanda, a partir de Novembro de 2010, e em Maio 2011 a Portugal) que os governos credores s e a Comissão Europeia decidiram em Julho de 2011 que a taxa exigida à da Grécia |11| seja de facto reduzida . Que confissão! Embora essa decisão seja posta em prática, a diferença entre a taxa de empréstimo a que estes países se financiam e a taxa que é exigida à a Grécia manteve-se alta.
Sob protestos do governo grego e face ao descontentamento popular bastante profundo e que se exprime pela forte mobilização social na Grécia, os países credores acabaram por decidir devolver à Grécia uma parte dos rendimentos que estes recebem pelos empréstimos concedidos a Atenas |12|. Mas cuidado, os rendimento das retornas eram usados para reembolsar a dívida.
3. A crise da zona euro reduz o custo da dívida para a Alemanha e para os outros países fortes
Mas a história não termina aqui. Os países que dominam a zona euro estão a aproveitar-se da infelicidade dos países da periferia (Grécia, Portugal, Irlanda e Espanha, países do antigo bloco Leste membros da UE). O agravamento da crise na zona euro, devido à política praticada pelos seus dirigentes e não por causa de fenómenos externos, provoca uma mudança dos capitais da periferia para o centro. A Alemanha, a França, os Países Baixos, a Finlândia, o Luxemburgo, a Áustria e a Bélgica beneficiam disso mesmo graças a uma forte redução do custo de financiamento de suas dívidas.
No dia 1 de Janeiro de 2010, antes de ter estourado a crise grega e a da zona do euro, a Alemanha devia prometer uma taxa de juro de 3,4% para emitir títulos da dívida pública a dez anos, os Bunds, enquanto que a 23 de Maio de 2012, a taxa a 10 anos caiu para 1,4%. Isso corresponde a uma diminuição de 60% do custo de financiamento |13|. De acordo com o jornal francês diário de caracter financeiro Les Echos |14| “um cálculo aproximativo mostra que a economia gerada pela redução do custo do financiamento desde há 3 anos elevou-se a 63 mil milhões de euros”. Esta soma deve ser comparada com os 15 mil milhões (sobre 110 mil milhões distribuídos por diferentes credores) efectivamente emprestados pela Alemanha (com juros – veja acima) entre Maio de 2010 e Dezembro de 2011 à Grécia, no quadro da sua contribuição ao primeiro plano da ‘ajuda’ da Troika. O total dos valores assumidos pela Alemanha relativamente à Grécia, se somarmos as decisões europeias entre 2010 e 2012, equivale a 67 mil milhões de euros. Mas cuidado, a maioria deste montante ainda não foi desembolsada enquanto que a economia realizada de acordo com o cálculo do jornal Les Echos já atinge os 63 mil milhões de euros.
Nós evocámos a taxa de 10 anos e a 6 anos paga pela Alemanha para levantar empréstimos nos mercados de capitais. Se tomarmos a taxa a 2 anos, a Alemanha por exemplo emitiu títulos desta maturidade a 23 de maio de 2012, a uma taxa de juro NULA |15|. No inicio de 2012, a Alemanha levantava empréstimos a 6 meses e no montante de 3,9 mil milhões de euros a uma taxa de juro negativa. Neste contexto, Le Soir escreveu em 23 de Maio de 2012: “os investidores receberão no final destes seis meses um pouco menos (0,0112%) do que o que eles emprestaram” |16|.
Se há uma ponta de verdade na montanha de mentiras sobre a Grécia (sobre Portugal, Espanha…), pode-se perceber que a Grécia permite que a Alemanha e os outros países fortes da zona euro estejam a ganhar somas consideráveis. A lista das vantagens obtidas pela Alemanha e pelos outros países do centro deve ser completada pelos seguintes elementos.
4. O programa de privatização de que beneficiam as empresas privadas dos países do centro da zona euro
As políticas de austeridade impostas na Grécia contêm um extenso programa de privatizações |17| de que os grandes grupos económicos, especialmente alemães e franceses poderão recolher benefícios porque os bens públicos são vendidos a preços de saldo.
Na linha do que temos estado a afirmar veja-se uma longa entrevista dada por Costas Mitropoulos, um responsável pelo programa de privatização na Grécia, ao diário suíço de língua francesa Le Temps de 7 de Abril de 2012, em que este jornal comentou: “os escritórios do Fundo de Desenvolvimento dos activos helénicos (“Hellenic Republic Asset Development Fund “) estão situados mesmo junto a um museu dedicado à história da capital grega, Atenas. “Um símbolo, tanto o processo de privatização levado à prática por uma vintena de especialistas, sob a direcção do ex-banqueiro Costas Mitropoulos, deve mudar a prazo a face da própria Grécia” e em que depois o mesmo jornal acrescenta:
“É a este fundo, criado a pedido da União Europeia (UE), que o Estado grego transfere à medida que o processo avança as propriedades, as concessões e as participações que devem encontrar comprador. Tem como o objectivo, de acordo com os planos iniciais da União Europeia conseguir pelo menos 50 mil milhões euros de receitas – daqui até ao final de 2017. ” Costas Mitropoulos, banqueiro, tem sido activo em Genebra e sublinha que” a transferência de propriedades para o nosso fundo, pelo Estado grego, já está a decorrer em estado acelerado . E na entrevista continuou : ” a nossa primeira mensagem a fazer passar é a seguinte : nós não somos o Estado grego.” Nós somos um fundo independente, responsável pelas privatizações e que é agora proprietário de 3% do território grego. Temos um mandato por três anos. Estamos protegidos contra as interferências políticas. »
O repórter do Le Temps insiste: “é na verdade independente? As privatização em todo o mundo são sempre muito ” políticas ” e o Estado grego, que vai continuar a estar presente no capital de muitas empresas, tem muito má reputação… »
A resposta é inequívoca: “eu tenho, como banqueiro de negócios, estado a presidir ao destino de uma das maiores fusões e aquisições na Grécia: a recompra pelo grupo internacional Watson do grupo farmacêutico helénico Specifa por quase 400 milhões de euros.» Eu conheço as regras: um investidor para estar interessado hoje por uma privatização grega deve ser poder esperar triplicar ou quadruplicar a sua aposta. Um euro investido deve dar-lhe três ou quatro de volta. “|18|.
