Glenn Gould, mito musical
Não existem mais dúvidas que Glenn Gould hoje seja um mito musical. Porém, restam sempre as indagações sobre as razões desse aparentemente pouco justificável mito, e mais ainda de como o mito Gould se fez. A esse respeito creio de poder dar o meu testemunho pessoal, pois desde sempre a sua imagem e personalidade musical ficaram impressas na minha sensibilidade. Partindo dessa experiência pessoal, juntamente com muitos estudiosos da música no campo internacional, proponho uma tese muito simples para justificar o fenômeno: a fama de Gould nasce de um movimento exportâneo vivido nas mais diversas partes do mundo ocidental, movimento esse que lentamente, quase no maior silêncio, criou o mito. Com tais afirmações, penso àquela ação, também praticada por mim, de uma comunicação subterrânea, o famoso fenômeno gerador de ídolos, o mesmo que a língua italiana traduz com grande eficácia: o “passa parola “ (passa adiante expontaneamente). Trata-se do mesmo método adotado por todos nós quando desejamos que os amigos, todos aqueles que nos são caros, participem de uma nossa muito particular descoberta. Não vale somente quanto a um bom restaurante, a um filme particularmente sentido, a um livro que nos comoveu (como por exemplo o caso de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa).
Quanto a Glenn Gould um tal fervor me se formou depois da extraordinária experiência que vivi escutando a sua execução do ciclo completo das 32 sonatas para piano, de Beethoven. Era no ano de 1958, no Rio de Janeiro. Como já acontecia comigo há tempos, estava eu na noite da estréia do ciclo pacientemente à espera que as bilheterias do Teatro Municipal concluissem as suas operações. Depois de que, um dos porteiros amigos me chamaria sorrateiramente e eu assim poderia entrar gratuitamente no Teatro antes que o concerto comecasse. Assim foi na primeira vez de conhecimento daquele jovem pianista que propunha alguma coisa que desde logo me fascinara: a execução em diversos concertos do ciclo completo das sonatas para piano compostas por Beethoven no atormentado percurso de sua existência.
Segui por várias noites e uma tarde o concretizar-se fascinante daquela experiência
Escutar o jovem pianista canadês, já famoso mundialmente pela sua participação desde os seus quinza eanos a grandes concertos, indivuais ou com orquestras, como acontecera um ano antes deste meu 1958 revelador, quando Gould se exibiu em Berlim, sob a direção de Herbert von Karajan, escutá-lo na exibição das sonatas beethovenianas logo me pareceu um privilégio.. Sigo todo o ciclo, e me delicio em particular com a execução da sonata op. 13, dita a Patética; com a revolucionária op. 27 n. 2, a Sob a luz da lua; ainda com a inovadora Pastoral, op. 28; a Aurora, op. 53; a envolvente op. 57, dita A passional; e ainda as últimas cinco, as opp.101, 106, 109, 110, 111, criadoras de novos rumos para a música erudita.
Depois desta contangiante presença de um pianista que me revelava não somente a beleza conhecida de composições famosas como aquelas sonatas, mas que misteriosamente me levava a apreendê-las como algo de inédito, passei a sentir a emoção de uma grande descoberta artísticas. De onde me vinha uma tal sensação? Possivelmente porque Gould me fazia sentir as sonatas de Beethoven não como em geral as conhecia, bem ou mal, mas de uma forma nova – Como se o texto beethoveniano saísse de seus intrínsecos espaços para alargar-se num amplo contexto. No qual, então, felizmente também eu me encontrava.
Depois de concluído o ciclo das sonatas, misteriosamente eu passara a referir aos amigos, sempre que podia, da grande experiência por mim vivida.
Certamente não é somente isso, o do “passa parola”, o que gerou o grande mito musical de Glenn Gould, mas também muito outros atos seus, como aquele de abandonar definitivamente a cena mundial, depois do famoso concerto de Los Angeles, de 10 de abril de 1964, a partir do qal ele decidiu de comunicar-se com seu imenso público somente a partir de discos. Depois, o mito já imperante atinge o culme com a sua morte aos 4 de outubro de 1982, quando tinha tão somente cinquenta anos de vida.
A partir de então tudo dele cai no mito, como a sua cadeira pessoal, reproduzida em números especiais; o sue famoso Steinway, por ele modificado na intenção de, certa forma, neutralizar-lhe o tom poderoso em favor de outros, feitos de matizes mais diluidos. Em seguida tal mito recebe diretas exaltações pessoais, como aquelas contidas nos Trinta e dois pequenos filmes sobre Glenn Gould,, de François Girard, realizado em 1993, ou como o romance de Thomas Bernhard, O perdente.
A consagração pública e sua definitiva conformação o mito de Glenn Gould se concretiza com a manifestação idealizada e realizada por Alexander Lonquich, por ocasião dos oitenta anos de nascimento e trinta da morte do musicista canadês, na organização da Accademia di Santa Cecilia, sob o título de L’estetica dell’assenza (A estética da ausência), manifestada com um seminário, um mesa-redonda, uma exposição no romano Parco della Musica, uma viagem no repertório do pianista e compositor, nas suas composições originais; e uma outra nos espaços do Maxxi. Mas especialmente quatro concertos na Sala Santa Cecícilia, precedidos por encontros explicativos. A inauguração do grande evento se deu no dia 16 de novembro de 2012, apresentada pelo mesmo Lonquich, com a verdadeira icona do pensamento de Gould, As Variações Goldeberg.
Nota da Coordenação:
A única versão que encontrámos disponível das Variações Goldberg, de J.S.Bach , na interpretação de Glen Gould, foi esta gravação de 1981. Apesar de não constituir uma reprodução ideal, permite reconhecer o virtuosismo de Glen Gould e recordar o esplendoroso génio musical de Johann Sebastian Bach.
