EDITORIAL – PESSOAS ESPECIAIS, PAPALVOS E CONTRIBUINTES

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Não somos muito dados a usar os chamados fait divers como material publicável e muito menos gostamos de usar o que por aí circula, pois muitas vezes, esse tipo de mensagem, embora exprimindo um legítimo sentido de revolta e estejam, no que é essencial, correctos, contêm imprecisões, dados errados, pormenores que desacreditam o conjunto.

Uma dessas mensagens aponta baterias contra Fernando Ulrich, partindo da lamentável  frase «Aguentam! Aguentam». Eles, o povo, os contribuintes, os eleitores papalvos aguentam. Numa conferência de imprensa a um jornalista que lhe referiu os seus elevados honorários, perguntou se sabia quanto ganhava o treinador do Benfica. Aliás, estes senhores têm uma fixação com o mundo do futebol – Eduardo Catroga, há tempos, dizia que pessoas como ele tinham de ganhar bem e comparava-se ao Cristiano Ronaldo.

Ora, Cristiano Ronaldo é um dos melhores jogadores do mundo (há quem o considere o melhor), pode jogar em qualquer grande equipa, seja em que país for. Jorge Jesus, com ou sem pastilha elástica, pode treinar qualquer  equipa. Além disso, ganhem o que ganharem  as gentes do futebol, não é do erário público que os seus vencimentos saem. E será que Catroga (ou Ulrich) poderão ser grandes gestores num banco de Madrid ou de Londres? Ou será que apenas o facto de pertencerem a uma oligarquia tecida de negócios obscuros lhes permite estar sempre na mó de cima?

Passos Coelho, no princípio do seu lamentável governo acusou os portugueses de serem mandriões e piegas. Manuela Ferreira Leite achava bem que se suprimisse a hemodiálise para quem tivesse mais de 70 anos e não pudesse pagar. Ulrich opina que se os sem abrigo aguentam o que aguentam, todo o povo deve poder aguentar. E aguentar em nome de quê? Quando Londres estava a ser bombardeada pela Luftwaffe, os londrinos compreendiam a razão por que viviam aquele inferno. A nós estão a tirar-nos o que é nosso em nome de quê – da manutenção de sinecuras e de políticos mais do que medíocres? Para salvar bancos e permitir que pessoas como Catroga e Ulrich, independentemente de quem está no Governo, recebam ordenados milionários. E que continuem a ser arranjados lugares de topo para os seus familiares? É para manter esta oligarquia podre, de gente estúpida e de um provincianismo ridículo que a nossa economia foi destruída, a estrutura produtiva dizimada? É para que estes idiotas continuem a debitar disparates que as pensões de reforma são roubadas e o desemprego atinge números nunca alcançados?

Na tal mensagem que circula na rede, para além dos insultos a Fernando Ulrich, exibe-se este recorte do Diário da República – com decisões destas, se continua a tecer o manto de miséria que em breve nos transformará num povo sem-abrigo.

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Quando é que acordamos? Quando é que colectivamente compreendemos que a cáfila de políticos e de gestores que manda neste País o vai sugar até à última gota de sangue e, quando nada mais houver para vender, entrega a chave a quem der mais? António José Seguro já negociou a manutenção da sua liderança e já se sente com um pé em São Bento. É natural que Passos Coelho perca as eleições e que Seguro as ganhe. Com Coelho ou com Seguro, os Catroga e os  Ulrich ganharão. E nós continuaremos a perder. E a aguentar.

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