REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930

Os Ciclos “Liquidacionistas” : A antiquada  teoria dos ciclos reais  da actividade económica  e a Grande Depressão, por BRAD DELONG

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Júlio Marques mota fez também a introdução a este texto, em  SOBRE O LIQUIDACIONISMO DE ONTEM NA AMÉRICA E DE HOJE NA EUROPA, publicado em A Viagem dos Argonautas, dias 22 e 23 (anteontem e ontem), às 22 horas.

Durante o período de recessivo de 1929-1933  a que se chamou  Grande Depressão, o Federal Reserve quase que  não tomou nenhumas medidas para manter a oferta de moeda ou  mesmo para manter estável o  nível de preços. Em vez disso, o Federal Reserve agiu desastrosamente, como se não pudessem ser evitados os terríveis  efeitos da Grande Depressão, como  se esta não pudesse   ser evitada   e, antes pelo contrário, actuou no sentido oposto, agravando estes mesmos efeitos. Uma tal teoria das depressões económicas, a que se chamou teoria liquidacionista   era de facto muito  comum antes da revolução keynesiana, e foi avançada por economistas como Hayek, Lionel Robbins  e Schumpeter.  No presente trabalho tentaremos reconstruir e analisar  a lógica do ponto de vista  “liquidacionista”.  Devemos  antes de mais  referir    que se trata de uma perspectiva cuidadosamente pensada  (embora nada mas nada adequada  para determinar as políticas económicas na   situação de  Depressão  económica) e  que pode  ter tido alguma dose de verdade noutros tempos, noutros lugares, noutras situações  e mais ainda, poderia ser o núcleo central de uma mais produtiva investigação económica  do que as actualmente muito populares   teorias  “dos ciclos reais”  da actividade económica.

Introdução

A inacção do governo dos Estados Unidos durante o período recessivo de  1929-1933 chamado a Grande  Depressão é, actualmente, e a partir de várias perspectivas  económicas, extraordinariamente intrigante e mesmo incompreensível.   De qualquer que seja o ponto  de vista actual   de  como a macroeconomia   deve  conduzir a  política económica  o  governo  deveria ter procurado obter  alguns agregados macroeconómicos mesmo em sentido lato  e em termos nominais , como  seja a oferta agregada nominal de moeda  para os novos clássicos e para os monetaristas, enquanto que para os  keynesianos   seria  a procura nominal agregada com esta própria numa   trajectória de  crescimento estável. Se necessário, as reservas do banco central e a liquidez  deveriam  ser movimentadas  para o sistema bancário e  tão rápido quanto possível (e as autoridades responsáveis pelo orçamento  deveriam  cortar  nos  impostos e acelerar as despesas públicas),  a fim de manter o stock  nominal de moeda e o total da procura em termos nominais  para assim se evitar começar a caír em incipientes situações de depressão económica.

O Federal Reserve, no entanto, não forneceu as  reservas necessárias ao sistema bancário  durante o período recessivo de  1929 a 1933, levando mesmo a que o volume de moeda se tenha reduzido em um terço.  As suas   operações de open market   foram  esporádicas  e nem sempre foram expansionistas  (Temin, 1974). Facções do Federal Reserve que  defendiam   políticas  menos deflacionárias  foram ultrapassadas   por aqueles que defendiam  que face à situação da  Grande Recessão  a  economia precisava de passar por um período de “liquidação”, a fim de estabelecer as bases para uma renovada expansão.  Os  “Liquidacionistas” , como assim eram chamados ,  apontavam  para a recessão de 1921, curta mas profunda, e argumentavam  que esta tinha criado as bases para a  prosperidade da década de 1920, e defendiam assim  semelhantes políticas deflacionistas  que eles esperavam viessem pois ajudar  e apoiar o capital e o trabalho  a deslocar-se, a reafectar-se, neste contexto,   das actividades socialmente  improdutivas e  criando, portanto,  com essa deslocação de factores  as bases materiais e económicas para um crescimento similar em 1930 (Eichengreen, 1991).

Estas políticas acabaram por  ser  desastrosas em 1929-33. Mas a corrente de pensamento  que as apoiava  não era apenas constituída pelos decisores da política económica que estava a ser aplicada.  Uma tal  teoria “liquidacionista” das funções das  depressões económicas  era também muito comum nos economistas da época, portanto antes da revolução keynesiana.  Esta teoria era mesmo proposta e defendida  por economistas  tão eminentes  como Hayek, Robbins e Schumpeter. Ao  evitarem as políticas económicas não deflacionistas os decisores das   políticas adoptadas pelo  governo federal apenas deram ouvidos ao  que   lhe era proposto pelos  “escribas académicas”. Eles foram verdadeiramente “escravos de alguns [ainda não]  defuntos economistas.  (Keynes, 1936).

Depois da Grande Depressão, a vitória intelectual do keynesianismo  foi completa. Esta vitória foi de uma tal ordem que até reduziu os fundamentos intelectuais da teoria pré-keynesiana dos ciclos de actividade económica a escombros. Não é possível, lendo  Paul Samuelson (1988) ou Milton Friedman (1974), conseguir obter uma imagem   do que era a teoria pré-keynesiana  do ciclo de actividade económica de então. Milton Friedman fala de “uma caricatura rígida e  atrofiada  da teoria quantitativa” que não poderia de modo nenhum orientar a política económica.  Paul Samuelson, por seu lado,  fala de uma crença tal  na lei de Say que levaria a admitir que não haveria nenhuma possibilidade  teórica de se verificar uma qualquer Depressão Económica .

Este artigo reconstrói a lógica da visão liquidacionista e apresenta um modelo simples na tradição desta mesma visão do mundo económico e da Depressão em que se considera que  as situações de   depressão económica são episódios desagradáveis mas ​​inevitáveis ​​ no crescimento de uma economia dinâmica em regime de  incerteza. Neste modelo tenta-se mostrar que as tentativas de utilização de  políticas para se manter a nível elevado o investimento, o emprego e a utilização da capacidade elevada são mais  prejudiciais do que úteis.   Estas medidas para contrariar a crise são positivamente destrutivas e nada mais fazem do que ampliar os problemas para o futuro.

A tarefa do presente trabalho é estabelecer as razões, por ordem decrescente de importância para a construção desta ideia da realidade económica. Primeiro, vale sempre a pena fazer a história do pensamento económico de forma correcta. As gerações anteriores de economistas foram tão inteligente e interessadas  como a geração actual. Depois, para compreender no que é que eles  acreditavam que lançaria  luz quer sobre o actual funcionamento  das economias quer sobre  as  crenças dos seus economistas de agora. Em segundo lugar, a existência do “liquidacionismo” desempenhou um papel chave na motivação para as decisões de política pública mas não para combater a Grande Depressão. A história da política económica e da economia durante a Grande Depressão não pode ser passível de ser contada  em termos de   como  é que esta crise  realmente aconteceu, sem um quadro coerente da perspectiva “liquidacionista” que muitos  tinham adoptado.

Terceiro, os ciclos da actividade económica   têm muitas causas possíveis e estas são moldadas por diferentes forças, em épocas diferentes: uma perspectiva  “liquidacionista” pode, algumas vezes, lançar luz sobre os ciclos económicos e em alguns lugares, mesmo se não é de pouca ou nenhuma  ajuda  para a compreensão da Grande Depressão. A  moderna economia parece ter a necessidade de ter na sua caixa de ferramentas  um conjunto de modelos de ciclo de actividade económica  em que as  flutuações macroeconómicas são inevitáveis e em certo sentido consequências  “optimais”,  sendo estas resultantes da resolução de um problema de maximização dinâmica na economia a funcionar em  regime de incerteza. Como  isto tem  evoluído até  à data, o programa moderno de investigação sobre o  “ciclo real de actividade económica ” está assente em variações à baixa na função de produção para poder gerar uma redução do investimento e do output . Friedrich Hayek e Joseph Schumpeter acreditavam na teoria  do ciclo real da actividade económica, mas a sua base de trabalho não requer a embaraçante e específica regressão tecnológica em grande escala para se dar conta das Depressões económicas. Seguramente, um programa  de investigação que adopte, continue  e aprofunde  esta linha de análise será mais útil e levará a alcançar  mais  progresso do que o actual programa de investigação dos ciclos reais de negócios.

(continua)

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