No início dos anos 80 apareceu nos jornais a notícia de que tinha encontrada uma criança a viver num galinheiro. Passou a chamar-se o caso da “Menina Galinha”, Isabel Quaresma de seu nome.
Filha de mãe débil e de um seu cunhado, a criança foi encontrada junto das galinhas. Não falava, não andava, batia os braços, comia maçarocas de milho, não reagia à presença da mãe. Aparentava uma idade mental de 2 anos.
Voltei a ter notícias dela passados 18 anos, estava ela integrada numa instituição de freiras em Fátima. Conseguira adquirir a marcha, mas doía-lhe a coluna e tropeçava se o chão fosse irregular. Mal se conseguia sentar numa cadeira. Tinha também dificuldades na motricidade fina, mal conseguindo comer de colher. Fazia, no entanto, alguns jogos de colocação de peças. Tinha graves problemas de estômago.
Qual foi a sua evolução? Já não dormia no chão, usava roupas limpas, ia sozinha à casa de banho, conseguia estar em grupo pequenos períodos de tempo. Gostava de ver algumas coisas na tv, sabia separar as cores.
Conseguia comunicar por algumas palavras, mas não construía frases completas. Quem com ela lidava sabia interpretar as suas expressões faciais. Sorria e às vezes era matreira.
Não lhe tentaram ensinar a linguagem escrita, antes de saber a falada… Já estávamos em 1980… Refiro-me ao célebre caso de Vítor de Aveyron, tratado por Jean Ytard, em 1798 e tratado no filme de Truffaut. Outros casos anteriores de “Crianças selvagens”, também descritas como “corpos sem alma”, tinham sido relatados. Desde 1726 – Peter, the wild boy, no Pais de Gales; 1731- Mennie, em Champaghne; 1820 – Kaspar Hauber, na Rússia, encontrado aos 16 anos, preso num quarto e com aquisição de linguagem feita e em 1820 , na Índia, Amala e Kamala, criadas por lobos.
Dez anos antes da nossa Menina Galinha, tinha sido encontrada, em Los Angeles, Gennie, acorrentada numa cadeira, por seu pai, a quem tinham dito que a filha era deficiente profunda.
João dos Santos disse a propósito: “ qualquer ambiente humano que não dê à pessoa basicamente um contacto físico, de pele a pele, de corpo a corpo, de gesto a gesto, de manipulação do corpo do outro, não facilita nem promove a linguagem. A linguagem implica a existência a de pessoas que falem e se exprimam e, por outro lado, implica um contacto físico que esta criança não tem. Ela de facto comporta-se como as crianças selvagens”(Diário de Notícias.19.1.1980).
Informações várias sobre este assunto em “Menina galinha – 18 anos depois”, no Diário de Notícias de 14.11.1998.
1 Comment