Peço desculpa de antemão para o caso de ter interpretado mal o artigo, mas não posso deixar de fazer duas observações. A primeira, em referência ao que me parece ser um apelo à intervenção das Forças Armadas, trazendo à memória o protagonismo que tiveram no movimento revolucionário de 25 de Abril. Com o distanciamento e com toda a prudência que me são exigidos ao falar de uma realidade que não conheço suficientemente bem, creio que se comete uma inversão de valores de certo modo injusta – acho que em Portugal foi a população que fez uma revolução – aderiu ao Movimento das Forças Armadas e aceitou os seus líderes, O 25 de Abril foi um feito glorioso, mas se a população não tivesse assumido e aceite o MFA com entusiasmo revolucionário, não teria passado de um golpe militar. Penso que, por coerência política, o povo nunca deve ceder a iniciativa ao Exército. Não há qualquer garantia de que os que se disponham a salvar o país o façam com a mesma generosidade e com a dignidade democrática de um dado momento histórico, singular e extraordinário. Se as Forças Armadas aderem em qualquer altura à causa popular, se num dado momento decidem tornar suas reivindicações que a população sente como próprias ou pelas quais o povo lutou, e se colocam na vanguarda, provocando a queda de um ditador… a história deve conceder-lhes o mérito da dignidade, mas não se lhes pode dar carta branca para salvar a patria de cada vez que as coisas correm mal.
A soberania política não pertence aos políticos nem às Forças Armadas. Pertence ao povo e é o povo que a tem de exercer. A responsabilidade dos políticos e das Forças Armadas é subsidiária da soberania popular.
Talvez eu tenha interpretado mal, e se assim foi, reitero as minhas desculpas.
A segunda observação que queria fazer refere-se ao emprego da palavra «nazis». Creio que utilizar o conceito fora do contexto histórico específico, contribui para o banalizar e para banalizar também a denúncia contra quem se emprega o termo. Existe um amplo leque de qualificativos para designar um mau governo e a actuação deletéria dos maus políticos. Porém, atrás dos maus políticos há por norma um povo que delegou neles mais poderes do que os que devia. E se os maus políticos se perpetuam no poder, é porque o povo abdicou do compromisso cívico e das convicções democráticas. E dessa abdicação deriva la desmoralização e la falta de confiança na soberania popular que nos lleva a a aceitar líderes e «salvadores da Pátria».
Se se transigisse uma vez em entregar a iniciativa a quem ela não pertence, mesmo recordando um facto glorioso que honra uma nação, em que as Forças Armadas lideraram uma explosão de dignidade democrática, como se voltará – se hoje se faz o mesmo – a recuperar a saúde democrática? Como se poderá evitar o perigo de novas ditaduras? E se designamos por nazis, governantes que são incompetentes, submissos às oligarquias e ao capital, prepotentes, arrogantes, corruptos, indiferentes, insensíveis ou tirânicos, como poderão ler a história do nazismo as gerações vindouras, bem como nós mesmos, na sua terrível dimensão? E como poderemos estabelecer correctamente as analogias históricas para as interpretar dentro do nosso contexto histórico específico?
RESPOSTA DE CARLOS LEÇA DA VEIGA
Senhor Josep Anton Vidal,
O meu texto não foi bem lido. Faço referência clara à adesão imediata da População ao Movimento das Forças Armadas já que, logo nos primeiros minutos, compreendeu o que estava em causa .
Há quem, constantemente, apresenta as sua homenagens aos militares mas, de imediato, faça logo as sua criticas de má intenção.Essa vozes de maldizer andaram anos a fio a prometer uma reviravolta política mas se não fossem as Forças Armadas nada de bom tinha acontecido aos portugueses. Esta é a realidade e só ela deve presidir ao pensamento político. Não há doutrina para poder fazer-se uma qualquer generalização sobre como deve ser o comportamento político dos militares. Tem de ser meramente casuística e,exclusivamente, objectiva.
A População – ao invés dum conhecido partido político – aderiu de imediato ao acto revolucionário do 25/4/74 e começou cedo a exigir uma alteração profunda na vida portuguesa. Só quem não sabe – ou finge não saber – é que não conhece o programa político do Homens do 25 de Abril de 1974 que, tem de reconhecer-se, estava longe de ser, apenas, um golpe político. O Programa abriu, de imediato, a livre intervenção da População. Digam que não!!!
Se o Programa do MFA tinha passagens com as quais não concordei, apesar disso, à semelhança da imensa maioria da População portuguesa, ao raiar da madrugada, comecei a dar-lhe todo o meu apoio e já, então, passei a ser o mesmo aderente que, felizmente, ainda, sou. Só espero, desejo e digo em voz alta que os Militares voltem a fazer algo de semelhante, ao invés de darem ao actual situacionismo neoliberal – nazi – o mesmo colaboracionismo que está ser dado, em São Bento, pelos partidos a si mesmo rotulados de oposicionistas.
Não aprecio aquela passagem em que o Senhor Josep A. Vidal, por assim dizer, acusa a População de ser fraca e de não saber resolver a situação por suas próprias mãos e, como diz, ao contrário, ficar à espera dum salvador. É um “cliché”, sem a objectividade mais exigível.
Para dificultar qualquer reacção da População é necessário reconhecer que ela não só tem como inimigo o Governo como, também, a intermediação – que o tempo tornou indesejável – dos partidos políticos actuais que exigem exercer e manter os poderes de bloqueio da opinião publica.Veja-se como querem acorrentar e aproveitar as manifestações populares exteriores à sua vontade.
Acrescentarei que,em Portugal, todas as grandes mudanças políticas, no essencial, tiveram a comparticipação activa e preponderante das Forças Armadas. A inteligência e a cultura da População faz-lhe perceber que a correlação de forças é-lhe desfavorável até que as Forças Armadas garantam ser suas aliadas. Lamentavelmente, as forças partidárias actuais, sem excepção, preferem vê-las suficientemente afastadas.
No dia 26 de Abril desse ano de setenta e quatro tive o prazer de ter escrito um texto que recolheu centenas de assinaturas e em que assinalava que o Movimento das Forças Armadas tinha cometido um facto político completamente inédito ao ter substituido, como anunciou no seu Manifesto, a Constituição corporativa pela Declaração Universal dos Direitos do Homem e, desde logo, ter abolido todo o Poder, até então instituído. Foram essas condições muito definidoras do carácter revolucionário do 25 de Abril, que a População aceitou de imediato.
Revelaram o carácter democrático do acto e, como assim, deram animo e força à População para começar a instituir o poder da sua força política.
O Senhor J.A. Vidal não concorda que eu tenha chamado nazis aos cavalheiros da actual governação de Portugal. Que estarei a desfigurar a História. Há nomes que a História consagra com armas bastantes para ofender quem prevarica e, que eu saiba, não servem para mais nada. Não tenho receio de ofender nem uns nem outros e devo dizer-lhe que querer fixar uma designação de perjúrio a, apenas, certos actores duma época determinada da História, só irá roubar capacidades de luta a qualquer População, em qualquer parte do mundo.
Se mais,cumprimentos do
Carlos Leça da Veiga
