Grândola, vila galega
Se Grândola soubesse que há galegas e galegos presos por delito de proclamar publicamente a vontade de independência para a Galiza. Que são sequestradas e retidas nos cárceres espanhóis, muito longe das suas famílias, acusadas disto e daquilo sem mais provas que a vontade policial espanhola.
Se Grândola soubesse que emigramos aos milhares por falta de emprego, que as idosas lutam por impedir os próprios despejos, que professorado e alunado se encerram nos centros de ensino, que os olhos dos moços saltam pelos ares nas brutais intervenções policiais, que os foros pelo uso dos hospitais estão em marcha, que a saudade já não disputa com a pobreza, dona e senhora do material e do imaterial.
Se Grândola soubesse que as mãos que artelham o desastre aqui apertam as mãos dos que acabam com os serviços sanitários aí. Dos que vos esfarelam a educação, dos que espalham o desemprego crónico e a emigração maciça. Dos que disfarçados de austeridade em nome dos seus donos empobrecem e avassalam a vida. Dos que murcham os cravos do 25 de abril.
Se Grândola soubesse que essas mãos se unem fortemente para manter a Galiza longe de Portugal. Para separar-nos e que entre nós cresça o abismo. Para esquecermos todo o que nos une e nos manter nas suas mãos.
Se Grândola soubesse que hoje foi chamada de novo aqui, como a primeira vez…
Digam-lho, por favor, façam-lhe chegar a mensagem.

mensagem anterior: Num lugar em nenhuma parte


é: as políticas do Estado Espanhol e seus a lateres na Galiza estão “bem” traçadas: atrair uma minoria de cipaios mal falando o castelhano e esmagar o resto, fomentando a emigração do campo à cidade e desta ao estrangeiro; claro, com uma folha de parra diante, para que não se vejam as vergonhas: montando “chiringuitos” de sisudas “culturas” para arquivar e matar o que fica da língua; triste, mas verdadeiro; vão ficando pouca/os conscienciados, mas ficam, para testemunhar, para lutar, e para recriar a nossa comunidade;
parabéns, Isabel!
Grândola, vila galega está de mãos atadas, mas já quando menos não está amordaçada, começa a ter voz, uma voz contra a qual nada podem os muros espanhóis, voz que ultrapassa o Minho e o Atlântico. Voz que vai e volta cheia de esperança. Os prisioneiros começam a ser cientes que há mundo além dos muros. Grândola, vila galega está de olhos vendados, mas alguns prisioneiros conseguem ver, e contar aos outros aquilo que foi visto. Alguns não acreditam, outros até se ofendem, como naquela caverna do Platão, e até há quem os trata de loucos. Mas a cada raio de luz que penetra, vão caindo mais e mais vendas.
Grândola, vila galega é ainda um sonho. Aqui, como no sul. Mas só sonha quem também é capaz de pensar, e com vontade e inteligência é como os prisioneiros se poderão libertar.
Sonhemos, porque sonhar é sinal de estarmos vivos ainda.
Parabéns por tão emotivo artigo. Uma forte e fraterna aperta.
Carlos, Marcos, não sei como agradecer a leitura e comentários. Estes são textinhos, garavanços, pequenos grãos-de-bico(s) dados a este Portugal que não nos faz caso, mas que hoje murcha nas mãos dos mesmos que nos murcham a nós. Alguém se dará conta e lho dirá à Grândola? Se ela soubesse, com certeza fazia algo de bom. Abraços apertados.