QUANDO O FMI CRITICA AS MEDIDAS DE AUSTERIDADE, por Laurent Pinsolle

Selecção, tradução, introdução e dedicatória por Júlio Marques Mota

Aos meus amigos AMS e CGP, antigos colegas num ensino nem sempre fácil, e ao  FN meu antigo aluno

A propósito de um texto de Laurent Pinsolle e não só

Depois de uma brincadeira , a sério, sobre um conto de Natal publicado neste blog, onde se questionava como e de onde vinha o dinheiro para pagar impostos e se relembrava aí  o Bernard Schmitt lido na época em que  tentávamos, por vezes a custo e com custos de vária natureza, vencer a nossa ignorância ou as nossas dificuldades

Depois de me lembrar das tardes a discutir alguns dos temas tratados no texto abaixo, lá  para os lados da esplanada do parque Eduardo VII   ou para bem perto daí, por exemplo, para os lados do Rádio Clube Português, onde uma velha avó nos protegia.

Depois de com isso tudo lembrar um velho professor nosso, Álvaro Ramos Pereira,  que  na sua casa e à noite nos recebia e as matérias de moeda nos ensinava. E com que alegria o fazia! Lembram-se?

Depois de andar a pressionar  um antigo aluno de ontem e meu amigo de hoje para descobrir  a relação existente entre o conto de Natal e a quarta medida exposta numa carta supostamente por mim enviada ao Presidente da República ainda  muito recentemente eis que  venho parar ao blog de RST pela mão de  Laurent Pinsolle e que encontro eu:  os temas por nós discutidos naqueles tempos longínquos mas agora com uma outra profundidade e no contexto da crise brutal que a Europa atravessa. Daria afinal, rebuscando nas memórias de outras discussões e de outros tempos, um tema para  uma outra última aula. Que nos fique, meus caros, uma certeza: conceitos tais como criação, destruição de moeda, moeda negativa e moeda positiva, moeda ex-nihilo e outros que a estes estão ligados  não eram matérias difíceis apenas para nós, jovens  que começávamos na altura a querer pensar e mudar o mundo com a vontade inerente àquela  idade. Não, difíceis eram e continuam a ser e vejam só como se expressam os economistas de hoje,  neste blog de RST,  onde se pode ler:   « Sinon, je confirme, cet ouvrage est excellent. Je n’en ai lu que la moitié mais rien que ça vaut déjà les 27 € que coutent ce livre. Et mon ami Ette Rodox m’a confirmé tout le bien qu’il pensait de ce livre (misa à part selon lui la troisième partie sur Schmitt et l’école de Dijon qui est, semble-t-il difficilement compréhensible) » O sublinhado é nosso. Dificeis estas matérias, portanto, ontem e hoje e, tanto mais, quanto agora nos deparamos, como assinalava o Financila Times, com uma Europa especializada na produção de incompetência e de cinismo, que se pretende generalizar à escala do continente,  para não dizer outros adjectivos.

Texto citado Théories Monétaires Post Keynésiennes
Blog citado  – Eco(dé)mystificateur, cujo endereço é :
http://ecodemystificateur.blog.free.fr/index.php?post/Théori

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Quando o FMI critica as medidas de austeridade

Laurent Pinsolle

Joseph Stiglitz ganhou. Ele que desde há muito tempo denuncia as políticas de austeridade impostas pelo FMI, sobretudo no livro  “A grande desilusão” publicado em 2001 e que  viu agora a organização que ele tanto criticou a ficar mais perto das  suas posições, conforme o relata a revista The  Economist,  com base num novo trabalho do  seu economista-chefe, Olivier Blanchard.

A teoria ultrapassada pela realidade

Deve-se dizer que os exemplos da zona do euro vieram  em grande parte  questionar todos os modelos do Fundo Monetário Internacional. No início do ano de 2012, o FMI  tinha assegurado todo o seu  “crédito” a hipóteses de crescimento económico totalmente mirabolantes num n-ésimo  plano de resgate sobre a Grécia . Em 2010, diziam-nos    que o crescimento iria voltar em 2012. No início de 2012, disseram-nos que seria afinal para  2014 (2,5%!). Face ao  desastroso colapso da economia grega, ninguém parece querer avançar agora com nenhuma data para o crescimento

Mas a situação  não  é nada mais sorridente  na Europa. À partida,  a Espanha deveria  reduzir o seu défice  público para 6% em 2011, para   4,5% em 2012 e, finalmente, para 3% em 2013. A realidade é bem diferente, já que Madrid não conseguiu fazer melhor do que 9% no ano passado e o défice será ainda mais de 7% este ano. Em suma, apesar de uma austeridade selvagem, o ritmo de redução do défice não é mais rápido do que o dos   Estados Unidos, mas este país deixa a austeridade para os outros e procura sobretudo sair da crise  pelo crescimento.

Na verdade, conforme o relata a revista  The Economist, os economistas do FMI ainda em 2010 estimavam que o multiplicador dos planos de  austeridade era apenas de  0,5, o mesmo é  dizer que quando se baixa o défice de 1% do PIB, esta contracção do défice  gera   uma contracção na  economia de apenas  0,5%. Em síntese, considerando  que o impacto sobre a situação orçamental do Estado foi de metade desse montante, poder-se-ia inferir que um esforço orçamental de  1% do PIB reduziu o PIB em 0,5% e o resultado final deste esforço, o efeito líquido final  deste esforço  (esforço inicial menos  o impacto de um crescimento menor sobre a receita fiscal e sobre a despesa pública) foi então não o inicial 1% do PIB  mas sim o de 0,75% do PIB.

Uma severa crítica

Estes pressupostos justificam em parte a adopção das políticas de  austeridade (sempre questionadas pelos  keynesianos como Stiglitz), apesar da destruição social que estas provocavam. Até que o caso  europeu vem colocar tudo em questão. Na verdade, os casos da Grécia, Portugal e de Espanha indicam que o efeito de austeridade sobre o crescimento pode ser muito maior, indo mesmo a um nível tal que estas políticas se tornam totalmente contraproducentes os seus efeitos sobre as próprias finanças públicas.

É assim que economistas de Berkley estimaram que, em tempos de crise, o multiplicador pode ser de 2.5,  e isso significa que uma política de redução do défice em um ponto do PIB  pode provocar  uma queda no PIB de 2,5 pontos, daí que se possa facilmente imaginar que  isso neutraliza uma  grande parte (se não a totalidade ) dos esforços de redução do défice. Os economistas da Universidade de Northwestern estimaram que o multiplicador varia entre 1 e 3 (especialmente quando as taxas de juros são muito baixas).

Olivier Blanchard, economista-chefe do FMI, no relatório sobre O  panorama do mundo económico em Outubro, o Outlook, reviu as suas estimativas do multiplicador    numa escala a variar  de 0,9 a 1,7,  e isto significa que um esforço de uma baixa do défice  de um ponto do PIB provoca uma redução do PIB que varia entre  0,9 a 1,7% do PIB. O problema é que, no topo da escala, o esforço de austeridade tem tendência a auto-anular-se deixando a economia com  menos riqueza criada e, entretanto, com bem mais  desemprego.

As políticas de austeridade prosseguidas hoje em tempos de crise são uma verdadeira monstruosidade, como escreve Paul Krugman no seu mais recente  livro . Como disse Keynes, “o tempo para a austeridade é o tempo dos booms, não o tempo das recessões” .   Informe-se disso as autoridades, como Lagarde, por exemplo…

Comentários:

  1. Um comentário  de A-J Holbecq, um autor de quem nós (Júlio Mota)  muito gostamos:

Os economistas do FMI levantam questões sobrea pertinência de  “100% money” num   documento de  71 páginas  ” The Chicago Plan Revisited ” disponível em:

http://www.imf.org/external/pubs/ft/wp/2012/wp12202.pdf

Uma parte da sua conclusão:

” Our analytical and simulation results fully validate Fisher’s (1936) claims. The Chicago Plan could significantly reduce business cycle volatility caused by rapid changes in banks’ attitudes towards credit risk, it would eliminate bank runs, and it would lead to an instantaneous and large reduction in the levels of both government and private debt. It would accomplish the latter by making government-issued money, which represents equityin the commonwealth rather than debt, the central liquid asset of the economy, while banks concentrate on their strength, the extension of credit to investment projects thatrequire monitoring and risk management expertise. We find that the advantages of the Chicago Plan go even beyond those claimed by Fisher. One additional advantage is large steady state output gains due to the removal or reduction of multiple distortions, including interest rate risk spreads, distortionary taxes, and costly monitoring ofmacroeconomically unnecessary credit risks. Another advantage is the ability to drivesteady state inflation to zero in an environment where liquidity traps do not exist, andwhere monetarism becomes feasible and desirable because the government does in factcontrol broad monetary aggregates. This ability to generate and live with zero steadystate inflation is an important result, because it answers the somewhat confused claim ofopponents of an exclusive government monopoly on money issuance, namely that such amonetary system would be highly inflationary. There is nothing in our theoreticalframework to support this claim. And as discussed in Section II, there is very little in themonetary history of ancient societies and Western nations to support it either.”

(continua)

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