Uma viagem pelos países da Europa atingidos pelo escândalo da carne de cavalo
Por Júlio Marques Mota
Uma peça dedicada ao meu amigo Gama, à sua égua, às crianças que a montaram
(continuação)
Parte II
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Pois bem, é então da Holanda que parte a ordem de compra para o produtor na Roménia e agora da Roménia que finalmente aparece a carne, neste caso a verdadeira carne de cavalo, expedida como deve ser, etiquetada como deve ser, com a referência “0205 0080”, referência da carne de cavalo e não etiquetada como “0201” ou “0202” códigos para a carne bovina. Mas aqui nesta Europa do grande capital onde é necessário satisfazer a ganância destes capitais através de taxas de rentabilidade elevadas, então responder a esta mesma ganância é aqui e para que este mesmo efeito se possa gerar que a carne de cavalo por magia passa então a carne de vaca. Os ganhos aumentaram e garantidamente os circuitos de passagem pelos paraísos fiscais desta carne garantem que estas margens brutas não serão fortemente diminuídas pelos impostos, não, de forma nenhuma assim poderá ser, pois o sistema blindou-se logicamente pela optimização fiscal que estes paraísos fiscais possibilitam. Sobre estes circuitos a Comissão Europeia e as suas instituições europeias nunca se incomodaram verdadeiramente e para quê? Para quê, olhem que belo exemplo de mercado único, a carne a passear por esta Europa, as margens de lucro a crescerem e os preços a baixarem.
E agora dizem-nos que burros somos nós, em acreditar que àquele preço seria carne de vaca!
Mas olhemos para o esquema. A carne farta-se de viajar. Desnecessário, mas necessário na lógica da optimização dos lucros e da minimização dos impostos. E os custos de transporte, perguntarão?
Disso se encarrega a União Europeia com os seus mecanismos de dar fim ao Direito do Trabalho. Com a retirada sucessiva de direitos, com o aumento das horas de trabalho, com a retirada das remunerações sobre as horas de trabalho extras que assim deixam de o ser, com as retiradas de direitos duramente conquistados, com a diminuição dos subsídios de desemprego, com a diminuição dos apoios na saúde, etc. A diminuição dos custos de transporte passa por estre trajecto jurídico, não rodoviário
Sem grandes discursos até porque esta introdução já vai longe, deixo-vos aqui um pequeno relato que a tudo isto pode estar ligado.
Em tempos apanhei um táxi, imaginemos para o Alto de S. João, em Coimbra. Chegados perto, o motorista do táxi, num cruzamento e já perto do destino, diz-me: desculpe-me, enganei-me. Não quer ir para a Quinta de S. João? Sabe, sou novato nesta profissão, ando aqui há menos de um mês.
Não, está bem mo caminho que tomou, estou a chegar ao destino. Confundiu apenas os nomes que são parecidos, mas veio para o destino correcto. Caso contrário, eu tinha-lo dito. Mas espere: diz-me que é novato nisto. Como, se mesmo enganando-se tem na sua cabeça o mapa da cidade? Se não sou indiscreto, o que andou a fazer antes de vir para motorista de táxi?
A resposta mostrou que a minha pergunta era pertinente: fui motorista em trajectos de longo curso para transporte rápido de uma das maiores empresas desta fileira, a dos transportes rápidos e muitas vezes por encomenda própria, de entrega directamente ao cliente, do tipo da DHL.
Ah, então tem todos os mecanismos automáticos de um motorista de táxi. Mudou apenas o meio onde os exerce, disse eu. E pensei, com os meus botões: o ensino é exactamente isto. Aprender, e depois aprender a saber fazer. Ganhar a capacidade de saber fazer, e depois aprender a fazer. O motorista era aqui um claro exemplo disto mesmo. Mas continuei: já agora, porque saiu?
Bom, aqui encontramos a “nossa carne de cavalo” pelas vias que quisermos. A resposta é de antologia. Tinha timings marcados e rígidos para chegar aos locais de destino e estes impunham-me velocidades sempre no limite, e durante muitas horas por dia, imaginemos 12 horas por dia. Havia seguro, havia uma fasquia para cima de 1000 euros. Todo o pequeno acidente havido e de custos abaixo deste valor ficava por minha conta e risco. Passava a vida a descontar do meu ordenado para isso e este era assim que assim minguava, minguava, quando à partida já era muito baixo. E um dia, a conduzir sempre nos limites, corria o risco de perder a carta de condução e ficava no desemprego. Quero viver com alguma paz e alguns anos mais, e já agora empregado.
Numa aula de Economia Internacional tomei este exemplo para mostrar como na União Europeia se respondia à globalização desarmando os mecanismos de protecção dos salários condignos, para assim ou não se perderem produtos na competição global ou para se ganharem produtos e estaríamos assim a caminhar na Europa para um espaço económico global mais próprio do Terceiro Mundo do que outra coisa, uma vez que a variável para ganhar competitividade era a baixa dos salários e havia muitas formas de a obter, mais violentas, menos violentas. Sócrates, já por imposição de Bruxelas, terá aplicado as menos violentas. Depois, como as aguentámos, vêm então as mais violentas, pela mãos dos boys do actual executivo e sob o controle dos mesmos patrões. É de resto isto que se tem estado a ver. E com que violência o fazem! E foi esta pequena viagem de táxi que serviu de referência a uma aula sobre um modelo de especialização internacional, uma forma de ligar a teoria ensinada ao que se estava a passar e de mostrar que o não sentido dessa realidade tinha mesmo sentido, era a lógica de um dado modelo, o neoliberalismo puro e duro. E isto, era a propósito da cadeia de desigualdades de Taussig-Haberler.
É com esta desregulamentação do mercado de trabalho sobre todos os motoristas no espaço europeu, é essa desregulação com a entrada de pequenos camionistas, pequenos patrões independentes e dispostos a tudo para sobreviverem, que a carne de vaca, minto de cavalo, transformada depois e por magia em carne de vaca poderia passear por esta Europa fora à procura da minimização de custos. E para a minimização dos impostos, uma outra vertente, tínhamos os paraísos fiscais que todos estes passeios possibilitavam. Nesta sandwiche bem especial, no meio desta sandes, cujas partes são trabalho e produtores independentes, camionistas ou não, ficavam, algures, os lucros chorudos disto tudo.
Desta Europa, do seu modelo, das suas negações aos direitos, é de tudo isto que nos fala a história da carne de cavalo por magia em carne de vaca transformada, que aqui vos deixo.
E boa leitura.
