RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Terá Mario Draghi mentido ao Parlamento que aprovou sua nomeação?

Julien S, site AgoraVox

(continuação de sexta-feira, 8 de Fevereiro)

Resumo da cronologia da audição

O artigo do Le Monde relata confissões anónimas e elementos biográficos como indícios sérios de um falso passo da sua parte no que se refere à maquilhagem das contas da Grécia. O cruzamento da sua audição com a cronologia dos factos certificados, só por si, é suficiente para mostrar à luz do dia algumas inconsistências preocupantes. Eis pois um resumo do dossier acabado em Outubro e começado em Junho:

A sua participação na montagem inicial é excluída uma vez que esta última é datada de 2001. No entanto, supondo que ele teve um papel de supervisão da equipa que montou e negociou esse contrato, ele teria falhado, deixando fazer, quanto às suas obrigações éticas básicas. O Tesouro grego, na verdade, tinha em 2002 como seu intermediário privilegiado (no calão destes meios financeiros) para a emissão de dívida, este mesmo banco. Um acontecimento relatado numa auditoria do Eurostat, em 2010, que deveria ter chamado a atenção, mas isso não aconteceu, é que a maturidade prevista na montagem financeira de 2001 foi estendida em 2005. No entanto, ele só foi para o banco da Itália em 2006. Foi-lhe dada a oportunidade de se explicar numa audiência no Parlamento Europeu. Este grande servidor do Estado disse ser alheio a esta questão porque, não tendo nenhuma motivação para incluir o sector público nas suas relações de trabalho, ele e seu patrão acordaram em ser assim, também. Trata-se uma preferência curiosa, e o alegado acordo não corresponder ao perfil do posto que figura num comunicado oficial da sua entidade patronal, aquando da sua contratação. Numa entrevista de televisão, o deputado que participou no dossier deixou entender que o sugerido na sua prestação na audição tinha aprofundado o défice de confiança.

É estranho que, nos meses anteriores a sua audição, o BCE tenha bloqueado o acesso aos arquivos, contendo informações sobre o contrato concluído entre o banco de investimentos Goldman Sachs e o Tesouro grego, a uma agência de notícias (Bloomberg), que tinha feito o pedido através dos canais legais. Aqui, também, nenhum dos grandes media se interessou por mais uma coincidência.

O último parágrafo desta declaração leva-nos a precisar uma pista possível do recurso legal que nós sugerimos. Esta pista é a de pedir para se levantar o veto que proíbe o acesso aos arquivos do novo governador do BCE, que estabeleceu a seguinte linha, na mesma audiência, como mencionado neste texto:

como contrapartida da sua independência, o Banco Central Europeu deve fazer prova da maior transparência e apresentar contas.

As secções seguintes são o desenvolvimento deste resumo.

Cronologia

2001: Um arranjo financeiro (cross-currency swaps) é celebrado entre a empresa GS e a Grécia, permitindo que esta última maquilhe as suas contas

2002: Mario Draghi assume as suas funções no GS, que é então um intermediário privilegiado (em linguagem do meio e em inglês, lead manager ) do Tesouro grego.

2005: O contrato financeiro concluído em 2001 entre o banco e o tesouro grego é renegociado. Em particular, a sua maturidade é prolongada para mais tarde (2010) segundo uma auditoria do Eurostat.

Janeiro de 2006 : Mario Draghi vai para o Banco Central de Itália

2010: há um inquérito da Comissão Europeia sobre a maquilhagem das contas da Grécia e Eurostat publica a sua auditoria, Methodological Visit Report[1], sobre o tema. A imprensa relata que um director do banco reconhece que “com uma certa distância, a transparência não está na ordem do dia ” e que os documentos oficiais a fazer para os clientes subscritores dos títulos da dívida pública grega omitia em assinalar estas transacções[2]. Isto é uma violação do código de conduta pelo qual se regem os especialistas em valores do tesouro (SVT).

Fevereiro de 2010: Le Monde publica Antigone Loudialis [Addy], banquière chez Goldman Sachs et “habilleuse” de dette

Março 2010 : Simon Johnson (ex FMI, MIT) evoca algumas dúvidas sobre a nomeação de Mário Draghi [3].

Mai 2011 : J-C Trichet opõe o seu veto à abertura dos arquivos já referidos no quadro de um procedimento judicial iniciado por Bloomberg. O pretexto da recusa é a de nada fazer que possa desestabilizar os mercados.

Juin 2011 : Mario Draghi é questionado pelo eurodeputado que se empenhou no dossier da sua nomeação face ao Comité das questões económicas e monetárias do Parlamento Europeu[4]. MD, grande servidor público disse que no momento da sua contratação recusou trabalhar com o sector público por desinteresse para com este sector Estado, o que está em contradição com um comunicado oficial da sua entidade patronal.

Fim de Junho 2011: Apesar das dúvidas que subsistem (ou são até aumentadas?), 75% dos deputados subscreveram a sua nomeação. A votação foi feita da seguinte forma: 499 (75%) a favor, 72 (11%) contra e 89 (14%) abstenções.

(continua)

[2] Veja-se as declarações de  E. Gerald Corrigan, PhD., managing director, Goldman Sachs no artigo  Goldman Sachs banker says Greek debt hiding schemes “could have and should have” been more transparent, publicado por Finfacts Team, disponível no site: http://www.finfacts.ie/irishfinancenews/article_1019097.shtml

[3] No artigo Mario Draghi and Goldman Sachs, Again, texto disponível no site Baseline, cujo endereço é o seguinte: http://baselinescenario.com/2010/03/17/mario-draghi-and-goldman-sachs-again/

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