Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
http://mundo-editorial.blogspot.pt/2011/10/islandia-e-destaque-na-feira-do-livro.html
(Obrigado a Mundo-editorial)
Porque é que a Islândia suspende as suas negociações para entrar na União Europeia ?
Charlotte Chabas, Le Monde.
Foi apenas em 2009 que a Islândia, já membro desde 1992 do Espaço Económico Europeu (EEE), se começou a interessar pela União Europeia . AFP/EMMANUEL DUNAND
O governo da Islândia anunciou na segunda-feira, 14 de Janeiro, uma pausa nas negociações que condicionam a sua adesão à União Europeia. Uma decisão política, justificada pela aproximação das eleições, que serão realizadas em 27 de Abril nesta ilha de 320.000 habitantes, mas que ilustra muito especialmente o eurocepticismo crescente que atinge o país e que poderia pôr em perigo a candidatura islandesa.
Foi apenas em 2009 que a Islândia, já membro desde 1992 do Espaço Económico Europeu (EEE), se começou a interessar pela União Europeia. Varrida por uma crise económica sem precedentes, a ilha do Atlântico Norte foi então mergulhada numa profunda recessão que perturba o seu equilíbrio social. Depois de um movimento popular que levou à queda do governo local, surgiu uma nova maioria, que reúne o Partido Social-Democrata e os verdes, tendo como primeiro-ministro, Jóhanna Sigurðardóttir. Nos meses seguintes à sua eleição, a nova coligação apresentou um pedido para aderir à União Europeia. A questão era clara: “não estar nunca sozinhos face a uma crise “, analisa hoje Rosa Erlingsdottir, professor de ciências política na Universidade de Reykjavik.
“Uma promessa bem pouco aliciante “
Mas quatro anos depois, a situação mudou significativamente. As negociações com a UE arrastam-se continuamente, apesar de dois anos de discussão. De acordo com o governo islandês, apenas onze dos 30 “capítulos” dessas negociações se consideram concluídos e importantes desacordos se mantêm sobre a questão agrícola e sobre as quotas das pescas. A “guerra de cavala” continua a agitar as tensões, enquanto a Islândia aumentou de modo bem significativo as suas cotas de forma unilateral nos últimos anos, aumentou de de 2 000 para 130 000 toneladas os seus limites de pesca.
Acima de tudo, ao longo dos meses, os indicadores económicos da ilha voltaram pouco a pouco para o verde. A taxa de desemprego em Novembro caiu para 4,4% da população, em comparação com mais de 8% em 2009 e 2010, e o poder de compra médio aproxima-se do nível que existia em 2008. São dados que transformaram a vizinha União Europeia enfiada na crise da zona euro, “numa promessa muito pouco aliciante “, observa Rosa Erlingsdottir.
60% dos islandeses opõem-se à adesão
De acordo com uma pesquisa realizada pela Gallup e publicada em Outubro, quase 60 por cento dos islandeses estão agora contra a adesão à União Europeia. Apenas 27,3% dos entrevistados são favoráveis a esse processo, enquanto 15% não tiveram nenhuma opinião sobre o assunto. Uma hostilidade que nunca foi tão forte, mas não é nova, de tal modo a ideia de uma adesão sempre dividiu o povo da Islândia. Uma “ruptura na opinião” é o que a sociólogo Helgi Gunnlaugsson análisa como sendo “a manifestação do forte espírito insular dos habitantes, divididos entre a ilusão de autonomia nos bons tempos e espero encontrar apoio nos maus momentos”
Caricatura publicada no jornal “Fréttabladid”. E visivel no site Visir.is
As instituições, estas, continuam a estar muito divididas sobre o tema da adesão. Apesar do ambiente económico actual da União Monetária, o Banco Central Islandês estimou em Setembro que pertencer à zona euro seria a melhor solução para o país se este decidisse abandonar a coroa, a moeda da Islândia, na sequência da implosão financeira da ilha. A moeda islandesa, tem estado sempre enquadrada por rigorosos controles de capital, na verdade tinha-se mostrado extremamente vulnerável durante a crise económica. Depois, a questão da adopção de uma moeda mais forte é regularmente levantada no debate político.
IMPACTO SOBRE A VIDA POLÍTICA
Mas este euroscepticismo popular tem um impacto não desprezível sobre a política islandesa. Em Julho, o presidente cessante, Ólafur Ragnar Grímsson, foi amplamente reeleito para um quinto mandato. Ele tinha beneficiado do voto dos eleitores de direita, seduzidos pela sua oposição à adesão à União Europeia. Alguns jornalistas Islandeses acreditaram então vislumbrar na sua vitória a vontade do povo para um referendo sobre a questão da adesão Europeia.
No Parlamento, o principal partido da oposição, o partido da independência, à frente nas sondagens para as eleições parlamentares, sentiu desse há já muito tempo que o assunto suscitava alguma crispação e opõe-se à adesão. O grupo de “Não à UE”, que reúne membros de várias correntes políticas, martela sobre a questão da rejeição geral do processo pela classe política, salientando que apenas um partido nos cinco que estão no Parlamento é a favor da adesão .
Face a estes múltiplos opositores à adesão, a coligação no poder, agora em má situação nas sondagens está dividida entre prós – e antieuropeus. Alguns deputados temem o custo eleitoral a pagar para apoiar a adesão.
“A UE NÃO ESTARÁ NECESSARIAMENTE SOB OS HOLOFOTES”
A poucos meses das eleições legislativas, o governo islandês decidiu suspender temporariamente as negociações com a UE. Graças a esta ruptura, “a UE não estará necessariamente sob os holofotes”, disse o Ministro dos negócios estrangeiros Islândia, Ossur Skarphédinsson, à Agência de imprensa islandesa RUV. “Isto deve permitir à oposição destacar os temas que quer discutir,” acrescentou o ministro. Mas, à luz das discussões já desencadeadas apenas por esta decisão, a questão da adesão corre o risco de figurar numa posição proeminente na campanha eleitoral.
Enquanto isso, a União Europeia reagiu à decisão dizendo-se “confiante de que a adesão da Islândia à UE será um passo em frente para ambas as partes e continua empenhada em ajudar o país no processo de adesão “.
