Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
A servidão da Irlanda perante a dívida
Ambrose Evans-PritchardEconomics
A cólera irlandesa sobre a construção do resgate e do pacote de austeridade
Reduzido aos seus fundamentos estes dizem-nos que o pacote de 85 mil milhões de euros imposto à Irlanda pelo Eurogrupo e pelo Banco Central Europeu é um resgate para salvar os imprevidentes banqueiros credores britânicos, alemães, holandeses e belgas.
Os contribuintes irlandeses suportam agora a carga completa desse resgate e irão empobrecer o que lhes resta do seu fundo de pensões de reserva para cobrir um quarto desse custo.
Este acordo – eu não iria dizer nenhum piada se lhe chamasse antes negociata ou golpada – foi anunciado em Bruxelas antes do eleito Chefe do Governo da Irlanda ter sido capaz de dizer ao seu povo qual poderia vir a ser o seu destino .
O Chefe do Governo afirmou posteriormente que Bruxelas tinham recusado de modo imperativo qualquer ideia de haircuts, de depreciação parcial da dívida, para os detentores seniores de títulos: a falta de apoio “político e institucional”, segundo as suas polidas palavras: ou “bateram no telhado”, de acordo com fontes próximas .
Pode-se ver porque é que as autoridades da UE reagiram com tanta veemência. Um tal comportamento nesse momento delicado poderia levar a uma reacção em cadeia ainda mais dramática nos mercados de dívida na UEM do que aquela a que já assistimos.
É mais difícil de justificar porque é que os irlandeses devem pagar o custo total para defender o sistema bancário europeu, e porque é que eles devem aceitar condições tão ruinosos.
Deve-se acrescentar que se é realmente verdade que uma depreciação da dívida sénior , a tesourada na dívida, o haircut, do Anglo Irish, e nos restantes bancos igualmente, derrubaria todo o edifício financeiro da Europa, então a outra questão é como é que um qualquer um destes bancos europeus passou nos testes de resistência neste verão, e como é que as autoridades da UE deixaram a situação chegar a este ponto? Bruxelas não pode ter as duas coisas, bancos falidos e os mesmos bancos a passarem nos testes de resistência.
A Irlanda não teve enormes défices orçamentais ou violou o Tratado de Maastricht nos anos de expansão . Ela teve um excedente orçamental , (como teve a Espanha) e reduziu mesmo a sua dívida pública para perto de zero. O ministro das Finanças alemão Wolfgang Schauble mantém-se a esquecer este ponto central mas então nós não queremos prejudicar a confortável – e conveniente – situação alemã.
Patrick Honohan, um veterano do Banco Mundial que veio para a situação de poder limpar a casa no Banco central escreveu um texto definitivo sobre as causas do desastre do seu púlpito no Trinity College de Dublin, no início de 2009.
Intitulado “O que é que esteve errado na Irlanda?”, ele explica como é que a economia dos tigres verdadeiramente se perdeu no seu caminho, depois do lançamento do euro e por causa do euro.
“As taxas de juros reais entre 1998 e 2007 estiveram em média a 1pc [comparado com mais de 7pc no início de 1990],” disse.
Um choque das taxas de juro (positivo) dessa magnitude numa economia dinâmica em rápido crescimento estava condicionado a carregar com uma enorme bolha de crédito e de imobiliário .
“Os membros da zona euro certamente contribuíram para o boom imobiliário e para a deterioração da competitividade derivada da evolução salarial. Com certeza, todos esses desequilíbrios e desalinhamentos poderiam ter acontecido fora da UEM mas as antenas da política económica não estavam viradas para a Irlanda . Os sinais de alerta foram silenciados. Faltando esses sinais de alerta, os decisores políticos irlandeses negligenciaram os ensinos básicos das finanças públicas.”
“Um longo sucesso terá assim embalado os decisores numa situação de falsa sensação de segurança. Prisioneiros da sua arrogância negligenciaram garantir o que era básico, permitindo o expansionismo imprudente de um sistema bancário constituído por verdadeiros escroques,” escreveu.
Deixem-me acrescentar que o BCE executou uma política monetária que foi demasiado mal trabalhada mesmo para a zona euro como um todo, mantendo taxas em 2pc até ter rebentado o boom de crédito e permitindo a oferta de moeda M3 a expandir-se a 11pc (contra 4.5pc que era o objectivo ). O BCE violou o seu próprio tecto quanto a inflação mensalmente e durante toda uma década. O BCE terá feito isso para ajudar a Alemanha a atravessar a sua mini-recessão e ao fazê-lo derramou gasolina na fogueira dos PIIGS. Por favor, que não haja mais hipocrisia vinda de Berlim.
A verdade é que a construção da UEM é uma partilhada culpabilidade. Sim, os irlandeses deveriam ter regulamentado os seus bancos correctamente e restringido o crédito hipotecário a um rácio de empréstimo relativamente ao valor em causa na ordem dos 80c, 70 ou 60 porcento , forçando este valor à descida tanto quanto fosse necessário – como o fazem Hong Kong e Singapura – para parar as bolhas idiotas.
Mas quase ninguém entendeu as implicações da União Monetária: em Dublin, em Berlim, em Bruxelas e em Frankfurt. Eles estavam quase todos encantados ( embora eu duvide que o Axel Weber e Jurgen Stark do BCE tenham estado sempre assim ).
Face a tudo isto, porque é que os irlandeses aceitaram os termos actuais para o resgate ? Como Citigroup disse numa nota de hoje, a parte da União Europeia no pacote será à volta de 7pc — maior do que a taxa paga pela Grécia. Isso é pena.
Até 2014, os pagamentos dos juros sobre a dívida pública da Irlanda (então 120pc do PIB) será de 10 mil milhões de euros enquanto as receitas fiscais serão de 36 mil milhões de euros. Esta relação está bem acima do valor médio que habitualmente desencadeia uma situação de incumprimento que é de 22pc, conforme se estabelece num estudo da Moody’s.
O PIB em termos nominais desceu na Irlanda em 26pc desde o seu valor de pico. Trata-se de PIB nominal, não real, mas isto é extremamente importante do ponto de vista da dinâmica da dívida.
A Irlanda é um caso clássico da armadilha da deflação pela dívida, conforme foi descrito por Irving Fisher, no seu texto na Economica de 1933.
Sim, a Irlanda tem um sector de exportação muito dinâmico e talvez possa saltar dos garrotes da ratoeira – o que a Grécia e Portugal não podem esperar poder fazer a tempo e em condições , na minha opinião. De uma forma que torna a escolha ainda mais difícil.
A questão é, irá a Câmara votar contra o orçamento de austeridade em 7 de Dezembro, Pearl Harbour Day? E poderá o próximo governo – ter o Sinn Fein na coligação? –ser capaz de dizer à União Europeia que vá para o inferno, fazer uma Islândia, lavar as suas mãos dos bancos e transportar um incumprimento unilateral sobre a dívida sénior, recusando-se a estender as suas garantias?
Os riscos são enormes, mas então, as provocações também são enormes. E há aqui um recorde a estabelecer. Não estará a UE a desconsiderar o ‘não’ irlandês para Lisboa, assim como ela ignorou o primeiro ‘não’ irlandês para Nice? Não estará ela a atropelar tudo sobre a democracia irlandesa?
Não é um jornal britânico a sugerir o caminho que se vai tomar. Ambos os resultados são horríveis, mas como um leitor irlandês me escreveu: se Eamon De Valera pode desafiar a opinião pública mundial em 1945 enviando condolências à Alemanha pela morte do Fuhrer, os nossos líderes de hoje não precisariam de se preocupar muito em escandalizar aqueles que os fizeram engolir Lisboa de forma bem escandalosa está para reforçar .
A submissão é traumática. O incumprimento é traumático. O que os irlandeses têm diante de si é uma escolha política sobre o que eles querem ser enquanto que povo e enquanto que nação.
Deixe-me terminar com algumas palavras pronunciadas por Dan O’Brien, o Editor de economia do Irish Times, que me chamaram a atenção.
“Nada há que simbolize mais a perda de soberania deste Estado do que a conferência de imprensa em que falaram o representante do BCE , dois representantes do FMI e um representante da Comissão Europeia. Esta conferência realizou-se nas instalações do Governo para a Imprensa, junto do Parlamento irlandês. Eu sou um xenófilo e um cosmopolita por natureza, mas ver tecnocratas estrangeiros assumirem o coração do aparelho de Estado para nos dizer isso mesmo e para nos dizerem igualmente como o Estado deverá funcionar no futuro próximo provocou-me um sentimento de amargo de boca e também a ideia de ter levado um grande murro no estômago.


