MUNDO CÃO – CHAVEZ E O MUNDO ÀS AVESSAS – por José Goulão

Imagem1

O mundo não tem a noção da maneira ansiosa e dorida como a maior parte dos venezuelanos acompanham a luta do seu presidente Hugo Chavez contra uma doença difícil de derrotar.

O mundo não tem a noção disso porque a realidade que emerge e percorre as autoestradas main stream, depois de passada pelos filtros censórios de várias espécies com que tentam formatar-nos a opinião, é incompleta, manipulada, difamatória e, não raras vezes, mentirosa. Acresce que essa realidade é apresentada de forma tão indiscutível que chega a ser intimidatória, transformando qualquer um que se atreva a pô-la em causa, recorrendo ao mais elementar sentido crítico, em parte da temível teia terrorista que desafia a ordem universal estabelecida. Veja-se a ligeireza com que o pretensamente intocável El País publicou sem se dar ao trabalho de verificar a autenticidade uma fotografia de uma operação cirúrgica a um suposto Chavez para horas depois ter que retirar grande parte da edição de circulação e a foto da internet por ser falsa – o que se percebia a olho nu. É um escândalo, sim… Mas já passou, que não se fale mais disso…

Nada disso apaga a realidade que existe para a maioria dos venezuelanos mesmo não existindo, por lhes ser sonegada, para a maioria dos cidadãos do mundo. Os venezuelanos não se manifestam por Chavez, não rezam por Chavez, não choram por Chavez por um qualquer culto de personalidade, por uma irracional deificação de um líder, pelo carisma de alguém que seja considerado insubstituível.

A razão da empatia da maioria dos venezuelanos com o seu presidente manifestada neste momento difícil e decisivo é simples de explicar, é a mesma que fez dele o dirigente político mais vezes sufragado em eleições gerais e presidenciais, em referendos cuja legitimidade e transparência ninguém ousou pôr em causa, nem mesmo os temíveis fiscais do Norte do continente, que pregam e impõem aos outros o que não praticam em casa.

Chavez ganhou sucessivas eleições, com percentagens que chegaram a ultrapassar várias vezes os sessenta por cento, porque ele e as instituições constitucionais do país governam democraticamente, isto é, para a maioria do povo. Aprovam as leis que fazem chegar a saúde aos que a não tinham, o ensino a quem não lhe podia aceder, a casa a quem vivia em barracas, aumentaram salários, pensões, subsídios, instauraram direitos sociais e humanos. Pouco ainda para a dimensão colossal da obra que está pela frente, mas a Revolução Bolivariana tem menos de vinte anos e as eras de corrupção, delapidação e governos das elites estrangeiradas prolongaram-se durante décadas, e décadas, e décadas…

O mundo tem olhado para Chavez às avessas porque esse é o ângulo de visão estreito que lhe é imposto pelos poderosos meios de comunicação cujos méritos democráticos, os galões éticos e o respeito pela informação livre podem e devem ser discutidos, postos em causa.

Chavez e a ordem democrática e constitucional da Venezuela não representam um regime ditatorial, autoritário, de índole militar, mesmo sendo o presidente um general, o que como se sabe, e é justo que assim seja, não ofende a democracia desde que os mecanismos desta funcionem.

O que não é legítimo é considerar “democrático” tudo quanto se intitula anti-Chavez e depois fica reduzido a minorias quando se apresenta às urnas; o que é impróprio é tolerar como arautos da liberdade de informação meios de comunicação que violam deliberadamente as leis para seguir se apresentarem no exterior como vítimas de uma perseguição de regime, colocando-se a si mesmos acima das instituições do país.

Chavez não é um ditador sul-americano como se atrevem a insinuar os que criaram e sustentaram Pinochets, Banzers, Videlas e até “sociais democratas” de mão no coldre como Andrés Perez na própria Venezuela. Chavez não foi escolhido em Washington, foi eleito pelo povo, por isso o povo espera com ansiedade o seu regresso porque ele simboliza a mudança a favor dos mais necessitados, mesmo acreditando estes que aquela possa continuar ainda que ele não volte.

Chavez tem governado em sentido inverso ao da ordem mundial dominante, o que não representa, antes pelo contrário, qualquer problema com a democracia. Todos sabemos de onde partem atualmente os grandes ataques aos valores e mecanismos democráticos.

A situação instaurada na Venezuela pela Revolução Bolivariana não tem a ver, é verdade, com o que sucede por exemplo no Paraguai, nas Honduras, onde golpes político-militares recentes subverteram os resultados eleitorais fazendo com que estes países tenham regressado ao redil dos regimes democráticos à medida dos parâmetros balizadores de Washington e dos governos da União Europeia.

Se o mundo e a democracia andam às avessas a culpa não é de Hugo Chavez nem da maioria dos venezuelanos.

Leave a Reply