Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Terá Mario Draghi mentido ao Parlamento que aprovou sua nomeação?
Julien S, site AgoraVox
(conclusão)
A montagem e o seu acompanhamento
NB. É possível saltar directamente para a próxima secção sem dificultar a leitura do que se segue. Esta secção serve apenas como pano de fundo.
A transacção que levantou a polémica foi realizada em 2001. Esta era significativa e a dois níveis. Primeiramente, em comissões, de acordo com Le Monde, a operação teria dado centenas de milhões de euros em lucros. Em segundo lugar, a redução da dívida permitida por esta montagem, com base nos esclarecimentos do banco, em 2010, foi de 1,6% do produto interno bruto, ou 3,4 mil milhões de euros. Ela tinha um carácter sensível (ocultação de dívida) como o reconhecia um director administrativo do banco, interrogado no quadro de uma investigação europeia
O banco de investimento era o intermediário privilegiado do Tesouro grego em 2002, enquanto MD estava nas suas funções no banco em questão. Isso significava que era o banco que colocava a sua dívida pública no mercado de dívida. Mas não só: a mesma montagem financeira que é posta em causa, foi renegociada significativamente em 2005, empurrando ainda as maturidades de 2019 para 2037, enquanto MD assumiu que Mario Draghi assume o comando do Banco Central de Itália somente em Janeiro de 2006. Essa renegociação é interpretada, além disso, como sendo um novo contrato pelo Eurostat.
O status deste banco, especialista em valores do Tesouro (SVT), exige face ao governo com que ele trata e face aos investidores a quem ele vende a sua dívida pública, uma conduta “irrepreensível”. Portanto, a responsabilidade é pois partilhada entre o governo grego e o banco. Este último tem oferecido a competência da montagem e serviu de contraparte. É evidente que os investidores foram enganados.
Em princípio, qualquer pessoa que tenha tomado conhecimento destes comportamentos e de que depende hierarquicamente a pessoa que tenha realizado a instalação, deve envidar todos os seus esforços possíveis para garantir que o banco levaa os factos ao conhecimento dos investidores e, eventualmente no caso de assim não ser, compense as perdas resultantes do anúncio.
Análise da audição
O deputado Pascal Canfin (PC) posiciona-se na audição da seguinte forma:
Em 2003, o senhor estava no Directório e a trabalhar com a sua funcionária Antígona [Addy] que construiu o swap entre a Grécia e o Goldman Sachs. O senhor, portanto, tinha necessariamente conhecimento do acordo, mesmo que não tenha sido o seu iniciador. O que é que tem a dizer, para lá do curto comunicado como quem não teve nada a ver com o que aconteceu até porque este comunicado nos parece falso, sem sentido.
O interessado, na sua resposta, não confirmou nem desconfirmou que ele tinha conhecimento dos factos. Pelo menos explicitamente. Entendemos que seria difícil negá-lo após a leitura do pano de fundo precedente. Este sentimento é ainda reforçado pela proximidade hierárquica, sub-entendida na citação acima com a associada que dirigiu a montagem financeira. Por outro lado, ele tentou alegar que não tinha nada a ver com os fatos apontados [1]:
O meu trabalho no Goldman Sachs… uh o… eh… uh, os contratos entre Goldman Sachs e o governo grego foram iniciados antes de ter tomado posse. Eu disse, repeti muitas vezes e voltei a repetir ainda mais vezes, depois. Em segundo lugar, eu não tenho nada a ver com estas operações que agora se está a questionar, nem antes, nem durante, altura nem depois.
Este parágrafo mostra que não é mais do que estar a mastigar o primeiro comunicado , vago, sobre o qual lhe é pedido de se explicar, deixando-lhe, para o resto, uma verdadeira carta branca e (“o que é que tem a dizer-nos mais para além disto…”). Contudo, o constrangimento é perceptível nas tremuras, nas hesitações, da primeira frase e afirmações como “disse, repeti, voltei a repetir, ” ou ainda “nem antes, nem durante nem depois. Mario Draghi continuou com a seguinte explicação:
Em terceiro lugar, acho que as suas informações [‘intelligence, no original ] não são verdadeiramente… informações, no sentido da pertinência das suas informações, não estão completamente correctas.
Eu não era responsável por vender esse tipo de produtos aos governos, mas ao sector privado e embora Goldman Sachs me tenha pedido para trabalhar com o sector público quando eu foi recrutado, eu disse-lhes, sinceramente, que, uma vez que eu vinha do sector público, eu não tinha pessoalmente nenhum interesse, nem gosto, nem nenhuma ansiedade por trabalhar neste sector..
Duas fontes, PC e Simon Johnson em 2010, concordam em tomar como relevante um comunicado oficial (que também está acessível no site da GS) do banco segundo o qual as suas responsabilidades [2]eram :
Promover a clientela das grandes empresas europeias, dos Estados e dos organismos internacionais, bem como participar nas negociações com estas contrapartes
E isto inclui a clientela das administrações , ao contrário da sua versão de que é necessário compreender a justificação como se segue : “francamente”, não havia nenhum “interesse, nem gosto, nem as ansiedades ” em lidar frente a frente com os chefes de Estados europeus por estar já muito habituado a eles. É uma atitude estranha, muito estranha que iremos, por isso mesmo, retomar a seguir. O comunicado reflecte necessariamente, para que este seja oficial, o que foi acordado no final do processo de contratação, formalizado por um contrato de trabalho com , no mínimo, um documento de ser aceite como quadro. Será ao reler o contrato acordado que ele se deu conta do que havia aí e que ele tinha menosprezado ?
Admitamos, por hipótese, que as suas responsabilidades eram aquelas que ele afirma, levando em conta todas as suas anteriores funções: ele dirigiu o Ministério do Tesouro italiano, e antes disso, tinha sido um director executivo do Banco Mundial. Em primeiro lugar, a nova função que diz ter ocupado , a de um vendedor junto do sector privado e com a rigorosa exclusão do sector público, estará ela de acordo com a ideia que se tem, a este nível de responsabilidade internacional, de uma (normal) progressão de carreira? Em segundo lugar, parece-me óbvio que se um banco de investimento está a contratar uma personalidade pública como a de Mario Draghi é para consolidar a sua rede de ligações dentro dos círculos do poder. Este banco fez disso uma sua especialidade, alguns diriam mesmo, fez disso uma reputação sinistra. É difícil de imaginar que o Banco o tenha ligado a um papel de projectos estranhos e não consistentes que teriam seriamente prejudicado o seu potencial…
(1) Stuff, em anglais, significa « serviço », no caso presente. O registo familiar é curioso.. (2) Helped the firm develop and execute business with major European corporations and with governments and government agencies worldwide, cf ici.
Agora Vox, Mario Draghi a-t-il menti au Parlement européen qui a approuvé sa nomination ? texto disponível em http://www.agoravox.fr/actualites/europe/article/mario-draghi-a-t-il-menti-au-104606
[1] Stuff, em inglês , significa « serviçe », neste caso. O registo familiar é curioso.
[2] PROFESSOR MARIO DRAGHI JOINS GOLDMAN SACHS, texto disponível no banco Goldman Sachs, no endereço: http://www.goldmansachs.com/media-relations/press-releases/archived/2002/2002-01-28.
