NOVAS VIAGENS NA MINHA TERRA – Série II – Capítulo 82 – por Manuela Degerine

A dor

Em abril de 2012 voltei a percorrer o Caminho de Santiago. Parti do Porto, dormi em Vilarinho, Barcelos, Ponte de Lima, como nos anos anteriores, todavia entre Rubiães e Valença começou a doer-me o joelho direito. Resultou uma tendinite, não muito grave, certo, mas a dor obrigava-me a coxear, a adotar uma postura incorreta e, como eu avançava lentamente, a caminhar durante mais horas – com a mochila. O que me aumentava o cansaço. Experimentei contudo se era capaz de chegar ao Porrinho, depois etapa após etapa, saindo cada dia do albergue sem a convicção de atingir o seguinte, pé normal ante pé coxinho, consegui alcançar Santiago de Compostela, mais tarde Finisterra e por fim Muxia. Os caminhantes interrogavam às vezes:

– Como é que tu consegues?!

Um fisioterapeuta disse-me, mais tarde, em Paris, que nunca se deve teimar: uma tendinite pode tornar-se crónica. Eu – felizmente – quando cheguei a casa passei dois dias a ler estendida no sofá: a dor desapareceu. Mas não volto a repetir a imprudência.

Foram, uma vez mais, quinze dias de aventura, peripécias, descobertas, boas surpresas, belas coincidências, encontros cómicos ou comoventes, todos singulares, todos enriquecedores, que não narrarei porém aqui, embora constitua matéria romanesca, em particular pela expetativa, sendo a segunda vez que partia do Porto com a intenção de chegar a Muxia, na primeira interrompera a caminhada em consequência de queimaduras solares, agora doía-me o joelho… Não me apetece contar uma viagem tão pouco exemplar, correndo até o risco de os leitores me crerem adepta do dolorismo. (O filósofo Michel Onfray põe em evidência este masoquismo da ideologia cristã.) Não, o sofrimento não traz nada de positivo – é só sofrimento. E a tendinite do joelho, posto que não me obrigasse a desistir, por eu ser a campeã dos teimosos, estragou-me paisagens sublimes, reduziu-me momentos grandiosos – a quê? À dor no joelho. Nem posso sequer dizer que nesta caminhada-com-tendinite aprendi a valorizar o corpo-sem-incómodos, pois é uma sabedoria que, com a idade que tenho e uma mãe deficiente, conseguira há muito alcançar. Sofrer num espaço como a Galiza é um desperdício de oportunidades, por conseguinte “protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir” se há-de fazer crónica, mas só quando o prazer da caminhada me voltar a levar do Porto a Muxia. (Terceira tentativa.)

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