EDITORIAL: AS LAVADEIRAS CONTINUAM A EXISTIR

Diário de Bordo - II

Já a seguir a este editorial,  este blogue apresenta um trabalho organizado pelo argonauta  Júlio Marques Mota, baseado numa notícia de Le Figaro, que nos conta uma história de horror passada na Irlanda. Neste país católico, os conventos têm acolhido muitas jovens que foram vítimas de situações sociais graves. Boa obra, sem dúvida. Mas todos os actos generosos se podem transformar em actos de maldade se não forem respeitados à partida os direitos básicos das pessoas. Muitas dessas jovens passaram anos e anos a trabalhar em lavandarias, em condições pesadas e sem retribuição, algumas delas por toda a vida. Tratava-se evidentemente de trabalho escravo. Depreende-se das informações que a Irlanda terá conseguido corrigir esta situação, que inclusive levou à criação de associações de vítimas, que têm procurado obter reparação pelos prejuízos que sofreram. Mas a gravidade do problema foi de tal ordem que o primeiro-ministro irlandês, Enda Kenny, já disse que lamentava a situação, havendo uma movimentação no sentido de que apresente um pedido formal de desculpas pelo que ocorreu durante tanto tempo, inclusive com jovens que estavam à responsabilidade do estado.

Esta situação existe em muitos outros países, inclusive no nosso. Existem muitas pessoas colocadas em internatos, colégios e estabelecimentos semelhantes, sem um projecto de vida definido, que são colocadas a desempenhar tarefas em que não auferem qualquer remuneração. Nem são consultadas sobre as aspirações que têm para a sua vida, e ainda menos se lhes dá uma preparação que lhes proporcione a possibilidade de uma vida independente.

Em Portugal é urgente acautelar este tipo de situações. As entidades públicas têm especial responsabilidade na sua detecção e prevenção. Ele atinge mulheres jovens e não só, como neste caso da Irlanda, que são forçadas a fazer trabalhos domésticos e outros, sem remuneração e, pior, sem lhes darem hipóteses de uma vida independente. Há pessoas de ambos sexos sujeitas a este tipo de situações. É urgente perceber a extensão que atinge esta forma de exploração, gravemente atentatória dos direitos humanos fundamentais. São delegados poderes em entidades privadas (entre elas, a Igreja Católica romana) que não podem ser entendidos como poderes absolutos sobre as pessoas. A civilização ocidental, tão gabada, só faz sentido pondo fim a esses poderes absolutos, quer exercidos pelo estado, quer exercidos por privados, sem excepção. O abuso sexual é um crime, cuja extensão, hoje em dia, começa a ser conhecida, sendo de esperar que se consigam progressos mais claros. A exploração das pessoas com fins económicos tem de seguir o mesmo caminho, para se poder falar em democracia ou em liberdade. O caso das lavandarias irlandesas foi um exemplo evidente de exploração. Os casos semelhantes que por aí continuam são-no também.

O abandono da solidariedade em favor da caridade, pedra de toque da política do actual governo português, combinado com o desejo revanchista de suprimir aquilo a que chamam os direitos adquiridos (leia-se todos os progressos obtidos após o 25 de Abril; quem dúvida leia os discursos de António Borges) cria o terreno favorável para o recrudescimento destas situações, até porque as acções de inspecção/fiscalização, que nunca foram muito encorajadas, vão ser cada vez mais complicadas. Nunca será demais chamar a atenção para isto.

1 Comment

  1. Pasmo, à medida que vamos saindo do campo teórico e retiramos o verniz à capa que nos esconde a realidade, pasma à medida que nos vamos debruçando não tanto sobre a lógica da crise mas sobre os efeitos da crise e sobre os silêncios feitos à volta desses efeitos.

    Duas qualidades claras aparecem neste editorial para além do muito que por ele se poderia discorrer. A primeira é a colocação do problema onde deve ser posto, referência ao problema da caridade, porque ele reflecte a demissão do Estado e tanto mais quando até o pouco que resta nos querem agora destruir, e essa demissão que está claramente por detrás das lavandarias da Irlanda ou de um outro país qualquer. A segunda qualidade é a crítica à ideologia subjacente a tudo isto, e para o caso português escolhe bem, escolhe o exemplo do cinismo de António Borges. E escolhe muito bem até porque, ironia das ironias, é um homem profundamente católico mas digam-me o que é há de cristão nas suas palavras, nos seus actos? Não será de certeza a abdicação das altas remunerações, porque isso garantidamente não sabe o que é, o que abdicar da ganância. Possivelmente os seus cavalos de Alter merecem mais cuidados que o nosso país, que as nossas gentes.
    No editorial lamento a não referência a uma coisa brutal, às questões da sexualidade proibida, porque mesmo por aí, a ameaça da sociedade puritana, o castigo, era bem “exemplar” das sociedades que se constituem na base do medo, da barbárie também. E era assim a sociedade irlandesa!

    Júlio Marques Mota

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