Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
O principal financiador do planeta acaba de assumir que se enganou, que errou: o FMI sub-estimou seriamente os efeitos nefastos das políticas de austeridade que ele próprio defende e impõe. “Um simples erro de cálculo “, disse, mas cujas consequências são devastadoras. No entanto, adivinhem: os defensores das políticas de austeridade continuam a fazer como se nada disto tivesse sido agora reconhecido …
Christine Lagarde, directora do FMI e o ministro da Economia em Espanha, Luis de Guindos – YE PINGFAN/CHINE NOUVELLE/SIPA
A confissão é incrível, quase inimaginável. Quatro anos depois do início da grande depressão que abala fortemente as economias ocidentais e com uma violência sem igual desde 1929, um dos maiores economistas do mundo, neste caso, o director do departamento de Investigação do Fundo Monetário Internacional, acaba de publicar um relatório no qual admite que o FMI e, com este, todos os líderes europeus, ministros das Finanças , Banco Central, a Comissão Europeia, todos seriamente subestimaram os efeitos negativos das políticas de austeridade impostas aos Estados mais endividados.
Sim, leu bem: Olivier Blanchard, uma das sumidades em economia mais importantes no mundo, admite agora, preto no branco, num relatório de 43 páginas divulgado em 3 de Janeiro, que o FMI se enganou em toda a linha. E a culpa vem de um simples erro de cálculo, sobre um coeficiente bem conhecido na disciplina: o multiplicador.
Entre 1970 e 2007, os previsionistas do FMI tinham considerado que de 1% a menos na despesa pública ou de imposto a mais –resultava , em média, uma diminuição de 0,5% na taxa de crescimento nos países desenvolvidos. Seja um multiplicador de 0,5, que eles de modo doutoral retiveram nos trabalhos preparatórios de ajuda à Grécia e a Portugal. Mas isso foi antes da crise e da imensidão de incertezas que afectam o comportamento do consumidor.
No seu “Panorama da economia mundial”, publicado em Outubro, o FMI reconheceu, primeiro, num pequeno anexo referenciado apenas pelos especialistas, que os multiplicadores actuais poderiam estar situados “entre 0,9 e 1.7”. Ou seja, entre duas a três vezes mais! O estudo detalhado de Olivier Blanchard confirma o erro. As consequências são abissais: forçando governos no sul da Europa a reduzir drasticamente os salários dos funcionários públicos e as pensões dos aposentados, o FMI levou a que as economias afundassem drasticamente a sua procura interna e duas a três vezes mais rápido do que o esperado.
A sequência, essa, é infelizmente bem conhecida : falências em série, a explosão do desemprego e os protestos nas ruas de Atenas e de Lisboa. Como o diz um provérbio japonês : “Se a sua única ferramenta é um martelo, então tudo lhe vai parecer um prego”…
