Declarações de manifestantes em Madrid, no sábado passado, onde se cantou «Grândola, Vila Morena», podiam perfeitamente ter sido feitas pelos manifestantes de Lisboa. As pessoas andam desorientadas – todo um quadro de referências, construído ao longo das últimas décadas, ruiu. O Estado Social, ou aquilo que por tal se entendia entre nós, está ser destruído por uma retroescavadora chamada neo-liberalismo. Uma legião de autómatos pomposos, afadiga-se a derrubar as muralhas frágeis que se antepunham entre a generalidade do povo e o limiar da miséria.
Nos países mais atingidos pela crise económica, a desorientação generalizada pode ler-se por todos os sectores da população – os que já foram atingidos, os que estão a ser atingidos, os que, esperam que o tsunami sobre eles se abata. Em Portugaal, uma comunicação social voraz e necrófaga, explora a tragédia – declarações de recém-despedidos, suicídios, a sopa dos pobres… e as gaffes dos políticos e dos seus amos.
Esta gente está a dissolver em meses o que se conseguira em quase quatro décadas. E justificam-se com uma mentira – estávamos a gastar acima das nossas possibilidades. Estávamos a viver um bem-estar impossível. E as mentiras sucedem-se – funcionários públicos em demasia, pensões de reforma elevadas. O cerne da questão nem sequer é aflorado – os milhões de euros desviados para os bolsos de políticos, amigos e familiares. Fortunas surgidas do nada, gente que, num ápice, ficou milionária. Corrupção e roubo descarado, cometido por gente que continua impune e que continua a roubar.
Há momentos históricos em que os povos são submetidos a provas duras e compreendem por que motivo fazem sacrifícios. Não é o caso. Uma política europeia estruturada no sentido de favorecer os estados dominantes, inundando com os seus produtos um mercado alargado, foi aproveitada nos países periféricos por grupos económicos e pelos seus servos políticos para especular e para fazer render um produto fácil – a corrupção.
Há quem prefira sempre fazer a leitura optimista – a história da garrafa meio cheia ou meio vazia. A única nota positiva é o da solidariedade que nasce nas situações difíceis. Em Madrid cantou-se «Grândola, Vila Morena», a metáfora de José Afonso, para uma cidade sitiada – a «terra da fraternidade» onde «o povo é quem mais ordena».
