Num lugar em nenhuma parte
Num lugar em nenhuma parte havia uma casa com pessoas que a habitavam. Bom, para ser sincera, havia mais casas que uma. Todas com os seus cimentos e bases, compartimentadas em quartos úteis, com as suas traves e telhados, com as suas janelas e portas. E as pessoas faziam a vida dentro, fora e arredor.
Depois as cousas todas foram organizadas. E sobre a casa houve assembleias públicas e privadas, acordos públicos e privados, roubos públicos e privados, latrocínios (deixemos já a distinção), homicídios, assassinatos, coroações, condecorações, perseguições, processos, matrimónios organizados, homossexualidades reprimidas, nomeamentos inominados.
Parlamentos e parladoiros, constituições e constipações, repúblicas privadas, monarcas públicos, condados e ducados condeducados, presidentes presentes e ausentes, misteriosos ministérios, provincianos chefes de província, alcunhados alcaides alguazis, bem fiados secretários e notários, escrivãos escrevinhadores, historiadores, padres, popes e papas do mundo conhecido e desconhecido. Cada vez mais desconhecido, cada vez mais enterrado na complexa construção organizativa.
Mas lembremos que a casa e a sua gente estavam ali muito antes disso tudo começar.

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«Tenho unha casinha branca na Marinha entre loureiros,
tenho paz e tenho amor e estou vivendo no céu.
Ailalala, ailalala..
E adeus à minha casinha, portelo do meu quinteiro,
água da minha fontinha, sombra do meu laranjeiro
Ailalala, ailalala..»
Também houve um dia em que as casas elevaram muros ao seu redor. A nossa ficará sempre franca para você.
belíssima metáfora, Isabel, a da nossa casa: como a evocamos quando estamos a ponto de perdê-la! a questão é: quem foi “o filho pródigo”? foi quem pediu partilhas e se lançou ao mundo, sem por isso deixar de ser nós? ou quem não as pediu mas se aconchegou a quem mais podia, talvez pensando que um dia herdaria tudo, mas afinal ficou sem nada?
só sei que ainda estamos vivos, e ainda somos donos da língua, ou ela é dona de nós… e como poetava o nosso Celso Emílio Ferreiro:
“havia um lume aceso
na casa dos avós,
agora bem comprendo
que o lume eramos nós”…
abraço!
Sim, o lume somos nós.
José Luís, Tero e Dália, Carlos e Pedro, muito obrigada. Forte abraço.
E a gente continuará aí, a pensar (a gente pensa!) e a fazer (a gente sempre faz: somos homo faber!), a dormir mesmo (“dormire necesse est”, que diz Bento XVI).
Gostei: Vales muito, és uma artista nada escotista, nada metafísica embora aguda!